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Você recebe uma proposta de emprego incrível pela Internet: trabalhar no exterior, receber um salário bacana, morar em um país diferente… Parece a chance dos sonhos, a oportunidade de construir um futuro melhor para você! 

Então, você aceita a proposta e faz as malas. Mas, chegando ali no novo país, você percebe que caiu numa cilada. O seu passaporte é confiscado, você é forçado a trabalhar em condições desumanas e qualquer tentativa de escapar pode custar sua vida. O sonho virou um pesadelo… 

Foi o que aconteceu com Luckas Santos e Phelipe Ferreira em 2024. Esses dois brasileiros caíram numa rede de tráfico humano (que é a exploração forçada de pessoas pra trabalho, sexo ou outras formas de abuso, muitas vezes envolvendo redes criminosas), em Myanmar, na Ásia. E, assim como eles, pessoas do mundo todo são enganadas todos os anos. 

As vítimas são aliciadas, exploradas de forma cruel e, em muitos casos, torturadas. Algumas nunca mais são vistas. Outras tentam fugir…

No episódio de hoje, eu vou te contar os detalhes sobre esses esquemas de tráfico humano em Myanmar. E vou te contar sobre como o Luckas e o Phelipe foram capturados e o que aconteceu com eles. 

CASO

Gente, eu quero começar esse episódio aqui falando um pouquinho sobre Myanmar. Para contextualizar, Myanmar é um país que fica na Ásia e que faz fronteira com a China, Bangladesh, Laos, Índia e com a Tailândia. Dá uma conferida em onde fica Myanmar no mapa mundi:

LOCALIZAÇÃO DE MYANMAR:

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Myanmar 

Durante boa parte dos séculos 19 e 20, Myanmar foi colonizado pelo Reino Unido. Nessa época, Myanmar se chamava Birmânia. Ele só se tornou um país independente em 1948, quase 80 anos atrás.

Hoje, em 2025, Myanmar tem aproximadamente 50 milhões de habitantes e vive sob uma ditadura militar e uma guerra civil. E esse “caos” (entre aspas) que o país tem vivido por conta da guerra civil tem proporcionado um ambiente meio sem leis. Então, vários crimes acontecem em algumas regiões ali, como o tráfico humano, por exemplo. Que é o que aconteceu com o Luckas e o Phelipe… 

Por exemplo: no leste de Myanmar, existe um local chamado Estado de Karen. Neste local, vivem os Karens - um grupo étnico formado por comunidades nativas do sudeste asiático.

MULHERES KARENS:

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Karens 

Eu vou deixar na tela agora um mapa para vocês darem uma olhada onde fica especificamente essa região de Karen em Myanmar. Ela fica em uma região do país que faz fronteira com a Tailândia:

MYANMAR – ESTADO DE KAREN / FRONTEIRA COM A TAILÂNDIA:

Fonte: https://www.google.com/maps/place/Kayin,+Myanmar/@19.1469865,89.9112592,5z/data=!4m6!3m5!1s0x30c2afd4874dca85:0x51bc19501b4f219c!8m2!3d16.9459346!4d97.9592863!16zL20vMDJoMW50?entry=ttu&g_ep=EgoyMDI1MDMwMi4wIKXMDSoASAFQAw%3D%3D 

[EDIÇÃO: SUGIRO COLOCAR UMA SETA APONTANDO PARA A REGIÃO ALI NO MAPA, PORQUE SÓ COM O PONTILHADO VERMELHO QUE ESTÁ ALI TALVEZ FIQUE PEQUENO PARA A PESSOA DISTINGUIR A REGIÃO]

De acordo com reportagens da BBC, há oito anos atrás, em 2017, o estado de Karen, em Myanmar, não tinha nada: era só mata fechada e algumas construções precárias. Era (e ainda é) uma das regiões mais pobres do planeta… 

Nessa região, não existe um governo nem um sistema jurídico atuando ali na prática. Em teoria, era para ter essas coisas, mas elas não chegam lá de forma eficiente. Isso porque, como eu disse, Myanmar está em guerra civil, um conflito que começou em 2021 e que está rolando até hoje (eu estou gravando este episódio em 2025, gente). Então, meio que não tem autoridade ali, sabe?!

A região é dividida entre vários grupos armados, cada um dominando um pedaço do território na fronteira com a Tailândia. Esse cenário de caos é o que torna o Estado de Karen um paraíso para negócios ilegais. 

Nos últimos quatro anos, criminosos (muitos chineses) se aproveitaram do isolamento da região que eu comentei e também da falta de fiscalização e de leis ali para criar seus QG’s do crime. 

Foi neste contexto que surgiu uma pequena cidade ali: Shwe Kokko – que quer dizer "árvore tropical dourada", em português.

Então, basicamente, segundo a BBC, a cidade é um ninho de esquemas criminosos. Dali de Shwe Kokko, saem golpes pelas Internet que roubam dinheiro de milhares de pessoas do mundo todo… Os scams viraram um negócio bilionário na cidade, segundo a BBC. 

SHWE KOKKO:

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czx8q7789g2o 

Milhares de pessoas trabalham ali aplicando golpes. Algumas trabalham ali por vontade própria: a BBC conversou com uma jovem, que não teve a identidade dela revelada e que trabalhou num desses centros de fraudes. Ela contou que fazia parte de uma equipe que entrava em contato com possíveis vítimas pela Internet. Os alvos eram, principalmente, idosos… 

Essa equipe conversava com as vítimas e tentava criar uma relação mais próxima com elas, tentando ganhar sua confiança para aplicar golpes. O primeiro contato era sempre casual, com comentários tipo: "você parece muito com um amigo meu". Depois que a conversa engatava, ela enviava fotos (muitas vezes fotos de pessoas aleatórias que elas encontravam na Internet).

Depois disso, elas diziam pras vítimas que tinham enriquecido com uma série de investimentos em criptomoedas. Quando a vítima confiava nesse papo, a conversa passava para um outro setor, que assumia a conversa e o golpe, insistindo para que a vítima investisse em uma suposta empresa de criptomoedas. 

Se a pessoa investia mesma nessa “empresa” (entre aspas), nunca mais via o dinheiro de volta… 

Essa jovem entrevistada pela BBC ainda reforçou que quase toda a cidade tem algum envolvimento nos golpes. Ela especificamente conseguiu parar de trabalhar ali e sair por vontade própria. Mas parece que esse não é o caso para todas as pessoas…

A gente não tem detalhes sobre o que de fato acontece dentro de Shwe Kokko e a empresa que investiu na cidade nega que crimes acontecem lá, mas, pelos relatos de quem foi lá, a cidade tem todos os trejeitos de que abriga um esquema criminoso grande, que supsotamente envolver tráfico humano para alimentar essa indústria de golpes. 

Pelo que diz a BBC, muitas vezes, estrangeiros são atraídos por aliciadores com falsas promessas de emprego… Um bom salário, uma vida melhor. Mas, quando chegam lá, os estrangeiros são mantidos contra a vontade  e obrigados a trabalhar cometendo crimes. Ou seja, são escravizados.

Em vários prédios da cidade, por exemplo, as janelas têm barras pelo lado de dentro. Imagina-se que para impedir a saída ou fuga de quem está ali dentro contra a própria vontade… 

JANELAS GRADEADAS EM SHWE KOKKO:

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czx8q7789g2o 

Mas Shwe Kokko não é o único lugar da região que abriga esquemas de golpes e de tráfico humano. Existem vários! De acordo com o G1, a ONU estima que mais de 100 mil pessoas estão presas em vários centros de golpes em Myanmar, vivendo condições análogas à escravidão. 

Agora, a gente vai parar de falar sobre Shwe Kokko, que eu trouxe pra contextualizar, e vai falar sobre outro local: KK PARK – um complexo onde pessoas também são forçadas a cometer crimes, enganando vítimas dos Estados Unidos, da Europa e da China. Foi nesse lugar que Luckas e Phelipe ficaram presos… 

Esse KK PARK foi construído em 2020 e imagens de satélite mostram que ele parece um presídio - um conjunto de vários prédios com muros altos, arame farpado e seguranças armados. Ele é como se fosse uma fábrica, uma indústria de cometer golpes e tem supostas conexões com a máfia internacional chinesa.

Desde a sua construção, em 2020, a área do KK PARK já quadruplicou de tamanho. E, de acordo com a Deutsche Welle, que é um portal de notícias alemão, esse é apenas um entre, pelo menos, dez centros de golpes online que existem na região.

KK PARK:

Fonte: https://www.dw.com/pt-br/milhares-s%C3%A3o-resgatados-de-f%C3%A1bricas-de-golpes-online-em-mianmar/a-71678281 

Esse lugar fica perto de duas cidades: Myawaddy, que fica em Myanmar, e Mae Sot, na Tailândia. Ou seja, esse KK PARK fica em Myanmar, mas fica perto da fronteira entre Myanmar e a Tailândia… 

São cerca de 12 quilômetros de distância entre Myanmar e a Tailândia. Em teoria, isso dá 20 minutos de carro. Mas a gente sabe que aquela região é complicada por conta da guerra civil. Então, é possível que, na prática, o tempo de viagem seja maior… 

DISTÂNCIA – MAE SOT E MYAWADDY

Fonte: https://www.google.com/maps/dir/Mae+Sot,+Mae+Sot+District,+Tak+63110,+Tail%C3%A2ndia/Myawaddy,+Myanmar/@16.7055981,98.4501777,12z/data=!4m14!4m13!1m5!1m1!1s0x30ddbda33d818e6d:0x30346c5fa8a7750!2m2!1d98.5746649!2d16.7124054!1m5!1m1!1s0x30dd9e4abc3f0f29:0x1f9e5f7d468b6650!2m2!1d98.5007116!2d16.6842708!3e0?entry=ttu&g_ep=EgoyMDI1MDMwNC4wIKXMDSoASAFQAw%3D%3D 

Em 2024, Luckas Viana dos Santos, paulista de 31 anos, trabalhava em um cassino na Filipinas. Porém, depois de alguns meses, esse cassino em que ele trabalhava fechou. Aí, sem emprego e sem muito dinheiro pra voltar pro Brasil, ele começou a procurar oportunidades de emprego.

LUCKAS VIANA DOS SANTOS:

Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/02/11/brasileiros-vitimas-de-trafico-humano-e-escravizados-ha-mais-de-tres-meses-em-mianmar-sao-resgatados-e-familias-de-sp-comemoram.ghtml 

Foi uma pessoa que dizia ser recrutador de uma empresa de tecnologia entrou em contato com ele pelo Telegram: foi um armênio que falava vários idiomas, incluindo o espanhol, o que facilitou a comunicação entre eles, já que o Luckas tem uma familiaridade muito grande com o Espanhol por já ter morando cerca de 10 anos na Argentina. Esse armênio ofereceu uma vaga pro Luckas, que parecia ser uma vaga boa, nessa suposta empresa.

Era uma oferta de trabalho na Tailândia (país que o Luckas sonhava em viajar). A vaga era de apenas seis meses e a empresa daria acomodação, comida, visto para a Tailândia e um salário de 1.500 dólares.

Então, Luckas aceitou a oferta e aceitou também ser levado até Mae Sot, uma cidade na Tailândia que fica na fronteira da Tailândia com Myanmar, por uma outra pessoa, que se apresentou pro Luckas como representante dessa suposta empresa.

Durante o trajeto, que ocorreu em 7 de outubro de 2024, Luckas começou a achar aquilo tudo estranho. Ele mandou mensagem pra um amigo que morava nas Filipinas, dizendo que a viagem estava durando mais do que o previsto. Além disso, o caminho era esquisito: Luckas tinha passado por uma selva, depois pegou um barco e então um carro.

Em certo momento, Luckas viu umas placas escritas em birmanês, que é a língua oficial de Myanmar. E foi nesse momento que Luckas percebeu que talvez ele nem estivesse na Tailândia. 

Em uma das mensagens, ele escreveu: "parece tráfico"... 

Ele chegou a pedir ao amigo com quem ele estava trocando mensagens que chamasse a polícia, mas desistiu logo em seguida. Luckas disse que tentaria resolver tudo sozinho, porque estava cercado por muitas pessoas armadas. 

O que aconteceu? Luckas achava que ia até uma empresa normal, como qualquer outra, na Tailândia, mas acabou sendo levado pro KK PARK, em Myanmar, onde teve seu passaporte confiscado. Chegando lá, ele enviou uma mensagem pro amigo, avisando que ele teria que entregar o celular pras pessoas que tinham pego ele. 

É possível que, quando Luckas chegou no KK PARK, nem tivesse caído 100% a ficha do que estava acontecendo com. Mas logo ficou claro:

Essa entrega do celular não foi tranquila: Luckas questionou o porquê ele teria que entregar seu celular, até porque ninguém tinha falado pra ele antes que ele teria que entregar o celular quando aceitou a proposta de emprego… 

Então, um desentendimento teve início ali e Luckas foi agredido com uma arma de choque e sangrou bastante. Depois, o pessoal que comandava o KK PARK até deixou que Luckas ligasse pra pessoa que tinha contratado ele, pra tentar resolver essa coisa do celular. Luckas até conseguiu falar com a pessoa, mas não adiantou de nada. Luckas ficou sem seu celular… 

Posteriormente, Luckas descobriu que o armênio - que tinha “contratado” ele (entre aspas) - morava em Dubai. Parece que o cara nem ficava no KK PARK. Ele tinha sido contratado apenas para aliciar pessoas. O cara não ia ajudar com nada de celular… 

Depois disso, ali no KK PARK, Luckas passou por momentos de desespero, a ponto de considerar até tirar a própria vida devido ao sofrimento e às jornadas de trabalho forçado de mais de 15h por dia, aplicando golpes.

Em novembro de 2024, outro brasileiro também foi levado para o KK PARK com uma falsa promessa de emprego: Phelipe de Moura Ferreira, de 26 anos.

PHELIPE FERREIRA:

Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/02/13/video-mostra-resgate-de-brasileiros-vitimas-de-trafico-humano-em-mianmar.ghtml 

O pai dele, Antônio Ferreira, contou pro G1 que o filho já tinha trabalhado em 2023 em outros países, como Filipinas, Dubai e Uruguai, onde trabalhou com aplicativos de jogos online relacionados a apostas.

Em 2024, enquanto Phelipe estava morando no Uruguai, ele recebeu uma proposta de emprego pelo Telegram. Era uma vaga na área de tecnologia na Tailândia, para liderar uma equipe de um call center. O trabalho seria em Mae Sot.

A pessoa que conversou com Phelipe sobre a vaga de emprego dizia ser a chefe da suposta empresa que estava oferecendo a vaga. Sempre muito gentil, essa pessoa mandava fotos ali da cidade, do lugar (o quarto) onde Phelipe iria morar… Parecia um lugar bonito. Mas era tudo falso. Tudo pra passar confiança. E funcionou, porque Phelipe aceitou o emprego.

Durante as conversas, os dois até falaram sobre tráfico humano. Phelipe disse que tinha medo, mas a pessoa garantiu que jamais faria algo assim.

Mas a verdade é que ela mentiu: essa pessoa era uma aliciadora, alguém treinado para enganar e conquistar a confiança da vítima, para atrair a vítima pra armadilha.

Quando Phelipe chegou à Tailândia, um motorista buscou ele no hotel e disse que ia levar o rapaz até onde ele ia trabalhar.  

Mas o caminho foi mais longo do que era pra ser… Além disso, no meio do percurso, eles trocaram de carro e seguiram até um campinho de futebol perto de um rio, que marca a fronteira entre a Tailândia e Myanmar. Nesse campinho, tinham vários homens armados e um barco no rio. 

Sem opção, Phelipe foi obrigado a entrar no barco. Ele não reagiu, provavelmente por medo. E nem tinha mais o que ele podia fazer… Se ele tentasse correr ali, é possível que até matassem ele. Phelipe entrou no jogo dos caras ali pra sobreviver… 

Então, o barco atravessou o rio… Uma travessia de aproximadamente um minuto da Tailândia até Myanmar. Já em Myanmar, ele foi levado até o KK PARK (assim como fizeram com o Luckas). 

Assim que ele chegou no local, Phelipe foi obrigado a entregar seu celular e o passaporte. Além disso, Phelipe também foi obrigado a fazer um teste de HIV.

Nesse local, Phelipe descobriu que tinha outro brasileiro ali: Luckas, que eu comentei agora há pouco. Parece que, quando Phelipe chegou ali, Luckas tinha se recusado a trabalhar e, por isso, estava sofrendo uma punição…. Certa vez, Phelipe entrou sem querer numa porta errada e viu o Luckas amarrado, com as mãos presas, em um quarto todo escuro. 

Ali dentro, os dois – e as milhares de pessoas presas no complexo – eram forçados a aplicar golpes em vítimas do mundo todo:

Phelipe explicou que todo o esquema seguia um script. Eles recebiam um roteiro com uma historinha inventada de um personagem: então, nesse roteiro tinha a rotina do personagem, seus gostos, seu passado... tudo bem elaborado para parecer real e convencer as vítimas. 

Seguindo esse script, eles criavam perfis falsos nas redes sociais pra esse personagem e começavam a entrar em contato com possíveis vítimas do mundo inteiro (que eram chamados ali dentro de “clientes”). Ou seja, eles se passavam por uma pessoa que não existia… 

Para deixar os perfis falsos parecendo verdadeiros, Phelipe conta que eles eram obrigados a colocar nesses perfis fotos de pessoas verdadeiras, que eles pegavam na Internet. 

Algumas dessas pessoas, eram até relativamente famosas. Phelipe, por exemplo, chegou a usar fotos de uma modelo chinesa verdadeira.

No começo, as conversas com as vítimas eram bem básicas: eles perguntavam nome, idade, onde moravam, se eram casadas, qual era a profissão, quanto ganhavam…

Mas, com o tempo, eles iam tentando criar um laço emocional, tentando criar, às vezes, até uma relação mais íntima, com as vítimas. Às vezes, eles até mandavam fotos sensuais da personagem – de pijama, saindo do banho depois da academia… tudo pra fortalecer a relação. Phelipe conta que tinha gente que se apaixonava mesmo.

No quarto dia do golpe, Luckas e Phelipe pediam "ajuda" pras vítimas. Eles diziam pras elas que trabalhavam em uma plataforma de compras online chamada Wish (que é tipo uma Shopee) e que precisavam de ajuda. Se a vítima ajudasse a finalizar um trabalho na plataforma, a vítima ganharia uma comissão de 20 a 30 dólares.

Aí, a pessoa que estava sendo enganada se cadastrava na plataforma e ajudava, apertando alguns botões no aplicativo. Os botões nem deviam fazer nada, na verdade… Devia ser só pra enganar mesmo, fazer a pessoa achar que estava ajudando de verdade.

Para sacar a comissão prometida, a pessoa precisava fazer um cadastro em um aplicativo de troca de criptomoedas (adicionando ali informações como, por exemplo, dados de cartão de crédito). Aí, ela realmente sacava o primeiro valor… Ela recebia a comissão.

E só depois disso que vinha o golpe: no dia seguinte, Phelipe, Luckas e outros pediam ajuda mais uma vez. Pras vítimas continuarem ganhando as comissões, elas tinham que continuar fazendo tarefas na plataforma. E, para fazer essas tarefas, elas precisavam fazer recargas. Ou seja, colocar um dinheiro ali na plataforma… 

E era assim que o esquema tirava dinheiro das pessoas. Primeiro a recarga era de 150 dólares. Depois, de 500... E ia assim até chegar a 5 mil dólares (que hoje dá coisa de 30 mil reais). E as vítimas não conseguiam mais sacar comissão nenhuma… 

Gente, esse é só um dos tipos de golpe que são cometidos ali dentro do KK PARK, tá?! Esse é o tipo de scam que o Phelipe relatou que fazia, mas com certeza existem outros tipos, que outras pessoas são obrigadas a cometer ali dentro.

Phelipe contou que brasileiros eram mais difíceis de enganar. Já vítimas de outros países, como Rússia, Ucrânia e alguns países da América, caíam com mais facilidade. Por ser brasileiro, Phelipe foi forçado a se dedicar a aplicar golpes em outros brasileiros, por conta do idioma ser o mesmo (o português).

Phelipe também falou sobre uma “cliente” (entre aspas) do Caribe que foi enganada por um chinês e que perdeu 350 mil euros (cerca de 2 milhões de reais). Essa vítima chegou a fazer um empréstimo e até comprou uma casa, acreditando que o personagem do perfil falso era verdadeiro, que gostava dela e que viajaria para viver com ela.

Phelipe contou que tentava escolher vítimas que tinham menos dinheiro para que os golpes não dessem certo e, sempre que terminava seu turno, ele chorava no quarto… 

Às vezes, alguns dos imigrantes sequestrados ali no KK PARK chegavam a trabalhar até 22 horas diariamente, sob supervisão de líderes de equipe, que eram chineses que monitoravam tudo a cada 10 minutos. 

Se não aplicassem os golpes, os imigrantes que tinham sido sequestrados eram punidos com agressões físicas e com choques elétricos. Durante seu tempo no cativeiro, Luckas foi punido repetidamente com agressões físicas, incluindo choques elétricos e espancamentos com bambus e canos. Ele conta que foi mantido algemado por longos períodos e submetido a torturas psicológicas e físicas, chegando a ter hematomas graves e marcas permanentes nos pulsos devido às algemas. 

E, se alguém não batesse a meta mensal de golpes, no fim do mês vinha a punição, que podia ser tomar um eletrochoque, espancamento ou squat down, um castigo que obrigava a pessoa a fazer agachamentos.

Phelipe não chegou a ser eletrocutado ou espancado, mas foi punido três vezes com agachamentos. Na primeira vez, teve que fazer 100 repetições em cima de uma plataforma cheia de pregos. Na segunda, foram 300. Na terceira, 500 agachamentos… 

Depois das punições, Phelipe mal conseguia andar… Ele contou que suas pernas simplesmente travaram, mas que, mesmo assim, ele era obrigado a continuar aplicando golpes depois da punição. Ou seja, era forçado a trabalhar.

Ele também relatou que viu outros imigrantes sendo agredidos e começou a acreditar que, em algum momento, ele seria morto. No quarto onde ele ficava, tinha também um homem de outra nacionalidade. Ele tentou fugir uma vez, mas foi capturado e sofreu punições pesadas. Durante 20 dias, esse homem foi espancado, levou choques elétricos e foi acorrentado a uma cama de ferro, com os pés amarrados.

Phelipe ainda contou que seu maior medo era levar o choque, porque isso pode matar alguém… 

Como Luckas e Phelipe trabalhavam com computadores e celulares, eles tinham algum acesso à Internet e conseguiam, de vez em quando, entrar em contato em segredo com amigos e familiares para dar notícias e pedir ajuda.

Manter esse tipo de conversa era bem perigoso, já que os computadores e celulares eram vigiados… Os imigrantes presos ali tinham que apagar as mensagens pra não serem descobertos. Se o pessoal que mantinha eles presos descobrissem, eles podiam acabar recebendo punições severas. Então, as comunicações não eram frequentes, o que deixava os familiares deles no Brasil aflitos…. 

Certa vez, cerca de uma semana depois de chegar no KK PARK, por exemplo, o Phelipe conseguiu entrar em contato com seu pai, Antônio Ferreira e disse que sofria ameaças constantes, incluindo a possibilidade de ter órgãos retirados. 

Luckas também entrou em contato com familiares. Em uma dessas trocas de mensagens, ele relatou estar cheio de hematomas e sem conseguir andar, por conta dos castigos físicos que teria sofrido.

Ele disse em uma das mensagens (abre aspas): “Só quero ir embora. Me ajude, tenho medo de morrer. (…) Faz dois dias que não tomo banho. Nós trabalhamos mais de 15 horas por dia. Isso não é vida, não sei o que fazer. Eu quero ir embora ou morrer”.

Fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-que-se-sabe-sobre-o-caso-de-brasileiros-vitimas-de-trafico-humano-em-mianmar/ 

As famílias de Luckas e Phelipe chegaram a procurar a polícia no Brasil e foram orientadas a falar com a embaixada do Brasil em Myanmar. Além disso, eles passaram a divulgar o caso nas redes sociais, pedindo ajuda. 

As famílias, então, começaram a ser ajudadas pela ONG The Exodus Road, uma organização internacional que combate o tráfico de pessoas. 

No dia 15 de janeiro de 2025, representantes dessa ONG conversaram com autoridades de Myanmar e da Tailândia pra eles ajudarem a libertar, pelo menos, 371 vítimas de tráfico conhecidas, incluindo Luckas e Phelipe.

Enquanto isso acontecia do lado de fora, em algum momento no KK PARK, Phelipe e Luckas começaram a se aproximar e a conversar (mesmo eles sendo proibidos de conversarem por serem do mesmo país). 

Juntos, os dois começaram a planejar uma fuga com outras pessoas ali de dentro… 

LUCKAS E PHELIPE:

Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/02/13/video-mostra-resgate-de-brasileiros-vitimas-de-trafico-humano-em-mianmar.ghtml 

Por meio de mensagens, Phelipe avisou o pai no dia 8 de fevereiro que ia tentar fugir junto com 85 pessoas. O plano incluía atravessar um rio e ainda correr por dois quilômetros. 

Ele pediu orações e se despediu, caso algo desse errado… Phelipe disse que, se algo acontecesse com ele, ele tinha tentado ao máximo. O pai o tranquilizou, dizendo que a polícia já estava ciente da situação. No final, Phelipe avisou que não responderá mais e se despede, dizendo que ama o pai.

PRINTS DAS CONVERSAS:

Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/02/13/video-mostra-resgate-de-brasileiros-vitimas-de-trafico-humano-em-mianmar.ghtml 

Luckas também avisou a família sobre a fuga. A equipe da ONG, sabendo que essa fuga ia acontecer, se mobilizou pra juntar todos os documentos necessários que iam comprovar que eles eram vítimas de tráfico humano.

Durante a tentativa de fuga, no dia 9 de fevereiro, Phelipe, Luckas e outros imigrantes foram resgatados por um grupo armado da região, chamado DKBA (ou Exército Democrático Karen Budista), que levou todo mundo que tinha fugido para um centro de detenção local.

No dia 12 de fevereiro, Phelipe, Luckas e outros diversos imigrantes foram transferidos para um centro de detenção em Mae Sot, na Tailândia, onde passaram por procedimentos pra confirmar que eram mesmo vítimas de tráfico humano.

Com isso confirmado, eles puderam voltar para casa…

Em 19 de fevereiro de 2025, mais de três meses depois de serem raptados, Luckas e Phelipe voltaram pro Brasil, sãos e salvos. Eles desembarcaram por volta das 16h no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

Assim que desembarcaram, eles prestaram depoimento à Polícia Federal por quase duas horas. E, depois, finalmente, reencontraram seus amigos e familiares… 

Eles chegaram no Brasil abalados, com marcas no corpo e principalmente marcas psicológicas. Luckas disse que, em Myanmar, eles repetiam muito as palavras "empresa" e "trabalho", mas ele sabe aquilo não era trabalho, mas sim escravidão. Ele afirmou que era um escravo naquele lugar.

Luckas ainda disse que toda essa experiência vai ficar para sempre na cabeça dele, mesmo ele fazendo terapia ou tentando esquecer.

Agora (eu estou gravando esse episódio em março de 2025, então tem só um mês que os dois voltaram pro Brasil), Phelipe só pensa em esquecer a experiência terrível que ele teve:

Ele afirmou que (abre aspas): "Ver pessoas sendo espancadas, levando choque, ver o Luckas ser espancado e não poder fazer nada. Aquilo me machucava bastante. Sempre ia para o meu quarto chorar, porque não aguentava. Agora, quero descansar, terminar minha faculdade e fazer tratamento psicológico para esquecer".

Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/02/18/brasileiros-vitimas-de-trafico-humano-em-mianmar-embarcam-para-o-brasil.ghtml 

Phelipe também dá um alerta sobre os cuidados que as pessoas devem ter para não cair em armadilhas do tipo, se tornando vítimas de tráfico humano:

O conselho que ele dá é sempre pesquisar mais sobre a empresa onde você vai trabalhar, ver se ela existe de verdade e se é legalizada.

Infelizmente, muita gente cai nessa armadilha do tráfico de pessoas. O caso do Luckas e do Phelipe é só entre vários casos… Eles não foram os primeiros brasileiros a ficarem presos no KK PARK. Em 2022, Patrick Lopes, de 24 anos, também passou três meses no complexo, sendo forçado a aplicar golpes em cidadãos americanos, junto com outros 9 brasileiros. Eles foram resgatados posteriormente… 

Além desse caso, existem relatos internacionais também. Em dezembro de 2024, Wang Xing, um ator chinês de 21 anos, famoso por papéis em doramas também foi raptado e levado para o KK PARK

Wang estava buscando novas oportunidades de trabalho na Internet e acabou entrando em um grupo de bate-papo sobre o assunto. No grupo, uma conta postou uma mensagem sobre um possível papel para ele em um filme. Foi aí que Wang entrou em contato com um homem chamado Yan Shiliu, que se apresentou como um coordenador de elenco. Os dois conversaram sobre a oportunidade de trabalho… 

No dia 26 de dezembro, a namorada do Wang, Jiajia, ajudou ele a gravar um vídeo de teste pro papel e, já no dia seguinte, 27 de dezembro, Wang foi informado que tinha sido aprovado. Que tinha conseguido o papel… 

Porém, em 30 de dezembro de 2024, Wang começou a ficar com dúvidas sobre o local em que supostamente iriam filmar (que era na região ali da Tailândia que a gente tem falado durante o episódio). E ele desconfiou de outros detalhes também. Ele até pensou em recusar o papel…

Mas, então, Yan, o suposto coordenador de elenco, convenceu ele a fazer o filme, dizendo que Wang era insubstituível e que, depois desse filme, ele queria contratar Wang para projetos futuros. Então, Wang aceitou e foi pra Tailândia… 

Chegando lá, no dia 2 de janeiro de 2025, ele foi raptado e levado pro KK PARK, em Myanmar, onde ficou preso com mais 50 pessoas. Wang contou que teve a cabeça raspada e que foi forçado a participar de atividades ilegais, como fraudes online contra cidadãos chineses.

Olha uma foto, que eu vou deixar na tela agora, da diferença de como ele era antes de ser traficado e depois de sair de Myanmar. Depois que ele sai, ele está claramente mais magro, com um semblante triste e também está com a cabeça raspada:

WANG XING:

Fonte: https://x.com/gulf_news/status/1877369751246352869 

A namorada de Wang teve um papel fundamental na busca dele, usando as redes sociais para mobilizar as autoridades e o público. Com a ajuda dela, o caso ganhou atenção e o ator foi resgatado pelas autoridades da Tailândia e de Myanmar. Ele voltou pra China são e salvo em 11 de janeiro de 2025.

Gente, eu não vou entrar em detalhes sobre o caso do Wang Xing aqui, tá?! Quem sabe eu não trago um episódio só sobre ele mais pra frente? Me conta aí nos comentários se vocês gostariam de escutar mais sobre esse tipo de caso! 

O que quero que vocês percebam com esse exemplo do Wang é como os aliciadores abordam você de acordo com o seu perfil… Eles inventam uma história específica para você, pra te convencer. 

Pro Luckas e pro Phelipe, que trabalhavam mais na área de tecnologia, os aliciadores ofereceram empregos em call center, empregos desse tipo. Já pro ator chinês, eles ofereceram um papel em um filme… 

Os aliciadores analisam o seu perfil e fazem a proposta específica para você…

A Tailândia tem enfrentado uma pressão cada vez maior para ajudar a combater esse tipo de atividade criminosa. Em fevereiro de 2025, o país cortou o fornecimento de eletricidade em várias áreas de Myanmar que abrigam sites envolvidos na indústria de golpes online. Mesmo assim, na tarde do mesmo dia em que a Tailândia fez essa operações de corte da energia elétrica, pelo menos um dos complexos de golpes ainda estava funcionando, de acordo com uma ONG que atua na região.

Ou seja, apesar de algumas tentativas de frear esses esquemas de golpes e de tráfico humano, isso não tem sido o suficiente e todos os crimes que eu comentei nesse episódio ainda continuam… 

No dia 19 de fevereiro de 2025, mesmo dia em que Luckas e Phelipe voltaram ao Brasil, o governo tailandês anunciou ter feito uma ofensiva contra essas fábricas de golpe e resgatado 7 mil pessoas que estavam sendo escravizadas em locais tipo o KK PARK e Shwe Kokko.

Gente, esse caso do Luckas, do Phelipe e do Wang são um entre milhares de casos assim… O tráfico humano acontece em todo lugar, com pessoas de todas as idades e classes sociais. Muitas vezes, ele começa com uma proposta de emprego no exterior (que simboliza a promessa de uma vida melhor fora do Brasil…). Porém, por trás dessa promessa, que parece irrecusável, pode ter uma rede criminosa pronta para tirar a sua liberdade.

Por isso, muito cuidado! Antes de aceitar ofertas de trabalho, é importante pesquisar a empresa, confirmar informações e desconfiar de promessas boas demais para ser verdade. 

Converse com amigos e familiares sobre seus planos, evite viajar sozinho para lugares desconhecidos e sempre tenha contatos de emergência. O tráfico de pessoas se alimenta da desinformação e vulnerabilidade das vítimas… 

ROTEIRISTA:  Lucas Andries

FONTES: 

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