Em 2003, o nome Bertrand Cantat estampava jornais do mundo todo. Ele era vocalista da banda Noir Désir. Ícone do Rock francês. Amado por muita gente. Mas, de uma hora pra outra, tudo mudou…
Bertrand deixou de ser manchete por causa da música — e passou a ser conhecido por algo diferente: ele estava no auge da carreira, namorava uma atriz famosa (a francesa Marie Trintignant), e tinha (pelo menos, aos olhos do público) uma vida invejável. Mas bastou uma noite num quarto de hotel pra tudo desmoronar. Uma noite marcada por brigas, ciúmes… e violência.
Bertrand Lucien Bruno Cantat nasceu no dia 5 de março de 1964 em Pau – uma comuna francesa que tem 181 mil habitantes e que fica aos pés de uma grande cadeia de montanhas. A comuna fica no sudoeste da França, na região dos Pirineus Atlânticos.
Bertrand era filho de um oficial da Marinha e passou a infância dele em Le Havre - que é uma outra comuna francesa, na Normandia. E, quando ele era adolescente, a família dele se mudou para Bordeaux, uma cidade que tem um porto muito importante e que é famosa pelos vinhos. Nesse local, Bertrand estudou no Liceu Saint-Genès - onde ele conheceu Denis Barthe, Fréderic Vidalenc e Serge Teyssot-Gay.
Juntos, eles montaram uma banda de Rock: a Noir Désir. E a banda deles fez muito sucesso na França!
No auge do sucesso, na década de 90, quando o Bertrand tinha seus 30 e poucos anos, a Noir Désir se apresentava para cerca de 80 mil pessoas e vendia mais de 1 milhão de álbuns.
BERTRAND CANTAT NO PALCO:
Fonte: https://www.bbc.com/news/world-europe-43386417
Com o tempo, Bertrand se tornou uma figura bem proeminente na música francesa: ele era conhecido pela qualidade de suas letras, pelo carisma e pelas performances ao vivo. Ele era um cara alto, fisicamente bonito e que chamava a atenção: ele era um rock star! E Bertrand era frequentemente comparado ao Jim Morrison, vocalista da banda The Doors.
Além disso, ele era ativo politicamente: Bertrand falava contra a extrema direita francesa e falava sobre isso abertamente em shows e entrevistas.
Em 1997, Bertrand Cantat se casou com a Krisztina Rády, uma diretora de arte húngara. Juntos, eles tiveram dois filhos: o Milo, que nasceu em 1998, e a Alice, em 2003.
KRISZTINA RÁDY:
Fonte: https://www.radiofrance.fr/franceinter/kristina-rady-n-a-subi-aucune-violence-avant-sa-mort-6380422
Gente, agora, a gente precisa parar de falar um pouquinho do Bertrand e falar de uma outra figura importante nesse caso: a Marie Trintignant.
Confere uma foto da Marie Trintignant, se você estiver assistindo aqui pelo Spotify, pela Amazon Music, pelo YouTube ou qualquer outra plataforma:
MARIE TRINTIGNANT:
Essa Marie era uma atriz e vinha de uma família de artistas:
O pai dela, por exemplo, era Jean-Louis Trintignant, um ator vencedor de um prêmio importantíssimo pro cinema - a Palma de Ouro de melhor ator no festival de Cannes. E a mãe dela era Nadine Trintignant, uma cineasta e romancista francesa. Enfim, vários membros da família eram artistas…
Marie era mãe de quatro filhos:
O mais velho, o Roman, nasceu em 1986. E ele é filho do baterista Richard Kolinka.
Depois veio Paul Cluzet, em 1993, filho do ator François Cluzet.
Em 1996, nasceu Léon Othnin-Girard, filho de Mathias Othnin-Girard.
E, por fim, Jules Benchetrit, nascido em 1998, filho de um diretor de cinema chamado Samuel Benchetrit — com quem Marie era casada.
Marie era conhecida por ser uma mãe muito amorosa e protetora. E, em 2002, ela era casada e vivia com esse Samuel, pai do quarto filho dela.
Na época, esse Samuel estava dirigindo um filme chamado Janis e John – que é um filme que tem a ver com o John Lennon e a Janis Joplin.
PÔSTER DO FILME – JANIS E JOHN:
Fonte: https://www.imdb.com/pt/title/tt0340181/
E Marie estava atuando nesse filme… Então, ela e o marido dela estavam trabalhando juntos, fazendo o mesmo filme. O Samuel estava dirigindo o filme e a Marie atuando.
Para se preparar para as filmagens, pra entrar na personagem dela, Marie decidiu que ela queria ir em um show de música ver alguém performando com a mesma intensidade que a Janis Joplin tinha.
Foi quando Marie foi ao show do Noir Désir, ver o Bertrand Cantat no palco.
Então, ela foi ali ao show de Bertrand com um grupo de amigos dela e Marie pediu para conhecer o Bertrand depois do show. E ela encontrou ele no camarim…
Os amigos que estavam ao redor deles nesse momento disseram que os dois se apaixonaram à primeira vista. Bertrand e Marie se gostaram e, logo depois, começaram um relacionamento - mesmo ela sendo casada com Samuel e Bertrand sendo casado com Krisztina.
Depois disso, Marie e o marido dela, Samuel, se afastaram. Me parece que eles continuaram casados no papel e continuaram amigos também, mas se afastaram.
Já Bertrand contou para a esposa dele, Krisztina, que não queria mais um relacionamento com ela quando ela estava grávida. E ele terminou com a esposa logo depois que ela deu à luz a segunda filha do casal, a Alice.
Parece que esse término não veio a público na época e a separação foi descrita como dolorosa, mas respeitosa.
Como eu disse, Bertrand Cantat e Marie Trintignant passaram a namorar…
Em maio de 2003, os dois foram pra Vilnius, capital da Lituânia, para Marie filmar o telefilme Colette: uma mulher livre.
PÔSTER DO FILME – COLETTE:
Fonte: https://www.imdb.com/pt/title/tt0377158/?ref_=mv_close
A gravação estava prevista para durar cerca de dois meses e a equipe de produção era composta por vários membros da família da Marie. A mãe dela, Nadine, por exemplo, era a diretora. O filho da Marie, o Roman Kolinka, fazia parte do elenco… E tinha mais familiares ali também, trabalhando.
Mas Bertrand não estava ali trabalhando… Ele estava ali com Marie só pra ficar perto dela.
E os dois ficavam sempre juntos. Eles eram sempre vistos de mãos dadas, caminhando, se beijando... enfim, viviam grudados. Era uma proximidade que chamava atenção das pessoas ao redor.
E o Bertrand acompanhava a Marie todos os dias nas filmagens. Por quase dois meses inteiros. Gente, como vocês sabem (rs), não é comum alguém acompanhar o namorado ou namorada todos os dias no trabalho. E isso causava estranhamento na equipe de filmagens…
A impressão que as pessoas tinham era que Bertrand não queria deixar a Marie sozinha longe dele nem por um instante.
E, com o tempo, a equipe percebeu que ele era extremamente possessivo.
Nadine, mãe da Marie e diretora do filme, não estava nada satisfeita com a presença constante do Bertrand no set. Porque ele tirava o foco da Marie e atrapalhava o ritmo da produção. Ele ficava sempre ali, interrompendo, querendo falar com a Marie o tempo todo.
E produção audiovisual é caro: se você atrasa o cronograma de filmagens, mesmo que um pouquinho só, a produção pode ter que arcar com custos não planejados grandes. Pensa comigo: eles tinham saído da França e ido para outro país filmar, a Lituânia. Então, se você atrasar as filmagens em um dia, é mais uma diária que você tem que pagar de hospedagem para equipe, é mais uma diária de salários, de transporte, de alimentação, de aluguel dos equipamentos.
Além disso, imagina que eles precisam gravar num parque. Muitas vezes, como acontece muito aqui nos Estados Unidos, para você filmar em locais públicos, você precisa de permissão da prefeitura. E se, porque atrasou o cronograma, você não consegue gravar no dia estipulado e perde a data da permissão da prefeitura? Você tem que arranjar outra permissão, que nem sempre sai a tempo. Aí, o que você faz? Muda o roteiro? Não grava a cena? Grava em outro lugar? E se, por conta da história, não dá pra filmar em outro lugar?
Enfim, é um pesadelo logístico…
Alguns amigos da Marie que estavam ali nas gravações contaram que ela chegou a esconder o celular dentro da bota dela, no modo vibrar, pra não perder mensagens ou ligações de Bertrand durante as gravações.
Além disso, às vezes, Maria parava a gravação para atender o telefone - o que é complicado, porque, às vezes, a cena tem uma iluminação ou uma movimentação de câmera ou alguma coisa que precisa ser preparada com antecedência. Se você para, tem que se preparar de novo, gastando mais tempo.
Ou seja, essa proximidade constante de Marie e Bertrand atrapalhava o trabalho de um monte de gente. São centenas de pessoas que trabalham pra fazer um filme, gente…
Tanto amigos quanto membros da produção perceberam que Bertrand tentava afastar Marie dos amigos. Por ciúme. Por controle. Mesmo quando ela não estava filmando, Marie costumava cancelar planos com amigos por causa dele.
No dia 27 de julho de 2003, em Vilnius, enquanto ainda estavam filmando, Marie recebeu uma mensagem do Samuel Benchetrit — que ainda era o seu marido, oficialmente.
Na mensagem, Samuel pedia para Marie ligar para ele quando pudesse, porque os dois precisavam conversar sobre o filme que eles tinham feito juntos – Janis e John. Lembra que eles tinham gravado em 2002 um filme que tinha o John Lennon e a Janis Joplin? Então, esse filme! Ele ainda não tinha sido lançado, então provavelmente eles tinham que conversar algo sobre a montagem do filme ou o lançamento.
Samuel terminou a mensagem dele escrevendo assim: "com muito amor, minha Janisinha" - fazendo referência ao filme.
Segundo Bertrand, aquilo mexeu com o emocional dele. Bertrand disse ter sentido um desequilíbrio na relação dele com Marie, porque ela mantinha contato com Samuel, enquanto ele tinha cortado os laços com a esposa, Krisztina. Esse suposto desequilíbrio na relação incomodava ele…
Naquela noite do dia 27 de julho, depois de um dia de filmagens, o pessoal organizou um coquetel de despedida pra um dos atores. Durante a festa, Marie e Bertrand estavam discutindo.
Andrius Leliuga, assistente de direção, era quem levava Marie e Bertrand todos os dias pro set. Assim como muita gente da equipe, ele também já tinha notado que havia algo estranho naquela relação — algo tóxico.
Naquela noite, durante a festa, ele percebeu que não seria seguro deixar Marie ir embora com Bertrand sozinha. Então, Andrius levou eles pra casa dele (o local que ele estava ficando na Lituânia) por volta das 10 da noite.
Lá, eles fumaram, beberam… mas as coisas começaram a desandar.
Bertrand começou a questionar Marie sobre esse desequilíbrio na relação que ele sentia. Marie ficou em silêncio e isso irritou bastante Bertrand. Num determinado momento, ele segurou a Marie pelos ombros e empurrou ela contra a parede, discutindo.
Andrius interveio. Ele separou os dois imediatamente e tentou acalmar o Bertrando. Ele pegou os dois pelas mãos pra acalmar a situação e saiu do apartamento com eles.
Algum tempo depois, Andrius deixou a Marie e o Bertrand no hotel que eles estavam ficando, no quarto 35. Era por volta de meia-noite. Nesse horário, Bertrand parecia calmo, então Andrius achou que tudo ia ficar bem.
Andrius foi embora. Bertrand e Marie ficaram no hotel…
Depois disso, ninguém sabe exatamente o que aconteceu dentro daquele quarto de hotel…
Na manhã seguinte, ou seja, no dia 28 de julho de 2003, por volta das 9 e 15 da manhã, vários jornalistas receberam uma informação: Bertrand Cantat tinha discutido com Marie Trintignant. E mais: Bertrand teria empurrado a atriz. E agora ela estava no hospital de Vilnius, em estado grave. Em coma.
Segundo pessoas que visitaram ela, o rosto da atriz estava inchado, com várias marcas roxas, verdes e azuladas.
No mesmo dia, Bertrand foi detido. Na Internet, blogs de música e cinema discutiam o assunto, tentando entender o que tinha acontecido.
As pessoas estavam preocupadas com a Marie… e com o futuro da Noir Désir.
No hospital, Marie passou por duas cirurgias. Quatro dias depois, ainda em coma, os pais dela decidiram transferir ela de Vilnius para um hospital em Paris. Um dia depois disso, no dia 1º de agosto, Marie morreu por conta de um edema cerebral.
Ela tinha 41 anos e deixou quatro filhos. Marie já tinha estrelado mais de 40 filmes e tinha recebido cinco indicações ao César, um grande prêmio do cinema francês. No funeral, uma multidão apareceu para se despedir…
Mas a pergunta que ficava era: o que aconteceu com Marie Trintignant?
Em 8 de agosto, Bertrand, que tinha 39 anos na época, foi chamada numa audiência para relatar, pela primeira vez, o que tinha rolado no quarto de hotel.
Bertrand contou que, quando ele e Marie chegaram ao hotel no dia 27 de julho, ele voltou a perguntar à atriz sobre Samuel e sobre o desequilíbrio que ele sentia na relação. Aí, segundo ele, o clima pesou. Bertrand relatou que Marie começou a gritar, mandando ele sair dali e ir ver a esposa dele, Krizstina. E, então, Marie teria dado um soco em Bertrand e empurrado ele.
Bertrand Cantat disse que, nesse momento, teve um ataque de raiva: ele teria dado vários tapas em Marie, puxado ela pela gola e, depois, jogado ela no sofá. Mas ele errou. Marie caiu no sofá de uma forma que ele não tinha planejado… e depois caiu no chão.
Quando as autoridades perguntaram se Marie tinha batido a cabeça, ele disse que não sabia.
Depois dessa audiência, surgiu o entendimento de que tudo não passava de um acidente. E essa foi a história que colou, a princípio: um acidente.
Mas essa história dele não fazia muito sentido. Uma autópsia feita no dia 2 de agosto, um dia depois de Marie falecer, contava uma história diferente: a descrição era de uma moça de estatura mediana (com 1 metro e 66 de altura e 60 quilos). O exame revelou várias lesões no couro cabeludo, no rosto, e uma fratura aberta no nariz.
Quando abriram o crânio dela, os legistas descobriram dano intracerebral, hemorragia, e um hematoma enorme. Isso, por si só, já descartava a ideia de um traumatismo craniano isolado. Não dava pra dizer que aquilo tinha sido causado por uma queda. Marie não tinha caído uma vez e batido a cabeça.
A autópsia revelou que ela sofreu 19 pancadas na cabeça. Uma sequência violenta que deve ter durado mais de um minuto.
Um inquérito separado, feito na França, concluiu que ela morreu por causa de tremores violentos e golpes severos, repetidos.
Os legistas também encontraram equimoses (tipo hematomas) atrás da laringe dela, na região do pescoço. Segundo o laudo, aquilo podia ter sido causado por alguém pressionando o pescoço da vítima com a perna — de cima, enquanto ela estava caída no chão.
Além disso, na audiência, Bertrand também tinha dito que colocou a Marie pra dormir por volta da uma da manhã, depois da batida na cabeça. Mas ninguém simplesmente "vai dormir" depois de uma pancada forte dessas.
A pessoa desmaia, é nocauteada.
E ele só chamou um médico para socorrer Marie quando o dia já estava clareando. Foram cerca de sete horas sem prestar socorro.
Tudo indicava que não tinha sido um acidente.
Em uma segunda audiência, a autópsia foi apresentada e as autoridades pediram que Bertrand mostrasse como ele tinha agredido Marie. Ele disse que deu alguns tapas fortes nela. E alegou que não estava consciente do que fazia, porque estava cego de raiva. Na prática, isso era meio que uma confissão.
Durante o depoimento, ele chorou. Parecia em choque, culpado, triste por ter agredido Marie. Mas, logo depois, ele jogou a culpa em Marie. Disse que Marie tinha provocado ele e que ela era a responsável pela raiva dele.
O advogado dele reforçou essa narrativa pra imprensa: disse que ela tinha agredido primeiro.
O advogado que representava os Trintignant argumentou que a Marie era uma mulher pequena e sem muita força física. Que ela jamais conseguiria agredir um homem com o porte físico de Bertrand. O advogado destacou ainda que o termo “histeria” sempre foi uma desculpa usada por homens abusivos para justificar violências.
E, realmente, os advogados de Bertrand seguiram essa linha: descreveram Marie como uma mulher histérica e furiosa. Disseram que ela gritou com Bertrand durante a briga, mandando ele voltar pra ex, Krisztina, e que isso teria despertado a fúria dele.
Pra piorar, a mídia comprou essa versão e também atacou Marie. O fato de Marie ter tido quatro filhos com pais diferentes, por exemplo, virou um argumento contra sua imagem — como se isso tivesse alguma relevância no caso.
A Krisztina Rády foi chamada para depor e ela ficou do lado de Bertrand Cantar: ela afirmou que ele era um homem muito bom e gentil. Ela negou ter sofrido, no passado, qualquer tipo de violência por parte dele. E esse depoimento dela teve um peso muito grande no caso.
A defesa de Bertrand chamou o assassinato de Marie de “crime passional” e de um “acidente trágico”. Na Lituânia, esse tipo de crime leva uma pena mais leve. A imprensa comprou essa versão e vendeu a história como um romance que acabou em tragédia.
Bertrand foi julgado em março de 2004 e seu julgamento durou 3 dias. No fim das contas, o tribunal de Vilnius condenou Bertrand a 8 anos de prisão.
E Bertrand teve uma pena mais leve do que se esperava por conta desse entendimento de que o crime tinha sido passional. Ele poderia ter pego 15 anos, mas pegou 8. Bertrand foi levado pra prisão lituana de Lukiškės, em Vilnius.
Na época, a morte de Marie não foi levada como feminicídio - até porque esse termo não era tão difundido quanto hoje. Ele só entrou pro dicionário francês em 2015, por exemplo - mais de 10 anos depois da morte de Marie Trintignant.
Em setembro de 2004, ele foi transferido dessa cadeia para uma prisão francesa. E, três anos depois, ele pegou liberdade condicional. Porque, pela lei da França, prisioneiros que têm bom comportamento podem pegar uma liberdade condicional depois de cumprir cerca de metade da pena. E foi isso que rolou com Bertrand. Em outubro de 2007, ele saiu da prisão.
Depois de sair da cadeia, Bertrand e Krisztina voltaram a morar juntos por um tempo. Mas a relação entre eles não era mais exclusiva…
Krisztina tinha conhecido e se apaixonado por um cara chamado François Saubadu. Esse homem descreveu ela como uma mulher linda, sorridente... e os dois começaram a namorar. Os filhos de Krisztina gostavam muito de François. A relação entre eles era feliz…
Porém, incapaz de tolerar a situação, Bertrand passou a vigiar cada passo de Krisztina. François conta que Bertrand começou a agir como se alguém tivesse roubado o brinquedo dele. Bertrand passou a importunar François com e-mails. E ele também tentava manipular a Krisztina. Queria controlar tudo o que ela fazia.
Kristina desabafou certa vez, dizendo estava sofrendo abuso psicológico e que achava que não sairia daquela situação com vida.
Ela também relatou agressões físicas por parte de Bertrand. Numa dessas agressões, Krisztina quase perdeu um dente. Além disso, ela se queixava de que Bertrand tinha jogado alguns objetos nela.
Ela dizia que tinha testemunhas: pessoas na rua, amigos do casal… Muita gente tinha visto Bertrand sendo agressivo com ela. Mas quando a mídia procurou essas pessoas, todo mundo ficou calado, quieto.
Um prontuário de um hospital revela que, certa vez, Krisztina deu entrada no pronto-socorro com lesões graves depois de uma briga. O prontuário relata descolamento do couro cabeludo — que ocorre quando alguém é puxado pelos cabelos. Além disso, ela tinha hematomas e contusões pelo corpo.
Segundo o prontuário, Krisztina chorava e não queria fazer denúncias por medo do que poderia acontecer com os filhos dela com Bertrand.
Em 10 de janeiro de 2010, Krisztina tirou a própria vida, se enforcando na casa da família em Bordeaux. No momento de sua morte, Bertrand estava na casa. Ela foi encontrada pelos filhos no dia seguinte. Milo, de 12 anos, foi quem ligou pra polícia, pedindo ajuda.
Bertrand chegou a ser questionado pelas autoridades sobre a morte da Krisztina. Ele admitiu que os dois tinham uma relação difícil, mas negou agressões. Não houve investigação. A morte foi considerada suicídio…
Na época, a mídia tratou Bertrand como vítima, criando a imagem de um coitado, que tinha perdido dois amores de forma trágica.
Depois de tudo isso, Bertrand ainda tentou retomar sua carreira musical. A Noir Désir foi oficialmente encerrada em 2010, mas ele não parou. Chegou a montar uma nova banda, chamada Détroit, e seguiu tentando retomar o sucesso. Só que toda vez que ele aparecia, a repercussão era pesada e acabava atrapalhando os planos dele.
Em 2018, por exemplo, ele se preparou pra fazer uma série de shows em festivais pela Europa. Inclusive, anunciaram que ele ia se apresentar num festival ali na Normandia… Só que mais de 75 mil pessoas assinaram um documento pedindo a retirada dele do evento. E conseguiram. A presença dele no festival foi cancelada.
Hoje, em 2025, Bertrand Cantat vive afastado da mídia e dos palcos. Leva uma vida discreta. Mas ele continua sendo uma figura bastante polêmica — principalmente por tudo que o caso dele simboliza nas discussões sobre violência doméstica e impunidade.
Desde então, Marie Trintignant, mais de 20 anos depois da morte dela, virou símbolo da luta contra a violência doméstica. E o caso dela continua presente na memória dos franceses.
ENCERRAMENTO:
Gente, se você está em um relacionamento abusivo, ou conhece alguém que esteja passando por isso, saiba que você não está sozinha. A violência não pode ser normalizada. Denuncie!
Procure ajuda. Fale com alguém de confiança. Ligue para o 180, a Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa.
Sua vida importa. Sua liberdade importa. Você merece viver sem medo.
ROTEIRISTA: Lucas Andries
FONTES:
- https://en.wikipedia.org/wiki/Bertrand_Cantat
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Marie_Trintignant
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Louis_Trintignant
- https://en.wikipedia.org/wiki/Noir_D%C3%A9sir
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Pau_(Piren%C3%A9us_Atl%C3%A2nticos)
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Piren%C3%A9us_Atl%C3%A2nticos
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Bord%C3%A9us
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Le_Havre
- https://en.wikipedia.org/wiki/Bertrand_Cantat#:~:text=7%20External%20links-,Early%20life,became%20members%20of%20his%20band.
- https://www.netflix.com/search?q=Bertrand%20Cantat&jbv=81517758
- https://www.bbc.com/news/world-europe-24991534
- https://www.theguardian.com/world/2004/mar/19/arts.france
- https://www.bbc.com/news/world-europe-43386417
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Noir_D%C3%A9sir
- https://www.radiofrance.fr/franceinter/kristina-rady-n-a-subi-aucune-violence-avant-sa-mort-6380422
- https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/conheca-a-historia-do-rock-star-assassino-que-virou-documentario-da-netflix.phtml
- https://en.wikipedia.org/wiki/Nadine_Trintignant
- https://portalsobresagas.com.br/onde-esta-bertrand-cantat-atualmente/
- https://www.imdb.com/pt/title/tt0340181/
- https://www.imdb.com/pt/title/tt0377158/
- https://www.imdb.com/pt/title/tt0377158/?ref_=mv_close
- https://www.euronews.com/culture/2025/04/16/netflix-documentary-from-rock-star-to-killer-looks-back-on-landmark-french-domestic-violen
- https://www.gov.br/mulheres/pt-br/ligue180
- https://www.gala.fr/l_actu/news_de_stars/krisztina-rady-ex-de-bertrand-cantat-un-dossier-medical-inedit-relance-les-accusations-de-violences-20250328













