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Há décadas, o sonho de quase toda criança é fazer parte dos escoteiros. Saber fazer fogueira, ter dicas de sobrevivência, ganhar distintivos por feitos legais e se encontrar em um grupo de pessoas com interesses semelhantes é apenas o início da longa lista de vantagens de fazer parte deste tipo de comunidade desde criancinha.

Só que, há quase quarenta anos, no coração do Brasil, o escotismo escreveu uma história triste, e que permanece como um dos maiores mistérios criminais de todo o continente.

Hoje a gente vai trazer esse caso, pq recentemente recebemos muitos pedidos depois da Globoplay lancar uma serie em audio, um podcast chamado ‘Pico dos Marins – O caso do escoteiro Marco Aurélio’. 

Quem já fez parte de grupos de escoteiros sabe que é muito comum que o dia do encontro e dos acampamentos é um dos eventos mais aguardados por todos. Quem não fez, pode ver isso nos filmes e tal, que mostram trilhas, escaladas, aulas de como atar e desatar nós e fazer fogueiras com pedrinhas como uma grande diversão.

Em oito de junho de mil novecentos e oitenta e cinco, dois grupos de escoteiros estavam nessa vibe de alegria e entusiasmo para subir o Pico dos Marins, uma das montanhas mais altas e com trilhas mais desafiadoras do estado de São Paulo. 

Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon, de quinze anos, estava particularmente empolgado porque essa seria a primeira viagem que faria sem os pais e o irmão gêmeo. Além disso, depois dessa aventura, ele se formaria em um grau mais elevado do escotismo, então estava animado para demonstrar que merecia o distintivo.

A missão para ele, e para Ricardo, Osvaldo e Ramatiz, seus colegas da mesma idade, era subir o Pico do Marins, de dois mil e quatrocentos metros de altura, para se tornarem escoteiros sênior, ou seja, uma espécie de chefe de escoteiros para os demais colegas mais novos.

O chefão dos escoteiros para esse acampamento era Juan, um espanhol radicado no Brasil, com trinta e quatro anos na época. Ele foi, inclusive, à casa da família de Marco Aurélio na noite anterior à saída do acampamento, já que o grupo de escoteiros é uma comunidade com muita ligação familiar. Geralmente, todos participam e apoiam as atividades dos filhos, que são divididos nessa etapa de formação por gênero. Assim, meninos e meninas não se misturam, já que as regras, valores e princípios de cada grupo é específico para a formação das crianças e adolescentes conforme seu gênero.

Por isso, quando contamos o caso do Pico dos Marins, relatamos uma aventura só de MENINOS. Isso dava liberdade aos membros do grupo para contar uns com os outros sem qualquer vergonha ou timidez. E foi isso que os pais de Marco Aurélio, que tinha estrabismo avançado, pediram a Juan: que aquela aventura, planejada por meses entre as famílias e os escoteiros, contassem com a ajuda de guias locais, para que nada de errado acontecesse. 

O grupo final foi composto por Marco Aurélio, Ricardo, Osvaldo e Ramatiz, todos na faixa dos quinze anos, e Juan, o chefe dos escoteiros. Por votação, Ricardo se tornou o líder da patrulha e foi recebido em Lorena, no dia seis de junho, pelos chefes escoteiros que atuam na área do Marins. 

Foram esses guias que levaram o quinteto até Piquete, o último município antes da subida no Pico dos Marins, de onde sairiam dali a dois dias. Mais especificamente, Paulinho, o chefe dos escoteiros local que tinha uma Kombi e levou os cinco até uma casa onde, de quinta para sexta, eles passariam a noite. Paulinho ficou de buscar o grupo de volta no domingo, de volta a Piquete, indo para Lorena e fazendo todo o percurso de volta para casa.

Para aguardar a aventura, todos se hospedaram na casa de Afonso, um mateiro local cuja casinha servia de base para a escalada do Pico. Essa não tinha sido a primeira vez que um grupo passava a noite em sua casa, já que a localização estratégica era uma necessidade para escoteiros, trilheiros e aventureiros de todas as idades.

Nessa casa moravam Afonso, a esposa e dois filhos. Um deles, mais ou menos da idade dos garotos escoteiros, tinha uma situação que o caracterizava como especial, mas não se sabe bem o que era. Devemos lembrar que, em mil novecentos e oitenta e cinco, muita coisa poderia ser considerada característica de criança especial, como o que hoje conhecemos e reconhecemos como autismo, déficit de atenção, entre outros.

Fato é que este garoto, filho de Afonso, causou uma confusão que, mais tarde, serviu de pano pra manga para as investigações do caso, porque o menino fuçou em tudo, em especial na mochila de Marco Aurélio.

Pra completar, Afonso, que era conhecedor da área, não pode fazer a trilha com o grupo de Juan, e muitas justificativas são dadas até hoje para essa ausência que tinha sido tão requisitada pelos pais dos meninos. Quando questionados, mais tarde, sobre isso, Juan disse que Afonso não iria porque estava OCUPADO, mas Afonso, o guia local, nega. Ele afirma que JUAN insistiu para ir SOZINHO com os meninos.

E, no sábado, conforme o que já estava planejado, a aventura começou. Nessa hora, Marco Aurélio foi votado como o novo monitor do grupo, no lugar de Ricardo, porque durante a reunião da noite anterior todos chegaram à conclusão de que essa era a escolha certa.

Marco Aurélio tinha mais conhecimento do que os demais membros do grupo, fez mais cursos e estava mais preparado para a trilha em questão. Isso o deixou ainda mais animado para completar a missão e ganhar uma nova insígnia. 

Antes da subida, o grupo de Juan se depara com dois outros grupos de montanhistas, e eles se oferecem para irem todos juntos ao Pico dos Marins. O primeiro grupo era formado por uma família da região, e o segundo era bem maior, com cerca de vinte pessoas, mas Juan negou ambos os convites. Sem guia e sem a colaboração dos outros grupos, eles finalmente se dirigem ao pico, às nove da manhã de sábado, oito de junho de oitenta e cinco.

Não existe um caso criminal que a gente conte aqui, principalmente os que envolvem mistérios sobre desaparecimento, que comece com as coisas acontecendo normalmente como deveriam acontecer. Às vezes as pessoas se perdem porque não conhecem a área e não saberiam sequer sobreviver a um tempo na natureza, mas não era o caso DAQUELE grupo de rapazes.

Os escoteiros, como falamos, são treinados em valores, princípios e regras de conduta, mas também de convivência e salvamento, não só de si próprio, mas dos colegas. Então, é bem estranho pensar que, para um chefe de escotismo tão responsável e querido pelas famílias dos garotos, Juan tenha ido por uma trilha alternativa à que geralmente era utilizada, indo por uma estrada de terra.

Isso, além de não ser comum, atrasou em uma hora a chegada deles na primeira parada rumo ao topo da montanha, que é o Morro do Careca. Nesse ponto, as pessoas geralmente param para descansar, tomar um ar e seguir, e provavelmente foi isso que os grupos que subiram antes deles fizeram, mas… como Juan optou por outro caminho, e eles chegaram atrasados, não havia mais ninguém no Careca.

A trilha ali naquela região já era bem estreita, e o grupo já estava bem cansado, pois a subida era bem íngreme. Uns tinham ido na frente, outros ficado para trás, mas os escoteiros andam com giz e apitos, para marcar sua localização e não se perder e também para chamar a atenção dos colegas em caso de necessidade. Foi assim que eles ouviram o apito de Marco Aurélio, que tinha ficado um pouco para trás, tentando entender onde aquela trilha daria. 

Com todo o grupo unido e mais ou menos descansado, eles retomam o percurso e, uma hora depois, chegam a um outro local bem conhecido, onde tinha uma cruz de ferro fincada numa pedra e, de lá, dava para ver o cume do Marins, causando a falsa impressão de que eles estavam perto da chegada. 

A cruz na pedra não existe mais, mas todas as testemunhas falam que foi exatamente nesse ponto que um dos escoteiros, Osvaldo, se machuca. Ele fica com a perna presa em um buraco e, enquanto Juan tentava tirá-lo de lá, ele gritava de dor. Quando, finalmente, conseguiu sair, Osvaldo não conseguia pisar no chão. 

Para ele, a aventura terminaria ali.

Até tentaram fazer uma tala para a perna, uma espécie de muleta, pois isso é uma das muitas habilidades dos escoteiros, mas nada disso dá certo. Então, o grupo faz a pausa do almoço e Juan decide que, para que todos continuem na aventura, incluindo Osvaldo, que não queria se dar por vencido, eles encontrariam madeira para uma espécie de apara, uma maca, em que carregariam o colega ferido.

Senão para cima, rumo ao pico, para baixo, em busca de ajuda…

Mas isso também não dá certo e Juan avisa que descerá a trilha, íngreme, com o menino nos ombros. Uma regra do escotismo é: ninguém fica para trás. Então, se um companheiro estava machucado e precisava voltar, todos voltariam e a aventura seria remarcada para outro dia. 

Nisso, Marco Aurélio e Ramatiz, outro escoteiro, avisam que vão descer na frente, para já ir buscando ajuda, enquanto Juan, Osvaldo e Ricardo iriam mais devagar, com cautela, para evitar novos acidentes. Como Marco Aurélio é o mais experiente deles, vai bem à frente, marcando as árvores com seu número de escoteiro, duzentos e quarenta, para ser seguido por Ramatiz, que carregava a mochila do amigo ferido, e o restante do grupo. Antes de se separarem na descida, Juan dá recomendações a Marco Aurélio para que não se esqueça das marcações nas árvores e também do apito, para que, pelo som, eles pudessem se localizar à distância.

Eu sei o que você está pensando e não está errado: foi o próprio chefe dos escoteiros quem QUEBROU a regra do ninguém fica para trás, ninguém se separa. Ao colocar seu grupo mais lento na descida, e dois membros indo bem à frente, ele quebrou o único elo que garantia a segurança de todos eles, que era a união. 

Talvez todos tenham achado que descer seria mais fácil, mas foi um engano. A mata estava fechadíssima e em menos de uma hora os que ficaram para trás tiveram que desviar do caminho assinalado por Marco Aurélio. Ao todo, eles só seguiram duas árvores com giz e, depois, sem ter como levar Osvaldo por dentre a mata fechada, foram por um caminho diferente, muito mais longo, mas que os levaria à base com segurança. 

Só que esse imprevisto faz desandar todo o planejado, já que a caminhada até a casa de Afonso, que deveria durar no máximo três horas, acaba levando DOZE HORAS, noite adentro e um frio de danar, com sensação térmica abaixo de zero graus. Uma dessas coincidências infelizes que a gente só vem a saber muito depois mostra que a madrugada de oito de junho foi a mais fria do ano de oitenta e cinco em todo o estado de São Paulo…

A preparação do grupo não envolvia passar a noite e nem passar frio. Os garotos vestiam bermuda, apenas, e já estavam sem água e sem comida na descida do Marins, sendo que eles mal tinham passado do Morro do Careca. Mesmo com todos bem cansados, Juan incentivou que o grupo fosse adiante, para manter todos em movimento e, assim, aquecidos. 

O domingo nem tinha raiado quando Juan e os escoteiros chegam, finalmente, à base da montanha, mas para surpresa de todos, não chegam à casa de Afonso, mas de outra pessoa, em outro ESTADO. Eles, simplesmente, cruzaram o limite de São Paulo e já estavam em uma fazenda, no sul de Minas, em uma cidade chamada Marmelópolis.

Esse local estava a seis quilômetros da casa de Afonso, onde eles estavam hospedados.

Isso trouxe tensão a todo o grupo porque, até então, eles estavam reunidos, mas faltava Marco Aurélio. Por um lado, Juan deve ter se tranquilizado com a possibilidade de que Marco Aurélio tenha acertado a trilha de volta e estivesse já na casa de Afonso. Só que, lá, viram a barraca do garoto toda revirada, sem ele. Imaginaram que ele tinha estado na base do acampamento, buscado algo para chamar atenção e subido com ajuda para resgatar o restante do grupo. 

Às seis e meia da manhã de domingo, ainda sem sinal de Marco Aurélio ou sem pistas de que ele tenha conseguido buscar ajuda, Juan faz a trilha novamente, procurando por ela, e retorna às dez e meia, sem o garoto. Enquanto isso, os demais escoteiros, que estavam exaustos e pegaram no sono na casa de Afonso, relatam ter escutado várias vezes o som do apito do colega mais preparado…

Paulinho, que vinha de Kombi buscar a turma para retornar a Piquete, fica sabendo quando chega dessa situação preocupante de um dos garotos sumidos. Ele liga para Gugu, o chefe dos escoteiros de Piquete, que por sua vez liga para outros chefes de escoteiros e todos juntos empreendem uma busca por Marco Aurélio.

Eram cinco adultos treinados, ok, mas era uma criança perdida em um local de natureza selvagem e, sabe-se lá porque, eles não quiseram chamar a polícia no primeiro momento. Às quatro e meia da tarde eles suspendem a varredura porque o tempo ficou muito ruim e poderia colocar em risco a vida de todos eles. É só às cinco e quinze da tarde de domingo que a polícia é avisada do ocorrido. 

Nesse momento, são TRINTA HORAS desde que Marco Aurélio foi visto pela última vez.

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Com a polícia já envolvida, no começo da noite, Juan e seu grupo ouvem um apito que vem do mato, enquanto tomavam sopa. Eles se encaram, assustados, e vão até o lado de fora da casa de Afonso, e Juan vai pela mata até que o som morre. 

Testemunhas relatam terem visto uma luz azulada, uma espécie de clarão, na mata, e Juan vai até onde dá para seguir a luz, que também se apaga. Ele retorna e Gugu leva todo o grupo para Piquete, onde, às dez e meia da noite de domingo, Juan finalmente liga para as famílias dos garotos para contar o que aconteceu.

Obviamente todos ficam muito preocupados e seguem até Piquete para acompanhar de perto as buscas, onde policiais e locais refizeram o trajeto do grupo rumo ao Pico dos Marins. Lá tem um eco bem forte, o que torna o som bem traiçoeiro, e os escoteiros só se deram conta quando viram aquele tanto de gente tentando se comunicar com apitos sem muito direcionamento.

No lugar em que Osvaldo se machucou, no marco da cruz na pedra, eram muitas pedras, buracos e vegetação rasteira, e o relatório que eles mesmo fizeram dava a entender que estavam perto do cume, mas estavam bem longe. 

O lugar é GIGANTESCO, se perder por ali seria a coisa mais fácil, e infelizmente isso tinha acontecido com Marco Aurélio, na primeira hipótese das investigações. Para se ter uma ideia, naqueles dias depois do incidente, mais de DUZENTAS pessoas participaram ativamente das buscas pelo menino, e mesmo assim pareciam POUQUÍSSIMA GENTE para um lugar daquele tamanho. 

Já na segunda-feira, dez de junho de oitenta e cinco, toda essa galera estava em busca de pistas de Marco Aurélio, mas nada foi encontrado. No meio desse pessoal estava Paulo Antônio, um repórter de rádio que foi atrás da notícia do desaparecimento. Ele se instalou na casa de seu Afonso, o guia local, e viu a polícia empreender buscas e, paralelamente, a família de Marco Aurélio fazer o mesmo.

Movidos pelo desespero, eles criaram a Operação Simon, sobrenome da família, e os pais de Marco Aurélio ficam baseados na casa do chefe Gugu, em Piquete, recebendo informações e organizando novas buscas. Era nesse local que moradores locais, voluntários, polícia e imprensa discutiam os progressos de cada dia. Foram TRINTA DIAS de varredura, mas não acharam NADA de Marco Aurélio. A cidade, que até então estava parada, mobilizada em achar o garoto, começou a se voltar para as atividades do cotidiano. 

Durante esse tempo, o inverno de junho castigava o Pico dos Marins, com temperaturas que foram até menos seis graus celsius em algumas madrugadas. A cada novo mau tempo, com a falta de notícias, ficava mais e mais difícil manter as esperanças em encontrar o garoto VIVO, embora todos estivessem empenhados nessa missão.

Na terça-feira, com notas na imprensa, o grupo alternativo dos pais de Marco Aurélio consegue um avião para fazer busca aérea e o caso finalmente passa para as manchetes de todo o estado e, depois, do país. 

Na sexta-feira, quinto dia de buscas, uma queimada sem motivo algum interrompe as buscas, pela fumaça. Em vinte e oito de junho, um tenente envolvido nas buscas, com toda a sensibilidade que ele NÃO TINHA, avisa à imprensa que a polícia vai se retirar em breve porque não tinha mais o que fazer lá…

Os bombeiros se retiram das buscas em julho, quarenta dias depois, porque a mata foi vistoriada e nada foi achado. Marco Aurélio não foi encontrado, vivo ou morto. Com o interesse da mídia diminuindo a cada dia sem novas notícias, a família teve que se esforçar para manter o caso em alta. Mais de cinco mil cartazes de PROCURA-SE com a foto de Marco Aurélio foram espalhados, mas, desde então, o garoto, o mais estudioso e preparado do seu grupo de escoteiros, animado e entusiasmado com a responsabilidade que lhe foi dada pelo chefe Juan, de monitorar a volta com um ferido, NUNCA MAIS FOI VISTO.

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Um inquérito policial foi aberto, ainda em oitenta e cinco, e fechado no mesmo ano, por falta de provas e de corpo. Juan, o chefe dos escoteiros, foi levado como principal suspeito para prestar depoimento, e se tinha alguém que tinha que se explicar, culpado ou não, era ele.

Primeiro, porque dispensou a ajuda de seu Afonso, que era GUIA LOCAL, para subir com os garotos, como tinha sido reforçado pela família antes da aventura. Segundo, porque quebrou a regra número um do escotismo, separando a turma, em uma situação clara de calamidade e preocupação, com um ferido. 

Depois, para onde foi que ficou quatro horas no meio do mato, sozinho, buscando Marco Aurélio, voltou sem ninguém, e como se nada tivesse acontecido, ainda tomou sopa à noite, quando ouviu um apito e correu, novamente sozinho, pro meio do mato e, de novo, voltou sem menino.

E também porque quando os próprios meninos foram ouvidos, a casa começou a dar uma caidinha para Juan, espanhol naturalizado brasileiro. Osvaldo, o que se feriu, disse que estava morrendo de medo de Juan desde que se machucou, pois ele sempre era agressivo e impaciente. Inclusive, antes de percorrer a trilha de volta com os demais, Juan se afastou com Marco Aurélio, dizendo dar direcionamentos, e voltou mandando todos os outros ficarem, abre aspas, de bico calado.

Osvaldo também fala que, na noite anterior, Juan e Marco Aurélio saíram de suas barracas juntos, rumo ao mato, para fazer necessidades fisiológicas, e que o garoto voltou esquisito, tenso, desconversando e dizendo estar com muito sono. 

Nesse ponto, a mídia já tinha colocado a cabeça do chefe dos escoteiros a prêmio, e não faltaram acusações de atitudes criminosas que envolviam até a suspeita de pedofilia. As acareações entre escoteiros e chefe dez, vinte dias depois do ocorrido, não deram em nada, pois todos sustentavam suas versões.

Uma que chama a atenção por ser muito estranha mas que a polícia não parece ter dado muita bola é a de que alguns dos garotos viram um homem de marrom na trilha. Poderia ser um andarilho, um trilheiro, um serial killer… ninguém nunca vai saber, pois essa pista nunca foi seguida pelas autoridades.

Além das suspeitas de Juan, a polícia também trabalhou com a hipótese de sequestro, de desaparecimento por acidente, como se Marco Aurélio tivesse caído, se ferido mortalmente ou ficado muito ferido, interrompido seu trajeto e morrido pelas condições naturais, já que ele não estava preparado para o frio e para acidentes, mas nesse caso teriam achado um corpo, o que também não aconteceu.

Outra suspeita é a de que o garoto teria saído da mata, assim como o grupo de escoteiros, mas ido por outra direção, se perdido e, pela desorientação, causada pelos ecos, frio, fome e medo, tenha se esquecido de quem era e do que estava fazendo ali. Quem sustenta essa hipótese acredita que Marco Aurélio possa estar vivo até hoje, em situação de rua, mas na época, com todo o alcance da mídia, seria meio difícil não identificar o garoto, mesmo que ele próprio não conseguisse se lembrar de nada.

Com essas suspeitas, vamos às principais teorias do que aconteceu com Marco Aurélio Simon, de quinze anos, no dia oito de junho de mil novecentos e oitenta e cinco.

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A primeira teoria é a de que Juan, o chefe dos escoteiros, era um maníaco sexual de dupla personalidade e que matou o garoto após abusar dele, ou no dia do desaparecimento ou na noite anterior, quando voltou com Marco Aurélio da mata e o garoto estava tenso.

Essa teoria foi reforçada por diversas formas de tentativa de confissão que, hoje, seriam ridículas, como sessão de hipnose e teste de polígrafo, que sabemos que não é válido como prova judicial por não ter eficácia científica comprovada.

Em dezembro de oitenta e cinco, uma ligação anônima para a família de Marco Aurélio avisa que Juan o matou e o picou, jogando seus restos mortais pela mata. 

Durante as buscas, alguns videntes estiveram no local clamando saber onde o corpo estava, e cada pista seguida dava em lugar nenhum. Não foi achado sequer o apito do garoto, roupas ou calçados, então não tinha como afirmar que ele tinha sido ASSASSINADO.

Apesar de ter sido negligente, e do depoimento dos garotos colocá-lo em uma situação bem ruim, a verdade é que não havia prova alguma contra Juan, e nem sua negligência em deixar uma criança sozinha em uma mata fechada podia ser tipificada como crime naquela época. Por isso, o inquérito policial foi arquivado com Juan inocentado de qualquer acusação sem ter que ir a julgamento por elas.

A conclusão final do inquérito policial foi a seguinte: se Marco Aurélio tivesse seguido a trilha, teria chegado à estrada. Se tivesse se acidentado no percurso, teria sido encontrado nas buscas. Se tivesse se embrenhado na mata, não teria se distanciado muito, pelo mau tempo e cansaço.

Se tiver sido assassinato, Juan dificilmente seria o responsável, porque não haveria tempo suficiente para realizar o crime, ocultar o corpo tão bem, a ponto de não ser encontrado, e ainda seguir para os limites do estado com mais três jovens, sendo um ferido.

Também não é levantada a possibilidade de um homicídio coletivo, já que dificilmente os garotos e ele teriam guardado o segredo por tanto tempo e sustentado versões que, mesmo diferentes entre si, não guardam contradições excepcionais para levantar a bandeira vermelha.

Sequestro seria uma hipótese, mas nenhum regaste foi pedido durante todo esse tempo. 

Como o garoto sumiu sem deixar rastros, muita gente ligou o caso com abdução por alienígenas, sendo essa a segunda teoria. Embora absurda, ela é sustentada pelo clarão de luz azul que as testemunhas disseram avistar na noite de domingo, com o apito, e que depois se apagou, junto com o som. 

A terceira teoria é a de que Marco Aurélio continua vivo, que saiu da mata, se desorientou, se perdeu, ou sofreu um trauma muito forte no percurso e que vive hoje sem saber quem é e que pessoas procuram por ele. 

Durante as investigações, após as notícias e os cartazes espalhados, um motorista de ônibus chegou a prestar depoimento dizendo que tinha dado uma carona para um garoto desorientado, nos arredores do Pico dos Marins, cujas características físicas batiam com as de Marco Aurélio.

Como nesses casos muita gente chega com pistas falsas, só para participar do acontecimento de alguma forma, os policiais fizeram um teste: durante esse depoimento, pediram ao irmão gêmeo de Marco Aurélio que entrasse na sala, de surpresa. 

O motorista, chocado, disse que ele era o garoto para quem tinha dado carona, sem saber que, na realidade, era o gêmeo, que não foi ao passeio dos escoteiros. Essa reação acabou reacendendo as esperanças dos familiares, junto a outro acontecimento, nos anos depois do ocorrido, quando a família de Marco Aurélio foi até o centro espírita de Chico Xavier, o maior médium do Brasil, e lá foi informada pelo próprio Chico que não poderia colaborar com ela porque, abre aspas, eu só consigo me comunicar com os mortos, não com os vivos, fecha aspas.

Hoje existem cartazes e fotos mostrando como Marco Aurélio está, se ainda estiver vivo, já na casa dos cinquenta anos. O mais absurdo é que essa teoria de ele estar vivo deu origem a uma outra que, pasme, defende que Marco Aurélio NUNCA EXISTIU.

Que na verdade o gêmeo é o próprio garoto e que o grupo dos escoteiros criou essa lenda urbana para fazer marketing das trilhas do Pico dos Marins. Olha, o pai de Marco Aurélio, que está na casa dos oitenta anos, disse que ele não vai morrer até descobrir o que aconteceu com seu filho. Se tudo não passasse de um delírio coletivo, já teria ido longe demais e todos desmentiriam, e não CONTINUARIAM buscando por respostas, o que é o caso.

E aí temos também a teoria de que o homem de marrom que os garotos avistaram, o andarilho, que pode ter ficado à espreita do grupo sem ser notado, seja uma espécie de serial killer ou sequestrador de meninos que estava na região.

Essa hipótese nunca foi investigada pela polícia, aparentemente, mas deveria. Lembra do filho do seu Afonso, aquele que bagunçou a barraca toda do Marco Aurélio e acabou confundindo seu grupo, que tinha achado que ele teria ido lá buscar ajuda e voltado à trilha?

Pois é: esse garoto TAMBÉM SUMIU, cerca de dois anos depois do acontecido, mas não teve cobertura da mídia. Ele tinha a mesma idade de Marco Aurélio, e se não tiver sido uma infeliz coincidência dois sumiços no mesmo local, pode ter sido algum esquema de rapto de garotos que passou batido nos arredores de Piquete.

Por fim, temos uma suspeita que é tão… gente, nem sei explicar. É esquisita. E parece que a polícia também não foi atrás dessa pista. Que é a seguinte: a luz azulada que muita gente acha que é um ET daria no casebre de uma mulher que vivia no meio do mato e, segundo boatos locais, participava de uma SEITA.

Ao ouvir o apito, Juan se dirigiu para lá. Em vez de encontrar um disco voador abduzindo seu escoteiro, deu de cara com essa mulher, que não o deixou entrar, disse que não viu menino nenhum e fechou a porta na cara dele.

E Juan simplesmente VOLTOU. 

Tipo: QUE?! 

Eu espero de coração que essa teoria seja apenas uma lenda urbana e o fato de que a polícia não seguiu a pista é porque nem essa casa nem essa mulher existem, porque olha… se ronca como porco, se cheira como porco, jardim de lavanda é que não é…

Em resumo, ninguém sabe onde está Marco Aurélio, quase trinta e oito anos após seu sumiço, mas as pessoas da sua família não pararam de procurar. E, por sorte, um novo comando policial REABRIU o caso, que estava fechado desde mil novecentos e noventa, para tentar esclarecer, de uma vez por todas, o que é que aconteceu na fria noite de oito de junho de oitenta e cinco.

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Com a reabertura do caso, em dois mil e vinte e um, algumas atualizações foram feitas, nenhuma conclusiva.

Em dois mil e dezoito, um trilheiro francês de cinquenta e quatro anos, chamado Eric Welterlin, foi fazer a trilha do Pico dos Marins e não voltou para casa. Sem dar notícias, desapareceu por quinze dias, tempo em que sua esposa avisou aos bombeiros e quinhentas pessoas foram selecionadas para as buscas, igual ao que aconteceu em oitenta e cinco.

Eric participava de trilhas e corridas e conhecia a trilha do Pico dos Marins muito bem, por isso ninguém desconfiou que o pior poderia acontecer quando ele não voltou para casa. Um incidente, talvez, ele poderia estar precisando de ajuda… além das pessoas, cães farejadores e drones fizeram parte das buscas que cobriram cento e cinquenta e dois quilômetros quadrados ao redor do pico. 

Mais uma vez, NADA foi encontrado e as buscas foram encerradas. Só que, diferente de Marco Aurélio, apenas dois dias depois da paralisação nas buscas o corpo de Eric foi encontrado por um fazendeiro no fundo de um abismo, próximo a um riacho, e suspeita-se que ele tenha morrido de hipotermia.

Depois desse caso, uma mulher deu uma declaração à polícia dizendo acreditar que o garoto tenha morrido nos arredores da casa de seu Afonso e foi enterrado ali. Ela disse que se recorda de, em oitenta e nove, ter visto algo similar a uma cova, com terra fofa que tinha mais de um metro de profundidade. Ela sabe disso porque enfiou um pedaço de madeira lá, mas porque ela não disse nada NA ÉPOCA é tão misterioso quanto o próprio sumiço de Marco Aurélio.

Há fontes que dizem que essa pessoa é a filha de seu Afonso, e que a barraca toda revirada de Marco Aurélio por seu irmão pode ter gerado alguma briga e que o escoteiro morreu, sendo enterrado pelo próprio Afonso dentro da casa para que o filho dele tivesse uma lição. Eu, hein. 

Como o Pico dos Marins e arredores é protegido por licenças ambientais, a escavação nas coordenadas do depoimento desta mulher  Isso reabriu o caso já com uma escavação onde a mulher deu as coordenadas, mas nenhum corpo foi encontrado, nem dentro da casa, nem fora. 

O caso segue reaberto, mas sem pistas de onde pode estar o garoto que, hoje, se estiver vivo, já é um senhor de idade.

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Juan, o chefe dos escoteiros, tem cerca de setenta anos e vive atualmente em Manaus. Depois de ter sido retirado como suspeito do inquérito, ele preferiu ficar recluso e não dá entrevistas. 

Osvaldo, o escoteiro que se feriu na trilha, dá algumas entrevistas e participa de lives contando sua experiência e, até os dias de hoje, diz se sentir muito culpado por ter se ferido, pois caso isso não tivesse acontecido, o amigo estaria bem. Ele, claro, não tem culpa NENHUMA, mas entendo esse sentimento.

Ricardo, escoteiro que seria o monitor naquela noite, mas perdeu o posto para Marco Aurélio, é um bem-sucedido líder do setor de recursos humanos.

Ramatiz é engenheiro, se casou e mora até hoje em São Paulo.

Seu Afonso, o dono da casa em que os escoteiros se hospedaram, já é falecido, assim como Tereza Neuma Bezerra, mãe de Marco Aurélio. Os irmãos dele, Marco Antônio, seu gêmeo, e Fábio, o irmão mais velho, continuam vivos e junto ao pai, o jornalista Ivo Bosaja Simon, buscam respostas.

Seu Ivo, com mais de oitenta anos, diz ser imortal, pelo menos até saber o que aconteceu com seu filho. Recentemente, ele revelou em entrevista não estar preparado para caso Marco Aurélio esteja VIVO.

Antes de dar minha opinião sobre esse caso, um disclaimer rápido: existem livros, vídeos e até um podcast novo dirigido pelo Ivan Mizanzuk, jornalista responsável pelo Projeto Humanos e Série do Caso Evandro, e não é DIFÍCIL encontrar o nome todo dos escoteiros e do chefe dos escoteiros na internet. Inclusive, os escoteiros e os familiares de Marco Aurélio até fizeram uma live pública, disponível no YouTube, para comentar o caso em dois mil e vinte e um, quando foi reaberto.

Eu optei por não dar essas informações aqui porque acredito que, uma vez que foram todos inocentados, deve ser uma lembrança dolorosa, e a gente sabe que muita gente sai caçando esse pessoal na internet pra dar apoio, mas também tem gente que joga hate, e eu prefiro que nosso canal não seja apenas mais um a facilitar o acesso dessa segunda galera aos perfis dos envolvidos.

Aqui a gente faz os Casos Reais para honrar as vítimas e alertar sobre os perigos do mundo lá fora, e acho que todos os pensamentos positivos devem ir para Marco Aurélio, onde quer que ele esteja, principalmente se ele ainda estiver entre nós e ter vivido uma vida de estranhezas, sem se lembrar de quem ele é.

Roteiro e pesquisa: Lais Menini

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