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Em dezembro de 1988, um homem chamado Scott Johnson foi encontrado sem vida no fim de um penhasco na região de Sydney, na Austrália. O caso levantou várias teorias sobre um acidente, a possibilidade de ele ter tirado a própria vida e - o que a família mais defendia - um homicídio. 

Esse caso levou anos pra finalmente ser concluído e, em 2020, ele teve uma super reviravolta, depois de mais de trinta anos

Scott Russell Johnson nasceu nasceu em vinte e sete de novembro de 1961, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele era o mais novo dos três filhos da família. O seu irmão, dois anos mais velho, era o Steve. Além dele, os dois tinham uma irmã mais velha, que se chamava Terry. Os três cresceram super próximos, brincavam muito juntos e até dividiam o mesmo quarto.

Eles não divulgam os nomes dos seus pais, mas a gente sabe que os dois se casaram muito jovens. A mãe do Scott ficou grávida pela primeira vez quando tinha só dezoito anos. Os filhos também contam que a infância dos três foi muito boa. Porém, quando o Scott tinha oito anos, e o Steve tinha dez, os pais se separaram - e, a partir daí, tudo mudou. 

O pai deles simplesmente desapareceu. Ele nunca voltou pra casa, nem pra visitar os meninos, e nunca deu o menor suporte pra ex-mulher. Ou seja, ela precisou trabalhar sozinha pra manter sua casa e três crianças. O pai dos meninos se mudou pro Colorado e, anos depois, eles iriam descobrir que ele estava começando uma nova família, com uma nova mulher.

Assim que o Scott e o Steve ficaram um pouco mais velhos, ali na fase da pré-adolescência, eles passaram a trabalhar pra ajudar a mãe. Eles trabalhavam juntos, entregando jornais, e isso aproximou ainda mais os dois irmãos.

Com isso, o Scott e o Steve se tornaram inseparáveis. Eles sempre foram bem parecidos: os dois eram tranquilos, tímidos e super inteligentes. Eles adoravam qualquer assunto nerd e os dois se saíam super bem na escola. Até na aparência, eles eram bem iguais, parecendo gêmeos, os dois de olhos castanhos e cabelos loiros.

Os dois, junto da irmã Terry, sempre se apoiaram muito. Porém, algumas coisas ficaram mais difíceis quando a mãe deles resolveu namorar um novo homem e levar esse homem pra morar na casa deles. O problema era que a relação das crianças com esse novo namorado da mãe era péssima. O Scott era uma criança bem quietinha, e seu irmão dizia que desde cedo ele era brilhante e “diferente”.

Isso fazia com que o padrasto implicasse com ele o tempo todo e dissesse coisas extremamente maldosas, como que ele precisava “agir com um homem de verdade”. 

Só que esses comentários ficam ainda piores quando a gente descobre que o Scott era gay. Essas falas maldosas do padrasto só faziam com que ele reprimisse sua sexualidade e tivesse medo de se assumir. Até porque o Scott cresceu entre os anos setenta e oitenta e a gente sabe que a homofobia da sociedade era imensa. 

A população LGBTQIAP+ sofria muito nessa época, escondendo quem realmente eram pra não sofrer alguém tipo de retaliação. Isso é super triste e o Scott deve ter sentido que não podia ser quem ele era até na sua própria casa. O preconceito fez ele se fechar ainda mais no seu mundo, na sua bolha, escondendo sua sexualidade até dos seus irmãos.

Porém, isso não impediu que ele ainda fosse um jovem muito inteligente e que mostrasse isso ao mundo. O Scott era um dos adolescentes mais brilhantes da escola e sempre foi apaixonado por ciências exatas. Ele adorava matemática e física, e sempre conversava com o irmão sobre teorias dessas áreas.

Quando eles acabaram a escola, o Scott entrou pra Caltech, o Instituto de Tecnologia da Califórnia. Lá, ele estudava matemática e se destacava muito, criando várias pesquisas importantes.

Já o irmão dele, o Steve, foi estudar na USC, a Universidade do Sul da Califórnia, que era super perto da Caltech. Agora, mais uma vez, os irmãos inseparáveis estavam perto um do outro e continuavam fazendo tudo juntos. 

Os dois adoravam criar coisas. Era o início da popularização dos computadores, e da internet, e os dois eram fascinados pelos assuntos de tecnologia. Eles estudavam sozinhos um pouco de programação e tinham um computador super antigo, que eles usavam pra desenvolver os próprios códigos de programas.

Juntos, os dois chegaram a desenvolver um dos primeiros programas que permitia o envio de fotos pela internet, pra vocês terem ideia. Além de trabalharem nessas criações, os dois adoravam viajar juntos e viver aventuras, fazendo trilhas e escaladas, ou acampando. 

Nessa época, o Steve conheceu uma mulher chamada Rosemarie Torres, na faculdade. Eles se apaixonaram e, a partir daí, o Scott, o Steve e Rosemarie viraram um trio. 

O Scott virou um grande amigo da namorada do irmão e eles seguiam fazendo viagens juntos. Numa dessas viagens, eles resolveram visitar o pai no Colorado, que o Scott e o Steve não viam há anos.

Apesar de todos os problemas e do abandono por parte do pai, eles conseguiram uma leve aproximação. Com isso, eles conheceram a irmãzinha mais nova por parte de pai, chamada Rebecca. 

Ela ainda era criança e o Scott e o Steve passaram a visitar a Rebecca com frequência. Ela via os irmãos mais velhos como inspiração e, logo, eles também se tornaram super próximos.

Depois que se formou em matemática na Caltech, o Scott resolveu fazer pós-graduação em Cambridge, na Inglaterra. Lá, ele fez vários amigos e conheceu um homem chamado Michael Noone, por quem ele se apaixonou. 

Eles começaram um relacionamento, mas tinha um problema: o Michael era da Austrália e precisaria voltar pra lá pra completar algumas pesquisas. Então, a menos que eles tivessem um namoro à distância, seria complicado continuarem juntos. 

Depois de um tempo, o Michael realmente acabou voltando pro seu país. O Scott sempre mandava cartas pro Steve e pra Rosemarie, e às vezes conseguia fazer visitas pra família na Califórnia. Até que, em uma dessas visitas, ele contou pro Steve sobre o Michael e assumiu sua sexualidade. 

Tanto o Steve, quanto a Rosemarie, falam que foram acolhedores com o Scott e demonstraram apoio. Porém, de acordo com a Rosemarie, eles também ficaram um pouco preocupados. Eles viam notícias frequentes sobre LGBTs sofrendo com preconceito e com agressões físicas, então temiam pelo Scott - já que o mundo era bem mais intolerante naquela época. 

E aí eles passaram a temer duas vezes mais, quando o Scott revelou que ia se mudar mais uma vez. Ele contou que iria pra Austrália, pra terminar seus estudos por lá e morar com o seu namorado Michael. Muito corajoso, ele se mudou pra cidade de Camberra, a capital da Austrália (sim, gente, não é Sydney!) e, lá, ele passou a estudar na Universidade Nacional da Austrália. 

Na época, Camberra tinha poucos habitantes, cerca de uns duzentos mil, e era uma cidade um pouco mais antiga e conservadora, em alguns sentidos.  Por isso, muitos jovens da Austrália viajavam com frequência pra Sydney, que era uma cidade mais agitada e contemporânea. O Scott fazia essa viagem com frequência, tanto sozinho quanto com amigos.

Sydney tinha alguns bares gays e até pontos de encontro que eram considerados seguros pra população LGBT. Nessa época, também existia em Sydney algo chamado “Gay Beat” ou “batida”. Os gay beats eram pontos de encontro para homens gays, como se fosse um espaço livre e seguro onde homens podiam ter encontros, passar um tempo juntos e namorar. 

Além do fato de Sydney ser uma cidade menos retrógrada, nesse sentido, ainda tinha um agravante que fazia com o que o Scott sempre viajasse pra lá: o professor que estava orientando a sua tese da pós-graduação vivia em Sydney, então eles sempre se encontravam na cidade pra discutir a pesquisa.

E foi o que ele fez no dia sete de Dezembro de mil novecentos e oitenta e oito. Nessa época, o Scott tinha acabado de completar vinte e sete anos e estava bem no fim da sua tese. Ele também tinha avisado seu namorado Michael que passaria alguns dias em Sydney pra resolver esses detalhes da pesquisa. 

Naquela época, não existiam celulares que nem hoje em dia e a comunicação era bem mais complicada. Então, era comum que o Scott tivesse passado alguns dias sem manter contato com ninguém. Ele já não via o Steve, por exemplo, há alguns meses. E eles acabavam conversando pouco, por conta da rotina e do fuso horário. 

O Steve, por sua vez, estava muito focado no seu trabalho, suas pesquisas e na sua família, já que ele e a Rosemarie tinham acabado de ter a primeira filha deles, a Emma. O Scott ainda nem conhecia a sua nova sobrinha - e o Steve conta que estava super ansioso pra que ele conhecesse. 

Porém, no dia dez de dezembro, o Steve recebeu uma ligação na sua caixa-postal que mudou tudo. Ele foi checar sua secretária eletrônica e ela tinha um recado do Michael Noone, o namorado do seu irmão. No recado, o Michael parecia preocupado e dizia pro Steve retornar o mais rápido possível.

Quando ele fez isso, ele recebeu a pior notícia que poderia receber: seu irmão estava morto…

Naquele dia dez, um sábado chuvoso, o corpo do Scott foi encontrado caído no fim de um penhasco de sessenta metros de altura, em uma região chamada Manly, ou North Head. 

North Head, Sydney.

Esse era um local de Sydney bem bonito e cheio de falésias (que são umas encostas bem íngremes, que nem eu vou mostrar aqui em fotos). O Scott teria caído da beirada de uma dessas encostas e morrido ao atingir várias pedras que tinham no final do penhasco. 

O corpo foi encontrado em um estado terrível. Ele estava nu, sem nenhuma peça de roupa e cheio de machucados por conta da queda. 

Ele teria caído, machucado as pernas e, depois, batido a cabeça bem forte, o que o fez morrer na hora. 

Os peritos que analisaram a cena ainda determinaram que o corpo deveria estar ali há uns dois dias. Ou seja, ele teria morrido na quinta-feira, dia oito de dezembro

E, antes que vocês imaginem que ele poderia ter pulado pra mergulhar no mar, aquela é uma área bem conhecida e perigosa. É uma região cheia de pedras bem visíveis do alto, então não teria como ele ter pulado sem ver as pedras e sofrido um acidente, por exemplo.

Os policiais de Sydney, liderados por um homem chamado Troy Hardie, foram até o alto do penhasco pra ver se lá em cima teria algum indício do que aconteceu com o Scott.

Em uma pedra, estavam as roupas dele, esticadas e organizadas. Além disso, tinham alguns acessórios deixados em cima das roupas, alguns documentos com o endereço do Scott e os tênis. 

A única coisa que estava faltando era sua carteira. 

Mesmo assim, a polícia conseguiu o telefone do Michael, através do endereço nos documentos, e descobriram que aquele corpo pertencia ao Scott Johnson. O Michael foi chamado para identificar o corpo em Sydney e, a partir disso, ligou pros irmãos Johnson, que ficaram completamente arrasados.

O corpo do Scott foi levado pra autópsia e, lá, foi determinado que ele não tinha nenhum sinal de abuso ou nenhum outro ferimento que não fosse decorrente da queda. O médico legista também fez alguns testes, que revelaram que o Scott não tinha nenhuma doença, e também mostraram que ele não tinha nenhuma quantidade de álcool no organismo.

Então, a polícia começou a investigar o caso, pra saber o que teria acontecido com o Scott. Eles interrogaram algumas pessoas próximas, como o Michael e alguns amigos da faculdade. Com isso, eles descobriram uma coisa importante…

O Michael disse que o Scott tinha algumas crises depressivas. 

Ele teria falado algumas vezes sobre não se sentir apoiado de verdade pela família, já que o Michael não tinha sido convidado pro casamento do Steve - dando a entender que os parentes não apoiavam totalmente o relacionamento. O Scott também teria falado várias vezes sobre tirar a própria vida. Em uma dessas vezes, alguns amigos da faculdade contam que ele ameaçou pular de uma ponte depois de ter traído o Michael, mas desistiu da ideia. Eles também teriam se acertado quanto à traição.

Naquela época, anos oitenta, também existia um estigma e preconceito muito grande envolvendo o HIV, ou AIDS. A sexualidade dos pacientes de HIV era sempre questionada e muita gente atrelava a doença a algo que “apenas gays tinham”. 

O Michael falou pra polícia que, depois da traição, o Scott ficou com medo de ter HIV e isso teria gerado uma ansiedade imensa nele, de forma que ele voltou a falar sobre tirar a própria vida. Vale dizer que ele não tinha HIV, mas dá pra perceber que ele estava muito atormentado com pensamentos depressivos e ansiosos. 

Os amigos do Scott confirmam tudo o que o Michael disse e isso alimentou a teoria da polícia de que aquele teria sido um caso de suicídio… Até porque fazia sentido, né? Há alguns meses atrás, ele falou pra amigos que iria se jogar de uma ponte. Agora, tinha aparecido na beira de um precipício. Seguindo a lógica, eram formas semelhantes de morrer e ele podia mesmo ter tirado a própria vida.

Porém, os amigos negaram que o Scott teria feito isso com ele mesmo. Eles disseram pra polícia que nas últimas semanas ele estava super empolgado com suas pesquisas na faculdade, além do fato de que sua sobrinha tinha acabado de nascer. Eles disseram também que ele não iria tirar a própria vida sem deixar nenhum bilhete ou mensagem pras pessoas próximas… 

E é importante dizer que ele não se comunicou com nenhum parente naquele dia e não deixou nenhum recado no penhasco. 

Porém, não tinha nenhum indício de que outra pessoa estava no penhasco com ele e, pela forma como as roupas estavam organizadas, o Scott parecia ter arrumado elas, antes de pular. Isso, inclusive, foi algo bem questionado por algumas pessoas. Vários especialistas que analisaram esse caso falaram que é extremamente raro alguém tirar a própria vida sem roupas. 

Mas, pra polícia, aquela era a explicação mais plausível, de forma que em poucos dias eles aceitaram aquela teoria como a oficial. No atestado de óbito, a causa da morte foi dada como suicídio e - em um dia - o caso foi encerrado.

O Steve ainda estava na Califórnia e só conseguiu chegar na Austrália trinta e seis horas depois do corpo ser encontrado. Quando ele chegou, o caso já tinha sido fechado e ele ficou completamente revoltado. 

Como era possível que, em tão pouco tempo, a polícia tivesse encerrado o caso sem analisar outras possibilidades? 

Nem o Steve, nem os amigos da faculdade acreditavam que aquilo fosse um suicídio. Então, eles começaram uma movimentação pra que o caso fosse mais investigado. O Steve sentia que tinha algo de errado naquela história e precisava descobrir a verdade pelo irmão, que também era seu melhor amigo. 

Ele aproveitou sua viagem pra falar com a polícia e com o Michael, pra tentar descobrir alguma coisa sobre os últimos passos do Scott. 

E isso foi o que ele descobriu:

No dia três de Dezembro, um sábado, o Michael deu uma festa de aniversário pro Scott em Sydney, na casa dos pais do Michael. No dia quatro, o Scott e o Michael foram até uma praia que era conhecida por ser uma praia LGBT, um lugar mais seguro pra um casal gay passear.

No dia cinco de dezembro, segunda-feira, o Michael voltou pra casa deles na capital, em Camberra, e deixou o Scott ainda em Sydney, na casa dos sogros. Além dos pais do Michael, a irmã dele também morava na casa. No dia sete de dezembro, quarta-feira, o Michael saiu pela manhã pra se encontrar com seu professor orientador. Eles conversaram sobre a pesquisa no escritório desse professor e o Scott foi embora.

Na tarde daquela quarta, o Scott foi até um caixa eletrônico e sacou quarenta dólares (de acordo com um comprovante que foi achado junto com suas roupas, no penhasco). Às onze da noite, a irmã do Michael ouviu ele chegando na casa. Na manhã seguinte, quando ela acordou às seis horas, viu que o Scott ainda estava dormindo.

E essa foi a última pessoa conhecida a ver o Scott com vida.

Ao meio dia, o Scott liga pro seu orientador e eles conversam mais uma vez sobre algumas coisas que ele precisa arrumar na sua tese. Nessa ligação, eles combinaram de se encontrarem na quarta-feira seguinte pra conversarem melhor sobre aquilo. 

Nesse mesmo horário, registros telefônicos da casa dos sogros do Scott mostram que o Scott recebeu uma ligação de um amigo do Michael, procurando por ele. Ele teria falado que o Michael estava na casa deles, em Camberra. Esse amigo foi procurado pelo Steve e contou que o Scott parecia normal na ligação, não parecia triste, nem nada do tipo.

O professor também falou que o Scott parecia bem quando se viram e não parecia deprimido ou melancólico.  O Steve foi até a casa do Michael e chegou a pressionar ele por informações. Isso fez com que eles discutissem e o Michael entendeu que o Steve estaria acusando ele de estar envolvido na morte do Scott. 

Ainda que o parceiro seja sempre um suspeito na maioria dos casos, o Michael álibis em Camberra, então ele nunca foi considerado suspeito pelos detetives.

Depois disso, o Steve foi questionar a polícia e pedir pra investigarem outras possibilidades. Ele encontrou o policial responsável pelo caso, Troy Hardie, e fez várias perguntas, como se ele tinha interrogado pessoas na região de North Head. 

Esse policial Troy teria falado pro Steve “você sabia que seu irmão era homossexual? Porque esse precipício é um lugar onde alguns homossexuais já tiraram suas vidas…”

E é óbvio que o Steve não sabia sobre o episódio depressivo em que o Scott teria falado pra amigos que iria pular de uma ponte. Ele disse que ficou muito abalado com a possibilidade de o irmão ter tirado a própria vida e pediu pra que o policial fosse com ele até o penhasco, pra ele ver o local por conta própria.

O Steve fala que ficou procurando por qualquer mensagem ou bilhete de despedida, algo que desse sentido à teoria do suicídio. Então, ele começou a pensar: e se não foi um suicídio ou acidente? E se alguém brigou com o Scott e ele foi empurrado?

Depois de alguns minutos, o policial Troy Hardie só disse um “sinto muito pela sua perda” e deixou claro que o caso não seria reaberto… Nesse momento, saiu uma única notícia na mídia sobre o caso, no Manly Daily, dizendo que a morte parecia um suicídio, já que não tinha nenhum elemento suspeito na forma como o Scott foi encontrado. 

O Steve fala que ele só aguentou os meses que se seguiram por conta da sua filha recém-nascida, porque foram tempos bem difíceis. Nesse meio tempo, o corpo do Scott foi velado e cremado na Califórnia, com a presença da sua família e amigos. 

Ainda assim, a sensação não era de “encerramento”. 

Por isso, o Steve continuou investigando sozinho, determinado a conseguir respostas, independente do tempo que levaria. E eu já adianto que levou muito tempo…

O Steve reuniu várias anotações, documentos e perguntas. Um amigo dele, chamado Chris Grace, estava atuando na política dos Estados Unidos e conhecia o ex-senador Ted Kennedy (irmão do ex-presidente John Kennedy). 

Esse amigo entregou esses materiais pro Ted Kennedy e pediu pra que ele ajudasse no caso. O Ted mandou uma carta pra embaixada da Austrália, pedindo por maiores investigações sobre o caso do Scott e, dois meses depois, o Steve recebeu uma carta.

Essa carta dizia que em Março de mil novecentos e oitenta e nove aconteceria um inquérito sobre o caso.  Quando a data do inquérito chegou, a conclusão foi a mesma de antes: Scott teria pulado do precipício e tirado a própria vida.

O inquérito e a polícia australiana ainda afirmaram que pessoas introvertidas e inteligentes, como o Scott, se enquadram no “tipo de pessoa que cometeria suicídio” - como se isso fosse algum sinônimo de melancolia.

A família ficou super abalada com aquela resposta da justiça. Tudo o que eles conseguiam pensar era “como a gente não percebeu que o Scott poderia tirar a própria vida?” e os irmãos dizem que sentiam que falharam com ele. Eles resolveram aceitar que aquela era a resposta que tinham, assim como aceitar que a vida nunca mais seria a mesma.

Nos anos noventa, o Steve teve mais dois filhos, um menino e uma menina. Nessa época, ele diz que tudo o lembrava do irmão. Filmes de ficção científica, novidades de tecnologias…

Em noventa e três, ele deu continuidade ao programa que eles tinham começado, que permitia que fotos fossem enviadas de forma rápida pela internet. 

Ele vendeu os direitos sobre esse programa pra empresa AOL (de serviços de internet) e foi um sucesso. Tanto, que ele passou a conseguir vários contatos importantes e conseguiu uma estabilidade financeira pra criar seus filhos.

Ele diz que sempre pensou no irmão nesse meio tempo, mas que tudo realmente voltou à tona nos anos dois mil. Em dois mil e seis, o Michael Noone voltou a entrar em contato com a família Johnson. Ele reuniu várias reportagens de jornais dos últimos anos e mandou pro Steve analisar.

Todas as reportagens falavam de assassinatos de homens gays na Austrália. E quase todos esses homens tinham morrido por agressões ou caindo de penhascos…

Essas notícias começaram a aparecer em todos os lugares, porque alguns detetives tinham começado a analisar padrões em alguns desses casos. 

Alguns casos que pareciam suicídio, começavam a ser olhados de outra forma. E se todos esses homens foram empurrados, em algum momento?

Nenhuma das notícias mencionava o Scott, mas algumas dessas vítimas foram: Raymon Keam, no ano de 1987; William Allen, em 88; John Russell em 89; assim como Richard Johnson e um homem chamado Kritchkorn, os dois 1990. 

Além disso, vários homens que eram gays assumidos tinham desaparecido nesse mesmo período, como um apresentador chamado Ross Warren e um outro homem chamado Gilles Mattani. Todos desapareceram ou foram encontrados mortos em regiões populosas da Austrália, principalmente em Sydney. 

Nenhum dos homens listados nas notícias se conheciam, mas todas as mortes indicavam uma coisa: crimes de ódio. Quando os irmãos do Scott viram aquelas notícias, tiveram certeza de que o irmão era mais uma vítima daquela longa lista de assassinatos. 

Eles pensavam que aquilo fazia muito mais sentido do que um suicídio, então o Steve resolveu mergulhar no caso mais uma vez, pra investigar. Dessa vez, ele também tinha mais recursos do que nos anos oitenta.

Em dois mil e seis, aos quarenta e sete anos, ele voltou pra Sydney, dessa vez acompanhado da sua filha mais velha Emma.

O Steve levou todas as reportagens até a polícia de Sydney e pediu pra que um detetive desse uma olhada no caso, já que a morte do Scott tinha grandes chances de estar entre os crimes de ódio que saíam nas notícias.

O detetive concordou, aceitou os documentos e prometeu que iria investigar o material. Depois de um tempo, o Steve e sua filha voltaram pra Califórnia e ele sempre mandava e-mails pra esse detetive, pra saber em que estágio estava a investigação. 

Até que o detetive respondeu e contou que eles nem tinham encontrado o arquivo e os pertences do Scott… Aparentemente, vários arquivos antigos de casos “encerrados” tinham sido destruídos. 

Ou seja, todas as roupas e documentos daquele dia não existiam mais e não poderiam existir novas análises. 

Mesmo pedindo atualizações constantes, o Steve também nunca tinha respostas de que o caso realmente estava sendo investigado. 

Por isso, ele seguiu sua investigação sozinho, até que um amigo apresentou pra ele o jornalista e investigador particular Dan Glick. 

O Dan ficou muito famoso nos Estados Unidos por cobrir o caso da JonBenét Ramsey - uma menina de seis anos que era uma mini-miss e que foi assassinada na sua própria casa.

Quando o Steve entrou em contato com o Dan, ele não sabia se iria conseguir ajudar muito por ser um caso parado há dezoito anos, sem pistas. 

Mesmo assim, ele aceitou participar da investigação, conheceu o Steve, estudou o caso e disse que faria o possível pra trazer respostas. 

Com isso, em maio de dois mil e sete, o Dan foi até Sydney. Nos primeiros dias, ele passeou por lá, pra conhecer a cidade e a região do penhasco onde o Scott morreu. 

O Dan até conta que ficou super emocionado e chorou quando chegou no topo do penhasco, pensando na tragédia que tinha acontecido ali. Ele ainda deu mais uma volta pela região e acabou indo parar em uma trilha sem saída, que acabava em uma estação de tratamento de água.

Essa estação ficava relativamente perto do penhasco, então o Dan aproveitou pra conversar com alguns homens que estavam trabalhando ali na frente.

Ele perguntou se um deles trabalhava ali desde os anos oitenta e um dos homens respondeu que sim. Então, o Dan perguntou pra ele se era comum que homens gays se encontrassem por ali, e adivinhem?

O homem respondeu “o tempo todo”. Acontece que, o Dan e o Steve não sabiam até então, mas aquela região do penhasco era um gay beat, um ponto de encontro pra homens gays namorarem. 

Isso mudava tudo. Se o Scott tinha morrido em um desse “beats”, será que ele estava num encontro? Será que ele tinha sido seguido por alguém com más intenções?

O Dan ainda checou essa informação com outras pessoas, como jornalistas ou estudantes da época, que confirmaram que o local onde o Scott morreu era um gay beat muito popular.

E, só um detalhe: o penhasco ficava a mais ou menos um quilômetro da delegacia. Então, tanto o Dan, quanto o Steve começaram a questionar se os policiais não estariam mentindo sobre saber que aquele era um ponto de encontro.

Algumas dessas pessoas com quem o Dan conversou contaram que, nos anos oitenta, mais ou menos vinte ou trinta pessoas passavam por dia naquele ponto de encontro.

Agora, as chances de o Scott estar sozinho quando morreu diminuíram muito… mas será que ele tinha ido pra um encontro, ou estava só fazendo uma trilha pela região e acabou indo parar ali?

O Michael não quis falar com o Dan sobre gay beats e a possibilidade de uma nova traição. Já alguns amigos do Scott disseram que, na época, esses pontos de encontro não eram algo que ele parecia curtir, até porque ele era bem tímido.

Mesmo assim, ainda existia a possibilidade de ele estar em um momento frágil do relacionamento e ter ido atrás de companhia em um desses locais. 

O Dan se lembrou de um detalhe e foi atrás do jornalista John Morcombe, do jornal Manly Daily, que tinha publicado uma nota sobre a morte do Scott em oitenta e oito.

Ao saber das novidades do caso, o John se prontificou a ajudar a trazer o caso à tona e o Steve enviou uma foto dele com o irmão pra ser usada na matéria.

No dia seguinte, a matéria foi ao ar com o título “foi um assassinato?”.

Depois disso, o Dan começou a receber ligações de vários homens de Sydney que diziam que já tinham ido até o penhasco North Head e que tinham sido assediados ou agredidos. 

Um deles, apelidado de “Saidy”, contou que uma vez foi até o penhasco pra procurar algum date, um romance. 

Chegando lá, ele encontrou um homem, eles ficaram e, depois disso, o homem simplesmente ergueu uma faca e deu uma facada nas costas do Saidy.

O Saidy foi até o hospital com a faca ainda nas costas, denunciou a agressão, mas nada foi feito a respeito do homem que esfaqueou ele. 

E isso era terrível, porque significava que a polícia já deveria saber que aquele era um ponto de encontro e que podia ser um local perigoso.

Sobre isso, um policial que trabalhou na polícia de Sydney nessa época, chamado Michael Gallacher, falou que se lembra de muitos policiais negligentes ou violentos contra a comunidade LGBT. Ele diz que, uma vez, um policial foi punido por ter agredido um homem gay. 

Já o Troy Hardie, que investigou o caso nos anos oitenta, se defendeu e disse que realmente nunca soube que aquele era um gay beat, um ponto de encontro. 

O Dan seguiu investigando pelos anos seguintes, junto do Steve, mas eles foram ficando sem pistas e sem ideias. Até que, em dois mil e onze, eles receberam um email de amigos dizendo “vejam essa postagem no facebook, alguém admitiu ter matado o Scott”.

Era uma publicação em uma página do Facebook chamada “Direitos do Casamento Gay na Austrália” e uma conta anônima tinha comentado “como esse perfil é fake e meu endereço de IP é bloqueado, eu estou admitindo que matei Scott Johnson”.

O Dan mandou aquilo pra uma delegada de Sydney e ela respondeu super rápido, dizendo que iria investigar. O Dan cobrou várias vezes o andamento dessa investigação, mas não teve respostas. 

Então, mais uma vez ele foi até Sydney. Lá, ele se encontrou com alguns policiais que eram os novos responsáveis pelo caso e os ajudou a analisar todas as pistas. 

Até que, finalmente, a polícia conseguiu rastrear o responsável pela publicação no Facebook. Mas adivinhem? Era um adolescente de catorze anos, que sequer estava vivo quando o Scott morreu, dando fim a essa pista.

Em Abril de dois mil e doze, a polícia de Sydney resolveu fazer um novo inquérito sobre o caso do Scott.

Nesse novo inquérito, a conclusão do suicídio foi anulada e a nova causa da morte foi dada como “indefinida”, pela falta de evidências. O caso, então, foi reaberto e levado pra um grupo de homicídios da polícia de Sydney.

O caso também voltou a ser notícias nos jornais, agora considerando a possibilidade de um assassinato. A família ficou muito feliz com o caso finalmente sendo levado a sério e investigado como deveria.

O Steve até aproveitou o momento para espalhar as cinzas do Scott em uma montanha de escalada, que era algo que eles adoravam fazer juntos.

Mesmo com a boa notícia, em pouco tempo o Steve e o Dan foram recebendo menos atualizações da polícia e um dos detetives chegou a falar que eles “levariam anos” pra conseguir respostas.

Eles sentiam que logo a polícia iria querer fechar o caso de novo, então decidiram criar pressão pública pra evitar que isso acontecesse.

O Steve mandou os arquivos que montou do caso pra várias pessoas importantes da Austrália como delegados, ministros, juízes… E também mandou pra emissoras de TV. 

Com isso, ele conseguiu que o caso fosse notado por diversos jornais e por um programa super famoso na Austrália, chamado Australian Story.

Isso gerou o efeito esperado e a pressão em cima do caso só aumentou. A polícia ofereceu cem mil dólares pra que desse informações sobre o caso e também divulgou uma força-tarefa. 

Enquanto isso, o Steve e o Dan continuaram a própria investigação, criando uma página no Facebook chamada “Justiça para o Scott Johnson”. Nela, eles foram recebendo mensagens, montando redes de conexões e chegaram a um número de sessenta homens que poderiam ser suspeitos.

Esses homens tinham denúncias de assédio ou agressão ou tinham algum histórico de já ter passado pelo North Head nos anos oitenta

Até grupos de skinheads entraram na lista de possíveis suspeitos, já que eles já tinham sido responsáveis por ataques de ódio em minorias, pelo norte do país. 

A nova detetive responsável pelo caso do Scott se chamava Pamela Young e ela era a única mulher no departamento de homicídios não-resolvidos. 

A Pamela diz que ficou super envolvida e realmente preocupada com o caso do Scott. O problema era que existiam alguns conflitos entre ela e a forma como o Dan Glick e o Steve investigavam sozinhos.

Ela não podia ou não conseguia usar várias informações que eles forneciam, por conta de a investigação deles não ser oficial e estar fora das regras da polícia.

Ela diz que investigou as sessenta pessoas de interesse que eles listaram e que nenhuma delas levou a alguma pista. 

Isso gerou vários conflitos entre o Steve e a polícia e, mais uma vez, ele sentiu que a família dele não estava recebendo o suporte necessário. 

Nessa época, o Dan recebeu um email de um homem chamado Freddy, que falava que ele fez parte de uma gangue chamada Vojka Spadina. 

Ele contou que a Spadina tinha sido responsável por agredir vários homens gays na década de oitenta e que achava que o Scott podia ter sido um deles.

O Freddy teve algumas conversas com o Dan, o Steve, os outros irmãos do Scott e até a polícia. Só que, com as informações que ele tinha, esse Freddy acabou se tornando um suspeito.

Ele disse que naquela época a gangue atacava à noite, então era muito difícil ele conseguir reconhecer alguma vítima, por exemplo. 

E ele disse que eles atacaram alguns homens na região do North Head, mas nunca naquela parte específica do penhasco onde o Scott caiu.

Apesar dessa pista, as suspeitas sobre o Freddy nunca avançaram e o caso passou por vários conflitos, já que a detetive Pamela começou a ser muito julgada por negligência. 

Ela ainda estava investigando possibilidades de suicídio ou de acidente e, com toda uma pressão popular e da mídia, ela acabou sendo removida do caso.

Em dois mil e dezesseis, aconteceu uma revisão de inquérito. Mesmo assim, sem evidências, o caso permaneceu indefinido

Nesse mesmo ano, algumas pessoas de interesse envolvidas com gangues nos anos oitenta voltaram a ser investigadas. Nisso, outro homem anônimo que já tinha feito parte da gangue Spadina deu uma declaração bem estranha pra polícia. 

Ele disse que em dezembro de oitenta e oito ele se lembrava que dois amigos se encontraram com ele à noite e um deles estava com os tênis manchados de sangue. 

Eles estavam rindo e falaram que agrediram um homem gay americano, que estava sem roupas, tomando sol nas pedras do penhasco North Head.

Isso gerou uma movimentação dos detetives, que começaram a buscar por mais pistas a partir dessa declaração.

Além disso, esse homem anônimo também admitiu que tinha conexões com dois policiais de Sydney na época. Isso também deu início a uma investigação sobre possíveis policiais corruptos. Mesmo assim, nada dessas informações levou a alguma pista real.

Em dois mil e dezoito, o caso passou a ser investigado pelo policial Peter Yeomans, que foi o primeiro a declarar abertamente que aquele caso era um homicídio. 

Nesse mesmo ano, a polícia colocou uma recompensa de um milhão de dólares em trocas de informações sobre esse caso. 

Com isso, o detetive Yeomans recebeu uma carta, que trouxe uma reviravolta pra essa história. 

A carta dizia que havia um homem nos anos oitenta que era conhecido por agredir homens gays. 

Essa carta também tinha um telefone, que levou a uma mulher chamada Helen White. 

O homem que ela denunciava na carta se chamava Scott Newman White e ela era seu ex-namorado, que ela conhecia desde os dezessete anos. É bem bizarro, inclusive, que o nome dele também seja Scott, então pra evitar confusões eu vou chamar ele de White. 

A Helen conta que o White já tinha sido preso por agressão e roubo quando era bem novo, e que ele tinha orgulho disso. Ele também era completamente homofóbico e sempre falava sobre violência contra homens gays, principalmente na região de North Head.

No começo do relacionamento dos dois, a Helen conta que era um bom parceiro. Porém, com o tempo, se mostrou violento e abusivo com ela, assim como era com o resto do mundo. 

Em dois mil e oito, a Helen viu uma reportagem sobre o caso do Scott e ela diz que mostrou essa notícia pro White e perguntou “você fez isso?”. E ele só respondeu “eu não fiz nada, quem correu pra beira do penhasco foi ele…”

A Helen ainda diz que confrontou o namorado e falou que, ter coagido o homem até a beira do penhasco era o mesmo que ter empurrado ele. 

Mesmo assim, na época ela não considerou que ele estava falando a verdade e admitindo o crime. Ele também ameaçava a Helen e os filhos dela constantemente, o que mantinha ela presa em um relacionamento terrível e violento.

Depois de alguns anos, o White teve um surto violento e atacou a Helen. Ela chamou a polícia e, depois disso, conseguiu sair da casa e ir morar sozinha com suas crianças. 

Ela fala que, só depois que se afastou dele, ela começou a pensar em tudo o que ele fez, ou disse que fez, e assim ela voltou a pensar na possibilidade de ele ser o assassino do Scott Johnson.

Em oitenta e oito, vale dizer que ela não conhecia o White ainda. Ele tinha só dezoito anos quando teria, supostamente, agredido o Scott no penhasco. 

Ela até se lembrou de um acontecimento que, agora, parecia muito importante. Uma vez, quando eles já estavam namorando, o White e ela foram até um bar. Ele comprou uma garrafa de bebida e começou a conversar com um homem. 

Depois, ele chamou o homem pra acompanhar ele e a Helen até a praia, e esse homem aceitou. Na praia, o White agrediu o homem com a garrafa da bebida e ordenou que ele “tirasse todas as roupas e as dobrasse, organizando elas no chão”.

A Helen diz que sempre se sentiu culpada por saber dessas informações sobre o White, mas que sentia um bloqueio quanto a denunciar ele. 

Ela fala que escreveu mais de cem cartas pro Steve Johnson, mas que nunca as enviou por medo. 

Até que, em dois mil e dezoito, ela finalmente enviou. 

E, se vocês lembram, um detalhe importante sobre o caso do Scott era que, por mais que alguns acessórios e papéis tivessem sido encontrados juntos das roupas dele no penhasco, uma coisa que nunca foi encontrada foi sua carteira.

Durante todos aqueles anos, a polícia entendia que o objeto podia ter caído do penhasco e sido levado pelo mar, por exemplo. Porém, a carta da Helen tinha uma explicação muito melhor pra isso.

Ela disse que, nos anos oitenta e noventa, o White sempre voltava pra casa se gabando de ter brigado com algum homem gay e, frequentemente, ela via ele segurando carteiras que não eram dele.

Ela até desenhou cada carteira que ele tinha colecionado ao longo dos anos, e eram muitas… Uma das carteiras, inclusive, tinha um formato muito parecido com a do Scott, de acordo com o que a família e amigos do Scott confirmaram.

Ao que tudo indica, as carteiras foram descartadas mais tarde, pelo próprio White. E, a maioria delas, tinham sido só de roubos.

O White foi interrogado pela polícia e, como vocês podem imaginar, ele negou ter cometido o crime. Sem nenhuma evidência, a polícia precisava extrair uma confissão. Então, eles continuaram investigando o White, seguindo ele e registrando seus passos…

Eles continuaram fazendo por todo o ano de dois mil e dezenove, sem nenhuma pista pra de fato prender o Newman White, e isso também seguiu até o ano de dois mil e vinte.

Até aqui, trinta e dois anos já tinham se passado desde a morte do Scott, sem que ninguém tivesse sido preso. 

Em Fevereiro daquele ano, o Steve recebeu uma ligação do detetive Yeomans, dizendo que gostaria que ele fosse até Sydney pra eles trabalharem juntos, já que eles tinham um suspeito.

O Steve anunciou que a recompensa por informações sobre o caso tinha aumentado pra dois milhões de dólares. Além disso, ele começou a dar entrevistas pra mídia, dizendo que agora a polícia só tinha um único suspeito. 

Com isso, o detetive Yeomans criou um plano.

Ele colocou dois policiais disfarçados para se aproximarem do White e combinarem de os três acusarem uma outra pessoa do crime contra o Scott, pra que os três “dividissem a recompensa”.

Só que, pra isso, eles precisavam falar do crime entre si, pra saber como eles iriam culpar essa nova pessoa. Sobre isso, o White respondeu “vamos até North Head que eu vou mostrar como o crime aconteceu…”

Pois é, gente, no fim, foi até fácil extrair essa informação dele. Os policiais não só foram até lá, como gravaram tudo aquilo, com câmeras escondidas. 

Na região do penhasco, o White admitiu que conheceu o Scott em um hotel em Sydney. Eles conversaram e combinaram de caminhar até North Head, pra darem uma volta. 

Ele ainda levou os policiais disfarçados exatamente pro local do crime e contou que ele roubou e agrediu o Scott. Só que, quando fez isso, o Scott perdeu o equilíbrio. Ele ainda falou que tentou segurar ele, mas era tarde demais, e ele já tinha caído pela beira do precipício. 

Depois disso, em Maio de dois mil e vinte, a polícia foi até a casa do Scott Newman White e o prendeu, acusado do homicídio.

O White já tinha quarenta e nove anos e, depois de tanto tempo, ele estava sendo culpabilizado pelo crime que ele cometeu aos dezoito. 

Ele esperou preso até seu julgamento em dois mil e vinte e dois. No julgamento, ele se declarou culpado e foi condenado a doze anos de prisão. O julgamento ainda foi anulado porque a defesa do White disse que ele não estava em plenas condições mentais naquele momento. 

Então, um novo julgamento aconteceu em dois mil e vinte e três.

Nele, o White mais uma vez se declarou culpado e foi condenado a nove anos de prisão. Atualmente ele está preso e só vai ser elegível para liberdade condicional em dois mil e vinte e seis

Na teoria dos policiais, o White provavelmente levou o Scott até aquele local pra roubar e agredir ele. 

Porém, quando as coisas saíram do controle, ele não tentou segurar o Scott pra impedir que ele caísse, e também não admitiu a culpa por mais de trinta anos

Depois da conclusão do caso, o Steve disse "Este é um dia muito emocionante, o Scott era meu melhor amigo e realmente precisava de mim pra esse encerramento”

Ele também disse que lamenta por outras famílias de pessoas LGBT que passaram por situações semelhantes e que espera que a justiça também seja feita, nesses casos.

Roteiro: Mariana Nicastro

Fontes:

NSW Police gave Scott Johnson's homicide a 'zero' solvability rating, inquiry into gay hate crimes told - ABC News

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