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O episódio de hoje é muito importante pra mim, porque assisti ao vivo à apresentação desse caso por Ashley Flowers, uma das primeiras mulheres a falar sobre casos criminais em formato de podcast. Ela fez uma apresentação em NY, e consegui um lugarzinho na plateia para ouvir a triste história de Darlene Hulse. 

É um daqueles casos que envolvem famílias felizes em cidades pequenas, onde todo mundo se conhece e as desavenças são mínimas, e esse é para mim um dos cenários MAIS assustadores porque é, justamente, um dos mais COMUNS.

É terrível pensar que as famílias felizes ou infelizes, em cidades pequenas ou grandes, não importa, NÃO estão à salvo de uma grande tragédia. E o pior: uma daquelas que podem se passar dias, meses, anos, DÉCADAS, e o tempo não traz o conforto da verdade.

Darlene Hulse é vítima de um caso que poderia estar totalmente esquecido, não fosse a curiosidade de Ashley em trazê-lo à tona quase quarenta anos depois de sua morte.

Darlene Hulse e suas filhas

Darlene nasceu em uma pequena cidade do estado de Indiana em quinze de outubro de mil novecentos e cinquenta e cinco e teve uma vida bem normal de  interior. Ela conheceu na igreja um rapaz chamado Ron Hulse. Depois da troca de olhares e das paquerinhas, eles começaram a namorar, e se casaram em junho de mil novecentos e setenta e quatro. 

Ela era uma mulher muito inteligente e chegou a finalizar um curso de quatro anos em tecnologia médica, mas, assim que teve a primeira filha, escolheu ser mãe em tempo integral. Em setenta e oito, o casal se mudou para a cidade de Argos, Indiana, onde toda a história se passa, e lá planejaram criar as três filhas, Marie, a mais velha, Melissa e Kristen. Darlene assumiria o papel de dona de casa, fazendo os trabalhos domésticos e cuidando das meninas, enquanto Ron trabalharia fora, em uma companhia de [lembrar] da cidade.

Darlene era beeeem low profile. Tinha os amigos da igreja, que eram poucos, e socializava apenas com seus familiares e os de Ron, sempre que surgia a oportunidade de estarem todos juntos. Ela gostava dessa vida mais tranquila, sem movimentacao, e vivia em paz com suas escolhas. 

Ron saía para trabalhar todos os dias às cinco da manhã, enquanto Darlene adiantava os afazeres enquanto esperava seu pai trazer algumas bananas para a família por volta de nove da manha, todos os dias. Ele e sua mãe moravam bem perto da casa de Ron e Darlene e não era nenhum sacrifício passar por ali e deixar as frutas, tanto que o pai dela fazia isso de bicicleta. Era uma cidadezinha pacata com uma vida pacata

… até o dia em que a historia daquela cidade mudou…

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Em dezessete de agosto de mil novecentos e oitenta e quatro, Ron saiu para trabalhar, Darlene ficou com as crianças, seu pai passou de bicicleta por volta das nove para deixar algumas frutas e, logo depois dessa visita, Darlene pediu às filhas mais velhas, Marie e Melissa, que fossem tomar banho para que todas elas fossem a uma consulta médica da caçula, Kristen. Nessa época, elas tinham oito e seis anos, respectivamente, e Kristen ainda era uma bebezinha de colo, prestes a completar um ano de idade. 

As meninas fizeram o que foi pedido e, enquanto estavam na banheira, ouviram batidas na porta da casa. A voz de um homem anunciava a Darlene que tinha um pacote para entregar a ela, e do banheiro as meninas ouviram barulhos esquisitos, parecendo uns grunhidos e chiados. 

Marie, a mais velha, se animou toda porque achou que aqueles barulhos só poderiam indicar uma coisa: ELAS TINHAM GANHADO UM CACHORRINHO!

As meninas sabiam que o cachorro da família estava no veterinário, no intuito de que o médico acompanhasse o cruzamento entre ele e uma cadela de mesma raça, afirmando o pedigree, e a conta que Marie rapidamente fez foi essa: pronto, nosso cachorro é pai e nós ganhamos um filhotinho.

Então, assumiu que a voz masculina dizendo do pacote era de seu pai e, tomada por uma alegria contagiante, saiu correndo para a sala para ver o novo membro da família, pelada e descalça, porque, prioridades, né? Primeiro abraçar o filhotinho, depois se preocupar com o resto. 🙂 

Mas, quando chegou na sala, em vez de cachorrinhos, o que Marie viu foi a pior cena que uma criança poderia testemunhar. Sua mãe se debatia no chão e um homem, de joelhos, a atacava violentamente, perto da porta da rua, enquanto ela suplicava para que ele não machucasse suas filhas. Marie congelou de choque e medo enquanto via o homem tentar colar fita adesiva na boca de Darlene e ela lutava pela própria vida, tentando arranhá-lo.

A garotinha correu para o telefone, mas, naquela época, ainda não existia o 9-1-1. Quem é jovem não vai reconhecer essa cena, mas na década de oitenta as casas costumavam ter um telefone de fio em que os números ficavam dispostos em um disco, e as pessoas giravam os números de acordo com o código da casa da outra pessoa, e é por isso que se diz que a gente ia DISCAR o número de fulano para falar com ele.

Só que não tinha agenda de contatos no celular, e ou era uma agenda normal, de papel, ou as pessoas tinham que decorar os números, e Marie, obviamente, não tinha uma agenda de contatos aos oito anos de idade. Pra piorar, ela só se lembrava de dois números de cor, e nenhum deles era o da polícia da cidade. Afinal, para que ela haveria de saber o número da polícia em um lugar tão pacato, tão tranquilo?

Ela, então, discou o primeiro número que lhe veio à mente, de uma tia, mas o sinal só dava ocupado. Enquanto tentava completar a ligação, Marie viu o homem vir pela sala de estar em sua direção, arrastando sua mãe pelos cabelos, que se debatia com força para evitar que ele chegasse perto de sua filha. De onde estava, Darlene gritava:

CORRA! CORRA!

Quando finalmente conseguiu sair do seu estado de medo, ao ver o homem se aproximar cada vez mais dela, Marie fez o que a mãe mandou: começou a correr. Primeiro, para o banheiro, para avisar Melissa que elas tinham que sair dali. Depois, ainda descalça e pelada, começou a correr em direção à casa dos avós, para pedir que eles chamassem a ajuda. 

Enquanto isso, Melissa estava saindo da banheira, tentando encontrar algum sentido naquilo tudo. Ela aguardava um cachorrinho, mas, em vez disso, viu a irmã correndo loucamente e gritando para que ela saísse. A garotinha de seis anos acabou se deparando com aquela mesma cena de um homem machucando sua mãe, mas Darlene conseguiu gritar para que ela também corresse.

Foi o que Melissa também fez.

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Marie e Melissa foram as únicas testemunhas oculares do que aconteceu com Darlene. Elas correram peladas, descalças para a casa da avó, Doris, que era ali bem pertinho. Depois que a avó entendeu o que estava acontecendo, já que Marie não parava de chorar e gritar, ela chamou a polícia. A garota viu, pela janela, o primeiro carro de polícia chegando e passando pela casa da avó, rumo à sua própria. 

Marie e Melissa estavam a salvo, na casa dos avós, mas Kristen, a bebê de colo, ainda estava lá, com sua mãe e o homem estranho que a machucava. Elas passaram minutos terríveis tentando imaginar o que poderia estar acontecendo de volta na casa, quando a polícia chegou até a casa de Doris e avisou que Kristen estava bem, estava a salvo, também, mas que Darlene tinha desaparecido.

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Quando a polícia foi chamada por Doris, o que se sabia, ou se entendia até então, era que tinha um invasor na casa, e que ele poderia ou não estar armado. Mas, quando a primeira viatura chegou ao local, tudo estava quieto, exceto pelo choro de um bebê. Havia uma trilha de sangue na porta da frente e, na sala de estar, exatamente onde Darlene estava, ao atender a porta, tinha uma poça de sangue, onde Kristen estava, usando apenas suas fraldas.

O sangue não era de Kristen. A bebê não tinha nenhum ferimento. Todo aquele sangue, desde a poça até a trilha que saía pela porta e chegava onde, possivelmente, havia um carro estacionado, era de Darlene. Como as meninas disseram ter visto a mãe tentar se defender, arranhando o homem, era provável que algo daquele sangue também fosse do invasor, mas, pela quantidade de sangue que a polícia viu, a pessoa que estava naquela luta, a vítima, estava muito ferida, ou já morta. 

Espalhados pelo chão estavam vários utensílios de lareira que provavelmente foram utilizados nas agressões, por serem de ferro, e todos esses elementos, juntos, mostravam aos policiais que aquele não era um simples caso de invasão ou roubo.

Eles estavam lidando com algo bem pior que isso.

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Ron ficou sabendo, no trabalho, que algo estava acontecendo em sua casa, e ligou para a casa de sua mãe, Doris, que disse a ele que as garotas estavam bem, mas que Darlene não tinha sido encontrada. Quando chegou à casa, viu que realmente, o que aconteceu ali era muito ruim.

Ele chorava e chorava tentando entender o que tinha se passado, mas já prevendo o pior, que era justamente o que as meninas não pareciam entender. Elas achavam que, sim, tinha acontecido algo ruim, mas não conseguiam mensurar a gravidade. Só queriam voltar para casa, vestir roupas e parar de responder às questões daqueles homens estranhos em fardas, mas eles só faziam as perguntas porque elas poderiam ajudar a identificar quem tinha invadido sua casa e levado sua mãe.

Quando descreveram o homem, ambas deram características similares: magro, mas não esquelético, e loiro. Era o que se lembravam, em meio ao choque de vê-lo machucar a mãe e tentar pegá-las, antes que corressem. 

A polícia chegou a perseguir um homem com essa exata descrição, dias depois, mas ele entrou em um milharal e os policiais o perderam de vista. Achavam que tinham chegado perto e que, possivelmente, aquele era o homem que procuravam, mas mal sabiam que a caçada estava apenas começando.

Marie e Melissa se lembraram, também, de ver um carro parado, enquanto corriam para a casa dos avós, que estava exatamente onde a trilha de sangue terminava. Porém, não conseguiram chegar a um consenso sobre a COR do carro. 

Enquanto uma dizia que era azul, a outra jurava que era verde, mas os detalhes gerais sobre o carro também eram similares, e a polícia logo começou a procurar por um carro azul esverdeado, ou verde azulado, e pelo homem com as descrições que foram dadas pelas duas crianças. Elas chegaram a fazer um retrato falado com aquilo que se lembraram e a artista forense conseguiu chegar a um desenho que ambas disseram se parecer muito com o agressor. 

Na cena do crime, a polícia encontrou fios de cabelo, um tênis Nike, que pertencia ao invasor, um botão de camisa que também poderia ser dele e outros elementos que, nos dias de hoje, poderiam levar rapidamente a um suspeito. Mas, em oitenta e quatro, com recursos limitados, era preciso juntar mais peças para apontar um culpado.

Uma coisa que NÃO estava lá era um dos acendedores de lareira, feito de ferro, e era a única coisa faltando na casa inteira. Isso significava duas coisas. A primeira era que a invasão não foi um roubo, pois o ladrão não se daria ao trabalho para levar um pedaço de ferro embora. A segunda, a mais brutal, é que ele também não entrou armado na casa.

Darlene foi vítima de um crime de oportunidade, e seu agressor encontrou dentro de sua própria sala o que seria, potencialmente, a arma do crime. Talvez, por isso, a levou embora, junto com Darlene, deixando todo o resto para trás.

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A cidade de Argos, Indiana, onde Ron, Darlene e as filhas moravam, tinha cerca de mil e quinhentos habitantes na época do crime, e as casas, apesar de próximas, não eram grudadas umas nas outras. 

Marie e Melissa tiveram que andar por uma estradinha cercada por nada além de árvores e mata para chegar à casa dos avós. Então, ouvir algo acontecendo na casa mais próxima não era uma opção, porque a casa mais próxima poderia estar a muitos metros de distância.

Mas, por ser uma região com poucas pessoas, a polícia achou que seria FÁCIL identificar o criminoso rapidamente e encontrar Darlene. Se tivessem sorte e fossem ágeis, ela ainda poderia estar viva. Contudo, o que parecia ser simples não chegou nem perto disso. Algumas pessoas chegaram a mencionar terem visto um vendedor de livros na região, outras até notaram o carro verde ou azul do qual as meninas tinham falado, mas nada além. 

Ron teve um papel importante ao vistoriar a própria casa para ver se tinha algo de valor faltando, pois uma coisa era a polícia ir atrás de alguém que entrou para roubar e acabou encontrando inesperada resistência, com as coisas escalando para a brutalidade, e outra coisa era caçar um louco que invadiu a casa de graça, sem alvo específico, apenas pelo prazer de machucar alguém.

Só que, além do acendedor de lareira e de Darlene, nada mais faltava. Até uma quantia em dinheiro que estava em cima do piano da família continuava lá.

Como combustível para o motor dos pesadelos daquela cidadezinha, a segunda opção se tornava cada vez mais provável. Logo, as pessoas não poderiam mais dormir tranquilas por um longo tempo, imaginando se o monstro que encontrou Darlene viria atrás delas. 

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Um dos primeiros entrevistados pela polícia nesse dia foi Harvey, pai de Ron, que tinha ido deixar as bananas e visto Darlene. Ele conversou com ela por volta de oito e quarenta e cinco da manhã, e as meninas chegaram aos gritos na casa dos avós às nove da manhã.

Ou seja, tudo o que aconteceu a Darlene, aconteceu nesse intervalo de quarenta e cinco minutos. É um espaço de tempo muito pequeno para que alguém faça tanto mal a uma pessoa, o que levou a polícia a acreditar que ele tenha ficado com raiva de Darlene, que ela pode ter feito ou dito algo que o enfureceu. Mas O QUE seria capaz de despertar tamanha ira? E, principalmente, QUEM poderia ferir Darlene daquela forma?

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No dia seguinte, um lenhador encontrou algo estranho na mata, a mais ou menos dez quilômetros de distância da casa da família Hulse. Ele foi chegando perto e viu que se tratava de um corpo, de mulher, e imediatamente chamou a polícia.

Infelizmente, aquele era o corpo de Darlene. Ele estava posicionado atrás de uma árvore e tinha o corpo muito machucado. Sua autópsia diria que ela lutou pela sua vida, porque sua mão tinha ferimentos compatíveis à tentativa de defesa, e morreu pelo trauma de ser atingida repetidamente na cabeça por um objeto pesado e contundente, como um atiçador de fogo, ou acendedor de lareira, aquele que estava faltando na casa, mas a arma não foi encontrada na floresta. Ela não tinha sinais de estupro ou qualquer outro tipo de abuso, tanto em vida quanto na morte. 

A cidade de Argos viu o caso escalar rapidamente, de uma invasão residencial a um homicídio brutal e sem um motivo claro. Geralmente, assassinatos acontecem porque um roubo deu errado, ou alguém queria se vingar de outra pessoa, ou existe alguma rixa entre as partes… mas nada disso se aplicava ao caso de Darlene. 

Ela não tinha inimigos, um passado oculto, pessoas que tenha irritado e, pelo que os policiais já tinham visto da cena, não era um assalto. E tudo o que tinham de pista era o retrato falado feito por Marie e a descrição do carro que ela e sua irmã Melissa viram estacionado na porta de casa. 

Independentemente disso, agora estava claro que a busca era por um assassino à solta. E, uma vez que não havia motivação clara no crime, e já que era um estranho, segundo as crianças, era preciso encontrá-lo IMEDIATAMENTE, antes que ele pudesse matar mais alguém. 

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Quando soube que a mãe tinha sido encontrada morta, Marie se sentiu muito culpada, apesar de ter apenas oito anos de idade. Ela sabia que o pai tinha uma arma e ficou se perguntando por muito tempo porque não foi até o quarto, onde a arma ficava escondida, pegar a arma para proteger a mãe. Ronald, que era um marido fiel e apaixonado, ficou inconsolável com a morte da esposa, e não conseguia acreditar que iria enterrar a esposa de apenas vinte e oito anos.

Pra piorar, a família não tinha sequer dinheiro suficiente para lidar com as despesas do funeral e enterro da jovem mãe.  

A notícia chocou a cidade e foi parar nos maiores jornais de Indiana, ganhando manchetes até ao redor do país. Enquanto Ron se preparava para se despedir da esposa, os repórteres cobriam o caso com cada vez mais riqueza de detalhes, e muitas pessoas começaram a ligar para a polícia achando ter pistas. Isso é bem normal, até, na maioria dos casos ocorre algo assim, mas naquela época duas ligações, em particular, chamaram a atenção das autoridades.

A primeira era de uma testemunha chamada Alex que disse ter visto um carro parado na frente da casa dos Hulse por volta de nove horas da manhã, quando ele passava ali com seu veículo. Ele disse que era um carro verde claro e que, na direção, estava um homem loiro, na casa dos vinte anos, de nariz pontudo e com uma camisa colorida, e era alguém que ele não tinha visto antes nas redondezas. 

De acordo com a linha do tempo, a descrição do carro e do suspeito ao volante, a pista de Alex foi considerada válida, pois batia com a descrição das outras testemunhas, que até então eram Harvey, o pai de Ron, o último a falar com Darlene, Marie e Melissa.

A segunda ligação era de James Garman, que acreditava que um conhecido poderia estar envolvido no caso. Ele fez uma descrição muito específica de um rapaz chamado Daniel Bender, com quem tinha se encontrado pouco tempo antes do ocorrido, e que confessou a ele ser cleptomaníaco e ter sido preso por roubo. 

Assim como quem não quer nada, Daniel contou a James que um casal jovem tinha se mudado para uma casa ao norte de Argos e ouviu dizer que tinham comprado essa casa com dinheiro vivo. Esse casal não confiava em bancos e guardava muita grana na própria casa.

E, olhando em retrospecto, esse casal poderia ser Ron e Darlene, exceto pelo fato de que Ron e Darlene não eram riquíssimos e não tinham comprado a casa. Ron tinha construído aquela casa para a família.

Como esse depoimento tinha sido bem consistente, e durante várias entrevistas James falou exatamente a mesma coisa, o que demonstra que seu testemunho era legítimo, a polícia investigou Daniel Bender e viu que ele tinha ficha criminal e foi preso por um sequestro cometido no estado do Texas e liberado pouco tempo antes do assassinato de Darlene.

E, para completar, Daniel era magro, mas não esquelético, estava na casa dos vinte anos, era loiro e tinha o nariz pontudo. A descrição batia tanto com o retrato falado quanto com o depoimento de Alex, a possível terceira testemunha ocular dos fatos. 

Só que Daniel não estava em Argos e, quando foi questionado pela polícia, disse que não estava mais na cidade desde antes do crime. Ele dizia ter um álibi, um amigo com quem estava viajando na época do assassinato. Daniel concordou em voltar para Indiana e fazer o teste de polígrafo, em que negou ter falado com James sobre os assuntos que James contou à polícia e afirmou que não cometeu nenhum crime ou invasão desde que saiu da prisão no Texas.

Daniel também disse não conhecer Darlene, embora o sobrenome, Hulse, fosse familiar a ele, mas nunca tinha tido nenhum contato com ela, não sabia quem poderia tê-la matado ou porquê, e, em uma das perguntas do teste, sobre se estava tentando proteger alguém ou esconder informações sobre o caso, ele respondeu que NÃO.

A análise do polígrafo chegou à polícia com o seguinte: o profissional responsável por conduzir o teste acreditava que Daniel não estava falando toda a verdade. Então, ele foi questionado na delegacia por várias vezes, durante vários dias, e começou a ser inconsistente em algumas das respostas anteriores. Disse, por exemplo, não saber se já tinha falado sobre roubar a casa das vítimas, e que poderia ter dito algo em algum momento, mas não se lembrava, e chegou a dizer, em um dos interrogatórios, que preferia passar trinta anos na prisão a dedurar alguém.

As coisas começaram a ficar cada vez mais nebulosas para os policiais, que mantiveram Daniel Bender sob custódia, mesmo quando Marie e Melissa disseram não reconhecê-lo como o homem que tinha agredido e matado Darlene. Acreditando que o trauma pudesse levá-las a cometer um engano, e o medo de que o criminoso voltasse por elas a levassem a dizer que aquele não era ele, a polícia continuou mantendo Daniel preso até ter mais informações sobre o caso.

Enquanto isso, novas pistas surgiam, principalmente a respeito da descrição do homem, e levaram a polícia a um segundo suspeito: Robert Zebrowski, um nômade que estava em Argos no dia dezessete de agosto, mas saiu para viajar com uma equipe de Carnival, que é uma espécie de parque de diversões. 

Chamado a depor, ele concordou em fazer o teste de polígrafo, em que disse que não conhecia a vítima, não matou ninguém, sabia que era um suspeito no caso de assassinato porque sua descrição batia com as pistas dadas à polícia, mas que, ao contrário do que as matérias diziam, ele não tinha e nunca teve um cavanhaque.

Só que essa informação foi bem aleatória, porque absolutamente NINGUÉM publicou nada ou deu nenhum depoimento a respeito de o suspeito ter um cavanhaque. 

A conclusão do teste de polígrafo de Richard foi a mesma de Daniel: o especialista não acreditava que ele tinha dito toda a verdade. 

Hoje a gente sabe que o teste de polígrafo não serve para muita coisa, já que não é uma ciência exata, mas, na época, falhar no teste era algo que fazia de um suspeito ainda mais suspeito. Só que, ao contrário de Daniel, Richard não tinha ficha criminal, não tinha dito coisas inconsistentes no depoimento e não havia nada forte o suficiente para que a polícia o mantivesse sob custódia também.

Tiraram as impressões digitais dele, para o caso de precisarem delas, e liberaram Zebrowski, o segundo suspeito de matar Darlene Hulse.

O caso ficava mais complicado de ser resolvido a cada dia que passava, ainda que detetives de Indiana e dos estados do Alabama e do Colorado estivessem envolvidos nas investigações. Os dois primeiros suspeitos não tinham dado em lugar nenhum e, em uma cidade tão pequena quanto Argos, eles pareciam estar procurando agulha em um palheiro. Não era ninguém que a cidade conhecia, o que indicava que podia ser qualquer pessoa, que agora estava em qualquer outra parte do país.

Isso frustrava os moradores de Argos e, em especial, a família Hulse, que voltou a morar na casa onde Darlene foi agredida e levada, e para onde só entraria novamente como uma lembrança amorosa, até que, em outubro, dois meses após o crime, um terceiro suspeito seria investigado.

Ricky Mock era loiro, tinha o nariz pontudo, era magro, mas não esquelético, tinha um carro verde azulado, ou azul esverdeado, como o que Marie e Melissa viram, e a polícia encontrou em sua casa vários recortes de jornais sobre a morte de Darlene e uma camisa colorida que estava manchada, e parecia ser sangue. 

Poderia ser esse o homem que a polícia de Indiana tanto buscava, o monstro da vida real que matou brutalmente Darlene Hulse? 

Só tem um pequeno detalhe…

… quando se tornou o principal suspeito do caso, Ricky Mock já estava morto.

Ricky entrou em uma loja de conveniência em Amarillo, no Texas, anunciou o assalto e, na mira de sua arma, rendeu a mulher que estava no caixa. Quando ele saiu, ela chamou a polícia, que seguiu o carro que batia com a descrição do dele.

Quando notou que estava sendo perseguido, Ricky atirou contra a viatura, mas errou. Para se defender, o policial da viatura atirou contra Ricky e acertou no alvo. Ele morreu no local e, no carro, não só o dinheiro do assalto à loja de conveniência foi encontrado, mas diversos outros elementos de assaltos anteriores.

Buscando conexões com outros crimes similares, a polícia foi até a casa dele, no estado de Indiana, e encontrou os recortes de jornal e as roupas que podiam estar manchadas de sangue. Só que esses policiais eram da divisão de assaltos, então, chamaram o detetive a cargo da investigação de Argos, David Yoquelet, para verificar essas evidências encontradas na casa de Ricky.

Para sua surpresa, Ricky era até bem conhecido na cidade de Argos, pois morava perto, no condado de Logansport, e até tinha alguns amigos em comum com Daniel Bender. 

Embora algumas pessoas entrevistadas após a morte dele dissessem que ele seria capaz de matar, a depender da motivação, a grande maioria dizia que não, que o negócio de Ricky era roubo e apenas isso. Talvez por conta da sua fama, que nunca passou da de um reles assaltante, nenhuma conexão foi feita entre o suspeito e o crime na época em que Darlene foi morta. David chegou a levar uma fotografia de Ricky para que Marie e Melissa o reconhecessem mas, de novo, elas não afirmaram que aquele era o homem que tinha espancado sua mãe.

Um dos depoimentos foi dado por um dos melhores amigos de Ricky, que disse coisas surpreendentes. Ele falou, por exemplo, que Ricky mantinha os recortes de jornal porque era ele o homem que entrou no milharal fugindo da polícia, nos arredores de Argos, mas que não era porque tinha algo a ver com o assassinato de Darlene, mas sim porque ele tinha um longo histórico de roubos, viu a polícia o perseguindo, achou que era por causa disso e entrou no milharal para despistá-los e fugir.

Também contou que Ricky sofreu um acidente de moto meses antes da morte de Darlene e que ficou com sequelas que impediram que ele pudesse carregar um corpo ou sequer arrastar uma mulher pelos cabelos. Apesar disso, Ricky tinha acesso a um carro da cor do descrito pelas filhas de Darlene, e isso poderia ser uma pista e tanto, não fosse um telefonema, dado de sua casa, Logansport, às dez da manhã do dia dezessete de agosto de oitenta e quatro, que não batia com a linha do tempo que a polícia tinha feito a partir dos depoimentos de Harvey, Marie e Melissa.

Logansport fica a quarenta minutos de Argos, e ele não teria tempo hábil de ir até a casa, não ser visto por Harvey às oito e quarenta e cinco, ser visto por Alex, a testemunha, por volta de nove, espancar e levar Darlene antes das nove e meia, quando as meninas chegam na casa dos avós, estar em casa às dez, fazer uma ligação trivial e seguir com a vida.

Ainda que a linha do tempo estivesse equivocada em quinze ou vinte minutos, ainda assim seria um espaço de tempo bem apertado para que Ricky conseguisse fugir sem deixar rastros. 

Uma amostra de seu cabelo foi enviado aos detetives para ser comparado com os fios encontrados na cena do crime e não era compatível. A análise das manchas na camisa de Ricky voltaram como positivo para sangue, mas negativo para o sangue de Darlene. E uma mulher que alegava estar saindo com Ricky naquela época disse que passou a noite de dezessete de agosto com ele, esqueceu remédios prescritos no nome dela na casa dele e foi mais um álibi póstumo que Ricky "ganhou", entre aspas, para se livrar dessa suspeição de assassinato.

Quando falamos em assassinatos de mulheres casadas sempre tem um ponto que povoa o nosso imaginário, como acontece com os filmes que assistimos: o marido é sempre o culpado.

É por isso que não vamos deixar de falar sobre Ron, porque sei que, a essa altura, muita gente já se perguntou sobre essa possibilidade.

Antes de qualquer coisa, Ron nunca foi um suspeito para a polícia, nunca chegaram a pedir seu álibi, porque ele estava no trabalho e, além disso, as filhas viram o agressor e reconheceram um homem que não se assemelhava em nada com o pai.

Porém, é certo que Ron seria um alvo fácil na comunidade e dos tablóides. Por causa disso, a Polícia o chamou para fazer o teste do polígrafo em outubro de 1984, dois meses depois do assassinato de Darlene.

Quando fizeram a análise do depoimento dele, segundo o especialista, Ron contou substancialmente a verdade, então ele passou no teste do polígrafo.

Tudo isso era para tirar também, a carga de culpa que algumas pessoas jogavam sobre Ron. Ok, ele pode não ter matado Darlene, mas quem sabe contratou alguém para isso?

As fofocas ganharam mais força quando saiu uma matéria do jornal local em que Ron deu alguns relatos sobre o crime: abre aspas Eu só sei que é a vontade Dele. Darlene estava pronta. Eu estou pronto seja lá quando Ele quiser me levar. fecha aspas.

Nessa mesma reportagem, Ron destacou como o crime foi algo horrendo e que ele não sabia porque algo assim ocorreu com sua esposa. Mas, ao mesmo tempo, ele dizia que abre aspas Eu não entendo, mas eu aceito. fecha aspas.

A ideia dessa aceitação e das falas de Ron só jogaram lenha na fogueira para alguns, mas não é difícil entender o lado dele. O homem acabara de perder a esposa de modo terrível, estava enfrentando o luto e a fé era o seu guia, toda família era extremamente religiosa. Ter a visão de que o controle estava com Deus pode ser reconfortante para ele.

Além disso, é preciso ter bom senso, o que aconteceu com Darlene foi qualquer coisa, menos um trabalho de um profissional. Começamos lembrando o fato de que o agressor não estava armado, não era organizado, usou uma ferramenta que encontrou no local, o atiçador da lareira.

Então, que fique claro, não existe nenhuma coincidência ou qualquer evidência que aponte para Ron neste caso.

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A essa altura a investigação já seguia com atos quase desesperados da força policial, que batiam literalmente de porta em porta procurando por qualquer migalha, qualquer coisa fora do comum que pudesse trazer novas ideias e rumos para o caso.

E, apesar de parecer uma coisa que não vai dar resultados, pequenas coincidências foram aparecendo: uma mulher percebeu que um carro branco costumava ficar parado na porta da sua casa com frequência, sempre à noite. Porém, ela não o via desde o assassinato de Darlene.

Em outra casa, outro relato: uma família contou que sua filha de dezoito anos estava recebendo ligações estranhas de um homem, que perguntava se o pai dela estava em casa, quantos anos ela tinha, se ela estava sozinha.

Uma outra mulher da região também alegou que recebeu ligações estranhas, falando sacanagens, ou apenas com sons de respiração, tudo no último ano.

E as ligações estranhas não aconteceram apenas no período anterior à morte de Darlene: uma mulher recebeu ligações falando sacanagens também, 3 ou 4 vezes depois do assassinato. Essa mesma mulher contou a polícia que recebeu a visita de um homem que alegava ser um padre, mas que na companhia dele estavam várias garotas.

Tudo isso parecia promissor, ao mesmo tempo que não era. Não se tinha certeza da conexão entre esses crimes e a morte de Darlene, então, a polícia resolveu que um olhar mais amplo seria necessário. Voltar mais no tempo, observar os comportamentos de outros crimes, menores, como roubo e invasões.

E aqui algo saltou aos olhos da polícia: uma tentativa d agressão sexual, com invasão domiciliar. Mas a principal coincidência era essa: a casa da vítima fica apenas a algumas milhas do local em que o corpo de Darlene foi encontrado.

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Era manhã de dezembro de 1982 e o telefone tocou na casa de Penn (que é um nome fictício, que usamos para preservar a identidade da vítima).

Era muito cedo, então a chamada despertou Penn, que ouviu um homem perguntar se seu marido estava em casa. Ela logo disse que não, que ele havia saído para trabalhar e que voltaria apenas à noite.

O homem do outro lado da linha desligou e Penn logo voltou a dormir, mas não seria por muito tempo.

Cerca de meia hora depois ela foi despertada por um barulho alto vindo do andar debaixo da sua casa, e o cachorro começou a latir.

Penn sequer teve tempo de sair do quarto e viu uma figura grande de um homem percorrendo o corredor em direção à ela. Como ela mesma relata, o choque e o pavor tomaram conta e o que ela fez foi recuar.

Como o quarto não era grande, em poucos passos ela estava novamente ao lado da cama, o homem, então, a agarrou e deitou sobre ela na cama.

Penn gritava a essa altura e ele mandou que ela se calasse ou que ele iria furá-la. Mas Penn se deu conta que ele usava as duas mãos para manter seus braços presos à cama e que por isso era impossível que tivesse uma faca ou algo assim.

Foi então que ela começou a lutar e conseguiu se soltar. Quando o agressor percebeu, ele fugiu. Mas Penn não iria apenas deixá-lo fugir. Ela pegou o copo que estava na cômoda ao lado da cama e correu atrás dele e, por pouco, o copo não o acertou quando ela o atirou pela porta de casa.

Enquanto ele fugia pela porta da frente, o agressor machucou a mão na porta e Penn correu para conseguir ver o carro que ele estava fugindo. Ela diz ser de um tipo que não conhecia, era uma caminhonete com um camper acoplado na parte traseira.

Mas o caso de Penn ainda levaria muito tempo até ser desvendado e essa conexão que pode parecer existir com o assassinato de Darlene ainda é um monte de coincidências, e crimes não se resolvem com base nelas.

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O tempo passou e a verdade é que essas coincidências não levaram a polícia a lugar algum. Foram pesquisados outros crimes violentos na região, para checar se haviam outras conexões possíveis, mas nada parecia realmente acender aquela luz de que havia algo a ser encontrado.

Entre a rotina de uma delegacia, crimes que não param de acontecer, o caso de Darlene esfriou. Levaria ainda dois anos para que seu nome fosse lembrado pela polícia, graças ao  nome que iria sobrepujar até mesmo a memória do crime violento de Darlene: Brandie Peltz.

Em onze de dezembro de mil novecentos e oitenta e seis, Brandie Peltz, uma menina de onze anos, foi agredida sexualmente e estrangulada em sua própria casa.

Tudo isso a apenas uma milha e meia de distância da casa de Darlene Hulse. Era hora da polícia desenterrar mais algumas histórias.

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Brandie Peltz estudava na mesma escola e estava no mesmo ano que a filha mais velha de Darlene, Marie. No dia onze de dezembro de mil novecentos e oitenta e seis, ela não se sentiu bem para ir à escola e, como já tinha idade para ficar em casa sozinha, seus pais foram trabalhar.

Na hora do almoço, Roxy, a mãe de Brandie, foi em casa ver como a filha estava e levou o almoço, e, percebendo que estava tudo bem, retornou ao trabalho.

Pouco tempo depois que Roxy estava no trabalho, Brandie ligou para ela e relatou que recebeu mais uma das ligações estranhas de um momento que respirava pesado do outro lado da linha.

Você se lembra das ligações estranhas que várias mulheres vinham recebendo, certo?

Mas não se engane, as coincidências não param por aqui. O fato deixou Brandie preocupada, mas conversar com a mãe a acalmou.

Roxy estava preocupada com essas ligações, já que não era a primeira vez que acontecia. Ela chegou a notificar a companhia telefônica, mas não a polícia.

Mãe e filha se despediram ao telefone e Roxy disse que veria Brandie depois do expediente, em casa. Infelizmente, ela não sabia que essa seria a última vez que ouviria a voz de sua filha.

Foi por volta das três da tarde que um professor voltava para casa e viu uma fumaça vindo da direção da casa dos Peltz. Ele foi até a casa mais próxima e fizeram uma ligação para os bombeiros. Em seguida, ele foi até a casa dos Peltz.

Com o cachorro latindo do lado de fora, o professor entrou na casa e começou a chamar, para ver se tinha alguém lá, precisando de ajuda. Enquanto ele ia nos cômodos do andar debaixo, ao chegar no banheiro, viu o corpo de Brandie na banheira, que estava cheia de água.

Quando a cena do crime foi investigada, a polícia notou que o telefone da cozinha havia sido arrancado da parede, então deduziram que, em algum momento, Brandie tentou pedir ajuda.

A autópsia revelou que Brandie foi agredida sexualmente e estrangulada, seu corpo foi colocado na banheira quando ela já estava morta. Esse ato, assim como o incêndio na casa, não passavam de tentativas de encobrir as evidências.

Um crime que chocou a comunidade local e muito para além daquelas fronteiras. A notícia estava em todo canto e, com isso, o nome de Darlene também era esquecido.

A polícia, a essa altura, sabia que, sozinha, seria difícil conseguir avançar com a presteza necessária, e é por isso que o FBI foi acionado.

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Esses três crimes violentos, ocorridos de dois em dois anos, na mesma região do extremo sul de Indiana, estabeleceram um padrão difícil de ignorar. Talvez, como destacou o xerife da época, não passasse de coincidências, mas, ao mesmo tempo, e se tivesse algo a mais a ser descoberto?

Dois desses crimes violentos envolviam homicídio: o de Darlene e, agora, o de Brandie. O terceiro, que teve pouca repercussão, era o de Penn.

Era mais fácil conectar o caso de Penn ao de Brandie, já que ambas receberam ligações antes de serem atacadas. Ao mesmo tempo, o caso de Penn se assemelhava ao de Darlene pela localização em que o corpo fora deixado.

Com esses fios amarrados numa trama que ainda parece muito difícil de decifrar, as investigações seguiram.

Mas aqui entra o choque, foi apenas em dezembro de mil novecentos e oitenta e sete que a polícia resolveu pedir os registros telefônicos Penn. Você não entendeu errado: cinco anos e duas mortes violentas foram necessários para que a polícia fizesse o caminho mais óbvio na investigação do crime contra Penn, que permanecia em aberto.

A companhia telefônica entregou os registros com prontidão e eles iam de agosto de mil novecentos e oitenta e dois até janeiro de mil novecentos e oitenta e três.

O período foi além da data do crime porque, além da ligação do dia da agressão, Penn já vinha recebendo ligações estranhas de um homem que se deixava ouvir apenas a respiração ou falando coisas de cunho sexual para ela.

Como se isso não bastasse, ele ainda ligou depois de tentar estuprá-la, e se identificou como o homem que havia entrado na casa de Penn.

Então, por que agora a polícia tomou providências? Quando se pergunta aos envolvidos porque nada havia sido feito, a resposta mais comum é de que sim, ele invadiu a casa, mas nada aconteceu.

O absurdo aqui traz raiva demais para a gente! Como assim nada aconteceu? Ele tentou violentá-la, ameaçou e quase conseguiu tudo que queria. Se não fosse a valentia de Penn, será que ela estaria viva ou seria a primeira vítima fatal? E além disso, se o culpado do crime de Penn tivesse sido encontrado, será que os outros dois crimes, de Darlene e Brandie, teriam acontecido? É impossível não pensar nessas questões.

O caso de Penn ficou cinco anos sem ter solução simplesmente porque achavam que o caso era de pouca importância. E temos essa certeza porque tão logo os registros foram recebidos e analisados, a polícia descobriu que as ligações apontavam para um único homem: Kenneth McCune Junior.

E você ainda vai ouvir muito sobre ele por aqui!

O registro de ligações mostrou que os números os quais ligaram para a casa de Penn estavam todos relacionados a Kenneth McCune Junior: algumas foram feitas diretamente da casa dele e, a ligação feita logo antes do ataque, veio do bar do pai de Kenneth, e onde ele também trabalhava.

Apesar da polícia ter certa ciência da existência de Kenneth, ele estava longe de ter passagens que o fizessem ser facilmente lembrados por ele como, por exemplo, com Rick Mock e Daniel Benden.

Porém, Kenneth era conhecido por ser um serial flasher, que é alguém que faz exposição obscena do seu corpo e genitálias em público. Ele já havia feito isso diversas vezes e fora denunciado por várias mulheres, sendo que uma delas chegou até mesmo a fazer a identificação dele para a polícia.

Então, é aquela velha história, ele não era lembrado porque não convinha à polícia lembrar de casos tão insignificantes na escala deles mesmos.

Kenneth também era um homem que morava na região, estudou na mesma escola que a irmã de Penn e que não ficava distante da casa dela. Sim, a mesma casa na qual ela foi atacada e o corpo de Darlene foi encontrado não muito distante.

Kenneth também já havia trabalhado como motorista de ônibus, numa loja de carros usados e como fazendeiro, na fazenda de seu tio, que é, inclusive, um terreno bem próximo à região em que o corpo de Darlene foi encontrado.

Mais um detalhe que parece ter passado batido pela polícia acaba vindo à tona ao procurar mais sobre Kenneth: sua irmã afirmou no seu depoimento que viu a caminhonete do irmão estacionada em frente à casa de Penn na manhã do crime. Mas, no mesmo testemunho ela mesma diz que era uma caminhonete igual à do irmão, que não significava que era a dele.

Agora, se lembra do relato de Penn? Ela disse que era uma caminhonete com uma camper atrás, o que significa que não é um carro tão comum assim e difícil de confundir se é um veículo que você já conhece, não?

Ou seja, isso também nos traz o fato de que o nome de Kenneth já estava nos relatórios policiais do caso de Penn e que mesmo assim ninguém investigou, cavou, aprofundou e fez o básico para resolver o crime.

Por causa de todas essas coincidências que haviam sido desenterradas em reavivar o caso de Penn, a polícia queria agora cavar mais fundo e o delegado contou ao FBI um relato sobre os três casos e suas suspeitas. Em outras palavras, ele estava pedindo ajuda, o que eles conseguiriam descobrir, fora feito até então.

A resposta do FBI não tardou e veio com o fato de que o único crime que tinham ciência era o de Darlene, para o qual agora tinham um perfil traçado. Um perfil que fala muito por si só e traz mais pistas sobre o caso:

O perfil indicava que o indivíduo era um homem branco, na faixa de idade entre 20 e poucos e trinta anos. Falava que a tendência é a de colocar o corpo em um lugar que fosse familiar para ele, o que indica que o agressor visitou, trabalhou ou viveu na região.

O perfil também indicava que ele não deve ter mais do que a formação escolar e que teve um desempenho ruim, mediado, com uma ficha repleta de comportamentos disruptivos.

O indivíduo também tem uma personalidade considerada inadequada, sem habilidades pessoais e tem dificuldades em relação às mulheres, se sentindo inseguro na companhia delas.

Seus relacionamentos com mulheres seriam marcados por conflitos e até mesmo por violência física. A escolha dele por companhias femininas seriam sempre de mulheres consideradas mais novas do que ele, e que ele estaria apto a dominar.

O perfil também indicava que ele vive sozinho, ou com um membro familiar que seja insignificante para ele. Seria facilmente descrito pelas pessoas como alguém solitário e sem um círculo de amigos próximos, e também é possível que haja o vício em drogas e ou álcool.

A brutalidade da cena do crime demonstra raiva, que vieram de experiências anteriores com uma figura feminina de posição de poder na sua vida, de pressão no trabalho, diante da morte e alguém próximo, etc.

A única coisa que o indivíduo levou para a cena foi uma fita adesiva, mas nada além disso demonstra organização ou sofisticação no crime. Além disso, provavelmente já teria passagem pela polícia, por crimes desse tipo, talvez de cunho sexual ou por abuso de drogas e álcool.

Caso tenha um trabalho, ele seria de poucas ou baixas habilidades, além de ser marcante sua inabilidade de trabalhar com outras pessoas. E, se por acaso ele possui um veículo, isso ajuda a demonstrar o papel que tem na comunidade.

Após a morte, ele teria se limpado, mas não descartaria as roupas sujas de sangue. Seu comportamento nos dias seguintes seguiria a ideia de tentar criar um álibi, e também, caso trabalhe, uma desculpa para a ausência do trabalho no dia do crime e na data seguinte.

Sua aparência física estaria em declínio, abusaria ainda mais de drogas ou álcool e quem estava mais próximo dele poderia dizer que sua ansiedade aumentou.

Se por acaso for interrogado pela polícia, tentaria ser cooperativo, porém, diria que não saberia nada sobre o crime. Ao mesmo tempo, ele se manteria ciente das investigações pelas informações da mídia, mas se recusando a falar sobre o crime com qualquer outra pessoa.

Depois de ouvir o perfil do FBI, um único nome se destaca na nossa mente: Kenneth McCune Junior.

Várias das questões, ou quase todas elas, batem com as características de Kenneth, mas um ponto foge do padrão: Kenneth era casado e tinha filhas.

Um dos problemas aqui é que não se tem notícias de Kenneth sequer ter sido visto pela polícia como um potencial suspeito para o assassinato de Darlene.

No julgamento dos crimes contra Penn, fora tocado um trecho do interrogatório de Kenneth, em que perguntava se ele conhecia Darlene e se sabia onde ela vivia.

O máximo que se tem de resposta é que ele sabia onde era, porque passara por lá uma vez quando estava com seu pai, mas que era apenas isso, que não a reconheceria se passasse por ela na rua.

E novamente, tudo o que se tem sobre o caso de Darlene é um monte de coincidências que pode ou não se provar. Muito longe de poder acusar Kenneth do homicídio.

Em novembro de mil novecentos e oitenta e sete, Kenneth foi acusado por “indecência pública”, pelo crime no qual havia sido reconhecido há tempos atrás. Um mês depois disso, ele foi preso pela invasão domiciliar e a tentativa de estupro ocorrida em mil novecentos e oitenta e dois, contra Penn.

De cara, a reação de Kenneth foi negar o crime, mas logo depois ele percebeu que  a polícia tinha provas consistentes contra ele, que eram as ligações telefônicas e a compatibilidade do sangue encontrado na porta da casa de Penn com o dele, e então Kenneth confessou.

Kenneth ficou preso apenas até mil novecentos e noventa e um, quando saiu em liberdade, voltou a viver com a família, sua esposa, criar suas filhas e passou a fazer serviços comunitários.

Até aqui, não existem registros de que Kenneth foi associado, de alguma forma, ao assassinato de Brandie. E, de mil novecentos e oitenta e sete para frente, o nome de Darlene foi cada vez mais esquecido.

Foi a vez então da filha mais nova de Darlene, Kristin, começar a fazer perguntas sobre o crime que apenas suas irmãs testemunharam.

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Kristin conta que tinha uns sete ou oito anos quando começou a perguntar sobre o que realmente havia acontecido com sua mãe. Mas a verdade é que suas irmãs, apesar da lembrança do crime, não tinham muitas respostas.

Foi nessa época que Kristin soube que, quando crescesse, ela precisaria investigar, ela teria que buscar as respostas que ninguém sabia onde estavam, mas que, em algum lugar, poderiam trazer justiça à sua família.

Cinco anos depois da morte de Darlene, Ron se mudou com sua família, a nova esposa e um bebê mais novo, para outro estado.

As filhas de Darlene contam que a mudança não era muito bem-vista, que, apesar da mudança ser por causa do melhor emprego que o pai conseguira, a sensação de abandonar e deixar toda a família e todos que conheciam ainda era ruim.

Mesmo assim, a mudança não deixou de ser um recomeço para a família, e levaria ainda muitos anos para que Kristin conseguisse levar adiante seus planos de investigar a morte de sua mãe.

Foi em dois mil e dezesseis que Kristin conseguiu começar a cavar e procurar por mais informações acerca do caso de Darlene.

A notícia não era animadora: nos últimos mais de trinta anos, nada aconteceu, nenhuma novidade no caso e nada fora feito para dar andamento à investigação.

Nessa época, Kristin começou a buscar em todos os setores possíveis e descobriu que o caso de sua mãe estava sob a guarda do promotor Nelson Chipman.

Depois de tentativas de falar com ele, eles acabaram se desentendendo, porque a verdade é que o caso de Darlene se tornou para muitos, só mais uma pasta que pega pó na prateleira.

Marie, a filha mais velha, chegou a conversar com o promotor pelo telefone e pediu que ele fosse mais gentil com a irmã, porque aquele poderia ser apenas o trabalho dele, mas para elas, era sobre a família e sobre a própria vida.

O promotor designou um de seus funcionários para manter o contato com Kristin, mas no fim, o contato passou a ser cada vez mais escasso e, claro, sem novidades.

Tudo isso até que em dois mil e dezenove, o promotor teve uma fala na mídia de que agora seria possível usar a tecnologia atual de DNA para solucionar casos antigos e que o caso de Darlene tinha tudo para ser desvendado.

Dias de espera viraram semanas, semanas viraram meses que viraram anos. Kristin e sua família permaneceram sem mais respostas.

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Foi em fevereiro de dois mil e vinte e um, que Ashley Flowers viu uma notícia que falava sobre o caso de Darlene. Curiosa com o desfecho, ela começou a procurar mais sobre a história, mas a verdade é que, quanto mais ela procurava, mais ela percebia que não havia nada a ser encontrado.

Mas foi assim que ela acabou encontrando o perfil de Kristin no Facebook e resolveu lhe enviar uma mensagem e elas resolveram se falar pelo telefone.

Kristin então contou tudo que ela vinha fazendo desde dois mil e dezesseis, que não se tratava apenas de pressionar o escritório do promotor Chipman, mas também fazer algumas buscas por conta própria.

Ela chegou a criar alguns mapas, que conectam eventos da época, conversar com várias pessoas, mas, no momento, a verdade era essa: ela estava empacada.

O principal passo que tanto Ashley, quanto Kristin sabiam que precisava acontecer era o que vinha sendo esperado já desde dois mil e dezenove: o teste de DNA.

Só que dois anos depois do anúncio do promotor, nada havia sido esclarecido ou revelado, a ninguém.

Quando chegou o ano de dois e vinte e dois, Ashley designou uma das repórteres da sua equipe para trabalhar com dedicação exclusiva no caso de Darlene.

Emily então começou a cavar ainda mais fundo que elas haviam ido até então, como boa jornalista, ela sabe que é sempre necessário chegar à fonte.

A fonte, no caso de Darlene, sempre terminava em uma pessoa: o promotor Nelson Chipman.

Depois de inúmeras tentativas de contato telefônico, Nelson finalmente retorna uma das ligações de Emily, que pede por uma entrevista. A resposta dele foi simples e grossa, por que ele faria algo assim? Quando se trata de casos antigos como esse, falar sobre evidências não traria nada além de desconforto.

Mas Emily não se daria por vencida, ela disse que o podcast traria mais visibilidade ao caso e seria a chance de trazer novas evidências e destaque para o caso. Nisso, ele perguntou, abre aspas, quem vai ouvir seu podcast? fecha aspas.

Todas as barreiras de Nelson estavam armadas, mas, ao fim da conversa, Emily pergunta se poderia passar lá para conversar com ele qualquer dia desses. A resposta foi uma surpresa até para ela: ele concordou!

Em setembro de dois mil e vinte dois, Emily então viajou até Indiana para conversar com o promotor Nelson, o ponto principal que ela tinha como partida era o fato de que o teste de DNA, que chegou a ser anunciado, nunca teve os resultados divulgados. Ele chegou a ser feito? E se foi, qual o resultado?

O promotor Nelson se mostrou um pouco reservado no começo, mas menos ofensivo do que na ligação que teve com Emily.

Sobre a prova do DNA, ele disse que depois que conversou com Kristin, ele realmente fez o encaminhamento para que o exame fosse feito, porém, eles não levaram a pista ou resultado algum. A única certeza era de que se tratava de um homem, mas desconhecido.

Quando questionado sobre o DNA ter sido cruzado com suspeitos da época, ele afirmou que não poderia dar essa informação.

Durante a conversa, o Promotor não trouxe novidades significativas, o que ele disse foi mais ou menos a teoria do próprio delegado da época, que imaginava um agressor que fosse local.

A novidade veio mesmo quando Nelson acompanhou Emily até o local em que existe a casa em que Darlene morava: ali, ele contou sua verdadeira teoria para o crime e abriu portas para o que estava por vir.

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Segundo Nelson, o agressor entrou na casa já com a intenção de violentar sexualmente Darlene, só que as coisas saíram do controle dele, ficaram violentas e ele entrou em pânico.

Por isso, quando as crianças o viram, ele fugiu e colocou Darlene, que já devia estar desacordada, no carro. Saindo então de lá, ele dirigiu para o leste, deixando a autoestrada que ele pegara para chegar lá, porque é bem mais movimentada.

A estrada que segue para o leste era arborizada de ambos os lados, como um túnel de árvores e vai para uma região que não existem casas. Nesse ponto, Nelson deixa bem claro que seria o mais lógico a ser feito, que é o que ele faria, e que, se o agressor fosse local, ou melhor, ele tem certeza de que era um local, saberia que era o melhor caminho para a fuga.

Ao mesmo tempo, ele acha que esse trajeto também já fazia parte dos planos do assassino, que já sabia para onde levaria Darlene depois que a pegasse em casa.

Quando questionado por Emily sobre o fato de um lenhador ter encontrado o corpo de Darlene na mata, ele acha que foi apenas coincidência, ou algo mais como uma abre aspas intervenção divina fecha aspas.

O tour que passou pela casa em que Darlene viveu e o local em que seu corpo fora deixado parecia ter chegado ao fim, até que o promotor resolveu que mais um lugar valia a visita.

Nelson levou Emily até um terreno que fica na mesma região e que pertence a uma mesma família há muitas gerações e que costumava ser um terreno em que enterravam carros. Ele conta que ainda há um ônibus enterrado lá e que ele acha a coisa toda muito sinistra.

E agora eu tenho certeza que você está se perguntando e o que isso tem a ver com o caso de Darlene?

Nenhuma menção a esse terreno estava em nada do que foi encontrado até agora nos registros que se tem acesso do caso de Darlene. O detalhe é que, na época do assassinato de Briane Pultz, o terreno chegou a ser vasculhado pela polícia, mas nada foi encontrado.

É claro que, quais foram as exatas motivações que levaram a polícia até ali não foram reveladas por Nelson, mas ao mesmo tempo, ele não parava de falar de um tal triângulo geográfico.

Esse triângulo geográfico ao qual ele se refere é formado por três pontos pilares no mapa: a casa de Delarme para a casa de Brandie, para a propriedade do ônibus enterrado e volta para a casa de Darlene. No mapa, assinalados eles formam um pequeno triângulo.

Nelson faz questão de dizer que, até onde ele sabe, o terreno não tem ligação com o caso de Darlene.

Mas aqui fica o questionamento: por que falar desse terreno se ele não tem relação com o caso de Darlene quando ele sabe que esse é exatamente o motivo para Emily estar lá?

Continuando sua teoria, Nelson termina dizendo que acredita que o assassinato de Darlene não foi o único cometido pelo assassino, que ele cometeu outros crimes, outros ataques, coisas desviadas, como ele dá nome, de exposição, e que acabou sendo preso por uma ou outra coisa. E que, mesmo que o sistema não o tenha reabilitado, ele aprendeu a se controlar e viver na comunidade.

Essa teoria dele soa demais com uma história e um nome que já conhecemos bem: Kenneth McCune Junior.

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Um dos problemas que ainda permanecem a essa altura é que sequer sabemos se Kenneth McCune é uma pessoa de interesse ou mesmo um suspeito oficial do caso de Darlene.

Então, não resta outra alternativa a não ser tentar ver tudo de um panorama ainda maior: era hora de buscar informações no Tribunal de Indiana sobre Kenneth McCune Junior.

Para quem não conhece muito o sistema judiciário e, é claro que o brasileiro e o americano tem muitas diferenças, ainda existem alguns pontos similares: algumas coisas são demoradas.

No processo de Emily realizar a busca no Tribunal, ela precisou ir de corte em corte, com dados bem detalhados sobre Kenneth, fazer solicitações que poderiam demorar de dois até mais dias para serem atendidas.

Mas, foi graças a esses documentos, que foi possível saber mais sobre o crime cometido contra Penn, que, como já dissemos, é um nome fictício para proteger a identidade da vítima.

Emily conseguiu seu contato e, para a surpresa de todas, Penn concordou em conversar com ela.

Narrando a história que nós já conhecemos, foi possível entender a brutalidade do crime, mas não apenas isso, alguns detalhes relevantes que antes não pareciam se destacar, agora ganham mais destaque.

Quando Kenneth fugiu da casa de Penn, deixando seu sangue na porta e anos de terror por vir, Penn ligou para a polícia.

Por causa das outras ligações que Penn vinha recebendo, a polícia logo deduziu que se tratava do mesmo homem e que, provavelmente, ele vinha perseguindo-a por algum tempo.

Lembra que Penn havia prestado queixa para a polícia sobre as ligações? Se as denúncias tivessem sido investigadas, teria sido descoberto o remetente das ligações, com a mesma facilidade com que o fizeram cinco anos depois e tudo isso teria sido evitado.

Ao falar das ligações, Penn se lembra que nas duas primeiras vezes que ele ligou, a chamou por um apelido, que ela tem de longa data e que, por isso, ela começou a achar que era alguém que a conhecia. Além disso, todas as ligações dele eram de cunha sexual, ele ficava sempre falando o que queria fazer com ela, até que ela desligasse.

Penn também destacou que, apenas pela voz, ela não saberia dizer se o homem que a atacou, ou seja, Kenneth, era o mesmo que vinha fazendo as ligações. Mas, para a polícia, a conexão estava feita: era o mesmo indivíduo.

Mesmo sabendo depois que fora Kenneth seu agressor, Penn destaca como a questão é nebulosa, porque ela não conhecia Kenneth, e o nome dele apenas despertava uma vaga lembrança de um estudante da época de sua irmã mais nova.

Dois anos depois do atentado contra Penn, ela conta que, quando souberam do assassinato de Darlene, ela não pode deixar se pensar se seria o mesmo homem.

Penn também se lembra do dia com uma memória difícil de apagar: da varanda da sua casa era possível ver as luzes e movimentação da polícia no local em que Darlene fora encontrada.

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É exatamente nesse ponto que acabamos voltando uma hora ou outra: o local em que o corpo de Darlene foi encontrado.

Um detalhe que não é destacado nos registros que se tem acesso da polícia é o fato de que esse terreno faz divisa com uma fazenda da família McCune. Exato, da família de Kenneth.

À época do crime, tanto o pai quanto o tio de Kenneth eram fazendeiros e, lá em mil novecentos e oitenta e poucos, era mais incerto ter certeza das linhas que dividiam cada um dos terrenos.

Nos relatórios da investigação, a informação disponível é de que a propriedade em que Darlene foi encontrada pertence a George Piaskowy e, segundo os locais, ele sub-locava a terra para fazendeiros locais.

O problema é que não existem registros da época, porque tudo era feito na base do aperto de mãos. 

E a terra logo ao norte na qual Darlene foi deixada, pertencia exatamente ao tio de Kenneth, chamado Jim. Um detalhe no mínimo curioso é que Jim nunca testemunhou sobre o caso, o máximo que ele recebeu foi uma visita na porta de casa, como várias outras pessoas, perguntando se ele sabia algo sobre o crime.

Agora é importante que a gente relembre um detalhe: o fato da fazendo ser de Jim, o tio de Kenneth não o torna culpado, nem faz com que ele tenha conhecimento da região. Porém, você se lembra da lista de empregos os quais Kenneth já teve? Trabalhar como fazendeiro na fazenda de seu tio Jim era um deles! Ou seja, conhecimento da região é, com certeza, um critério que entra na enorme lista de coincidências do caso.

As coincidências com Kenneth, porém, não param por aí! De acordo com os registros encontrados, Kenneth também trabalhou na M&M Auto, uma vendedora de carros usados.

Isso é um fator que facilita muito o acesso de Kenneth a diferentes carros, e, como também se sabe, vendedoras como essa tinham facilidade em limpar carros, trocar algumas placas e cores e venderem com rapidez.

Talvez isso não fosse muito relevante se não fosse o fato de que várias pessoas alegaram ter visto um carro verde-azulado ou azul-esverdeado, como no relato das filhas de Darlene. E esse carro tinha uma pintura muito ruim, como se tivesse sido feita às pressas, em casa, de qualquer jeito.

De acordo com o relatório da polícia, o primo de Kenneth disse que comprou um carro dele em julho de mil novecentos e oitenta e quatro. Segundo esse primo, ele trocou seu Plymouth Valiant branco por um GMC Jimmy que Kenneth costumava dirigir.

O carro que Kenneth usou no dia em que atacou Penn, em mil novecentos e oitenta e dois.

O GMC Jimmy, que agora era quase cinza, mas que fora pintado e estava prateado. A polícia tirou fotos do veículo, e o relatório termina aí.

E, de novo, isso é mais um monte de coincidências, porque não prova que Plymouth Valiant branco é o carro que foi pintado de verde ou azul e usado para ir até a casa de Darlene.

Infelizmente, não prova coisa alguma. Mas, a essa altura, vale saber que, em agosto de mil novecentos e oitenta e quatro quando Darlene foi morta, Kenneth não usava mais um GMC Jimmy.

Ou seja, o caso parece dar voltas e mais voltas em tantas coincidências que acabam retornando para o mesmo nome: Kenneth McCune Junior.

E é por isso que Emily foi diretamente na fonte, ela foi atrás de Kenneth para saber sua versão da história.

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Quando Emily e Ashley bateram à porta de Kenneth elas não sabiam ao certo o que esperar e, claro, a expectativa não era um agradável convite para um chá, mas, quem sabe, uma oportunidade de realmente ouvir a versão do homem no qual tantas coincidências parecem se concentrar.

Kenneth não quis conversar e de cara foi dispensando as duas, falando que não tinha nada para falar. Mas foram quase vinte minutos ali na porta da casa dele durante essa dispensa.

Quando as perguntas se direcionaram para o caso de Penn, Kenneth se mostrou um pouco mais aberto para falar, sempre voltando à questão de que já cumprira sua pena para com a sociedade e, que, se pudesse, se desculparia com Penn, porque se arrepende do que fez.

Porém, quando a conversa gira em torno de Darlene, Kenneth se altera, ele diz ter raiva pela associação do seu nome ao crime, especialmente porque não tem provas que o liguem ao caso.

Mas não é apenas sobre não querer responder as perguntas, quando se trata do assassinato de Darlene, ele é enfático ao dizer que não quer saber absolutamente nada sobre o crime, sobre a investigação. Que as pessoas tentam falar com ele sobre isso, mas que ele não quer nem ouvir e nem saber.

Aproveitando o gancho, mesmo sem a abertura de Kenneth, Emily e Ashley jogam a informação de que a tecnologia atual ia permitir que o sangue fosse analisado devidamente e que isso talvez colocasse fim às dúvidas quanto à autoria do crime. E ainda perguntam que, se fosse necessário, se ele poderia ceder uma amostra de sangue dele para comparação.

Nesse instante, elas têm a atenção de Kenneth que, surpreso, fala que não tem nada que o condene no crime, que se tivesse, já teriam encontrado há muito tempo. E que ele não tem culpa alguma, que ele já deu o sangue dele, tiraram na época que basta eles usarem para fazer a comparação, porque ele não deve nada e não daria sangue algum para ser testado.

Esse encontro com Kenneth pode não trazer muitas informações novas para a investigação, mas traz um detalhe interessante: lembra do perfil que o FBI traçou para o assassino de Darlene?

Lá fica bem claro que o indivíduo não falaria sobre o crime com ninguém, ainda que ele desejasse saber o andamento por outros meios.

E claro, essa pode ser apenas mais uma das quase infindáveis coincidências desse caso. Além disso, uma má notícia é o fato de que essa amostra de sangue de Kenneth não existe mais, quando Emily se encontrou com o promotor Nelson, ele acabou entregando esse fato. Ou seja, a polícia não tem como realizar essa comparação, a menos que solicite uma nova amostra a Kenneth.

Seria preciso agora mais duas semanas para que novas evidências fossem entregues das solicitações às cortes do Tribunal, mas elas valeram a espera: o nome de Kenneth ainda está longe de ser esquecido.

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Dos documentos que Emily recebeu dos pedidos ao Tribunal, algumas informações a mais sobre Kenneth se destacaram: um deles é um relatório médico que indica o ferimento que aconteceu na fuga da casa de Penn.

Kenneth, de fato, esteve no hospital para tratar sua mão após o ataque, porém, não é esse detalhe que se destaca: o relatório médico de Kenneth continua e, em mil novecentos e oitenta e quatro, logo após a morte de Darlene, existem também alguns registros.

No dia onze de junho desse mesmo ano ele esteve presente no consultório pelo que o médico classificou como estresse, o paciente apresentava dificuldade para respirar e não se sentia bem quando usava o spray de pintura de carros.

Ou seja, essa é realmente uma novidade e uma certeza: em junho, um mês antes da morte de Darlene, ele já tinha acesso a material de pintura de carros. E essa informação não constava de nenhum relatório policial.

Além disso, as visitas ao médica não cessaram aí, cinco semanas depois da morte de Darlene, em vinte e dois de setembro de mil novecentos e oitenta e quatro, o relatório médico consta que ele estava muito nervoso, lidando com muito estresse, trabalhando cerca de oito a dez horas por dia e o estresse era provavelmente por causa do trabalho. A recomendação do médico foi uma mudança no estilo de vida.

Nesses mesmos relatórios médicos, um dos médicos destaca que quando Kenneth cometeu crimes, as datas coincidiam com as épocas em que sua esposa estava grávida. Um deles destaca que em mil novecentos e oitenta e dois ele entrou em apuros e ocorreu o caso de importunação sexual, e que, na época, o casal não estava interessado sexualmente um no outro.

E a coincidência fica ainda maior: a esposa de Kenneth estava grávida e o casal passava por problemas em agosto de mil novecentos e oitenta e quatro, quando Darlene foi morta.

Aqui, é bom a gente relembrar outra parte do perfil do FBI, que diz exatamente que a raiva da cena do crime de Darlene demonstrava a fúria com uma figura feminina em posição de poder na vida de Kenneth.

Além disso, algumas semanas antes do assassinato de Darlene, Kenneth havia se demitido do cargo de motorista de ônibus no qual também trabalhava.

É claro que tudo isso pode fazer parte da imensa lista de coincidências, mas é uma certeza de que mudanças estavam acontecendo na vida de Kenneth.

E, falando em coincidências, é outra de desenterrar outro nome à tona: Jean-Paul Clarke.

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Durante a conversa com o promotor Nelson um nome apareceu: John Paul Clark. E a pergunta do promotor foi: onde é que você ouviu esse nome?

Precisamos agora voltar um pouco no tempo, cinco dias depois da morte de Darlene, uma carta anônima chegou no escritório do xerife. A carta falava sobre a fuga de John Paul Clark e, sem querer se identificar, dava detalhes que poderiam aproximar ao caso de Darlene.

O primeiro problema que temos aqui é que, em meio as linhas de investigação que foram adotadas pela polícia, essa não parece ser uma delas.

Em abril de mil novecentos e oitenta e quatro, John Paul Clark foi preso pela tentativa de estupro e assassinato depois de entrar na casa de uma mulher e esfaqueá-la diversas vezes.

A vítima quase faleceu.

John ficou preso por cinco meses em Rockfeller, aguardando seu julgamento, até que, no dia cinco de agosto do mesmo ano, ele fugiu.

Os relatórios da polícia são vagos e dizem que John escapou simplesmente porque encontrou a porta aberta. Depois de deixar a delegacia, ele foi até a casa de seus pais, que não ficava muito longe, roubou algumas coisas e saiu de lá dirigindo um Dodge Colt Lagoon verde de 1974.

Para um caso cheio de coincidências, essas aqui vão só aumentar. Não apenas um homem preso por um crime semelhante ao de Darlene estava em fuga na época de sua morte, como também estava num carro relativamente similar ao descrito por Marie e Melissa.

Em vários dos relatos, o carro visto pelos locais que é provavelmente o do crime de Darlene, foi descrito como big trunk, que poderia ser um carro que tem um baú ou uma parte traseira grande. E, nesse caso, muita gente discorda que o Dodge Colt Lagoon verde de 1974 fosse associado à essa descrição.

Contudo, as coincidências não param por aí. Os relatórios também indicam que John fugiu para o norte, que ele era esperto e que saberia encontrar formas de se esconder, chegando a se encontrar com um velho amigo para trocar o carro por uma motocicleta.

A verdade é que não se tem a mínima certeza do que John fez no período em que esteve em fuga, até ser preso novamente no dia vinte e sete de agosto daquele mesmo ano, graças à uma pista que a polícia recebeu. E adivinhem, ele estava mesmo em uma motocicleta em Oklahoma.

Emily decidiu tentar conversar com John, mas além de extremamente raivoso com a procura, ele não se demonstrou nem um pouco disposto a falar qualquer coisa, respondendo o contato com ameaças de chamar a polícia e processá-la.

Porém, outra pessoa estava disposta a conversar com ela: a vítima de John daquele mesmo ano.

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O crime ocorreu no dia vinte e oito de abril de mil novecentos e oitenta e quatro, e Sheryl adormeceu no sofá da sala de sua casa. Do lado de fora, estava uma tempestade forte, e Sheryl foi despertada por algumas batidas na porta.

Quando ela abriu, viu um jovem debaixo da chuva, que dizia que seu carro quebrou e que ele precisava telefonar. A princípio, Sheryl não quis deixá-lo entrar, mas ele insistiu, dizendo que estava indo visitar seu tio e que ele poderia ficar preocupado.

O rapaz tentou fazer a ligação várias vezes e dizia que a linha estava ocupada, enquanto isso, eles fumavam um cigarro. Como ainda estava demorando, Sheryl foi tentar ela mesma fazer a ligação e a mensagem que recebeu foi a de que o número estava sem sinal.

Quando Sheryl foi pegar uma capa para ele na sua garagem, John a atacou pelas costas, com uma faca e mandou que ela ficasse calada ou que ele mataria os filhos dela.

Sheryl lutou com ele em vários momentos e chegou até mesmo a aceitar que ele a estuprasse, caso ele não fizesse nada com os filhos dela, que dormiam no andar de cima. Mas quando John começou a usar a faca para cortar os seios dela, ela pediu que fossem para outro lugar, que não poderia ser lá.

Foi nesse processo de saírem com seu carro que Sheryl conseguiu fugir e pedir ajuda, mas não antes que John a alcançasse e esfaqueasse várias vezes pelas costas.

John foi preso pouco depois disso, na sua casa, quando estava ainda com as roupas encharcadas da chuva e do sangue de Sheryl.

No julgamento, Sheyl se lembra de um detalhe: segundo informações da investigação, John a stalkeava há algum tempo, mas não se tinha certeza de quais foram as circunstâncias em que ele fez isso.

Com os relatos de Sheryl, o silêncio raivoso de John e tantas coincidências, foi preciso cavar um pouco mais para descobrir, afinal, o que mais havia na história de John Paul Clark.

Várias das passagens pela polícia de John não são possíveis de acessar porque ele ainda era menor na época. O único fato que foi possível levantar foi o de que ocorreu uma tentativa de estupro.

Voltando mais na linha do tempo de John, em mil novecentos e oitenta e um, ele foi preso por bater e agredir sexualmente uma garota de dezessete anos, usando um atiçador de lareira.

Exatamente a mesma arma usada para matar Darlene.

Ainda assim, tudo se baseia ainda em coincidências, até que mais um detalhe veio à tona: no dia em que o corpo de Darlene foi encontrado, dezoito de agosto de mil novecentos e oitenta e quatro, o departamento de polícia recebeu uma notificação sobre a fuga de John.

Ainda assim, fica a questão no ar: nem mesmo essa coincidência de datas levou a polícia a procurar por John e tentar ver se ele se relacionava, de alguma forma, ao assassinato de Hulse. O próprio promotor Nelson não parecia sequer saber ou se recordar do nome John Paul Clark.

Segundo Marie, a filha mais velha de Darlene, ela tem certeza de que o carro do lado de fora da sua casa não era um Lagoon, como era o carro dos pais de John.

Mas, afinal, é impossível simplesmente riscar o nome de John da nossa lista de suspeitos, porque ninguém, além dele, sabe o que ele estava fazendo durante o período em que esteve em fuga da prisão.

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Mais ou menos em dois mil e vinte, a família Hulse trabalhou com um detetive particular, Patrick Zirpoli, conhecido como Zip, que fez carreira na Polícia Estadual da Pensilvânia e é especializado em casos antigos de homicídio.

Quando Zip teve a chance de analisar os documentos do caso de Darlene, uma pessoa de interesse saltou aos olhos do investigador: Daryl Lemon.

Esse é um nome fictício, usado para proteger a verdadeira identidade da pessoa e evitar questões legais, e o nome de Daryl chamou a atenção de Zip por motivos bem específicos: seu comportamento tanto antes quanto depois do crime são fortes indicativos com o perfil do suspeito.

Daryl apareceu no radar da polícia em janeiro de mil novecentos e oitenta e cinco, quando receberam uma pista de uma mulher chamada Dolores, que trabalhava na Young Door, a mesma fábrica que Ron, marido de Darlene, trabalhara.

Dolores contou que no verão de oitenta e quatro, Daryl estava em Argus no que ela chamou de circunstâncias peculiares, numa casa próxima à dos Hulse, quase nos limites de Argus.

Segundo Dolores, Daryl estava hospedado na casa de Larry e Bonnie Burger, até se mudar de lá, em outubro do mesmo ano.

Aqui, é preciso deixar claro que não existem registros que demonstrem que a polícia seguiu a fundo essa pista, a observação que pode ser encontrada é o fato de que Daryl tem cabelos castanhos e não loiros, como o suspeito era descrito.

A pista pareceu terminar aí, até que em dezembro de mil novecentos e oitenta e cinco, a polícia recebeu um aviso de que precisava entrar em contato com Ron Hulse, com urgência. 

Quando o sargento contatou Ron, ele disse que seu irmão, Randy, havia recebido uma ligação de uma outra mulher, que afirmava que tinha informações sobre a morte de Darlene.

Ela disse a Randy que conhecia um homem que fazia parte de uma gangue de motoqueiros e que fora ele quem matou Darlene, mas que ela tinha medo de ir à polícia porque tinha medo da gangue. Ela ainda trouxe outro aspecto relevante:  ela sabia onde estava a arma do crime!

A notícia parecia até boa demais para ser verdade, já tinha quase um ano e meio do assassinato de Darlene e o caso estava esfriando. Então, como as informações ainda pareciam confusas e intermediadas por gente demais, o sargento entrou em contato com Randy.

Randy sabia quem era a mulher, mas não queria revelar porque ela tinha medo da gangue e, também porque não era ela a envolvida e sim uma amiga dela.

O homem que todos estavam falando era então Daryl Lemon, e quem começou essa corrente de informações foram Larry e Bonnie Burger.

Os relatos da época mostram que a polícia entrevistou os Burgers, que confirmaram que Daryl se hospedara com eles de julho até outubro de oitenta e quatro.

Na descrição de Larry, Daryl era magro, alto, olhos azuis e tinha cabelos castanhos. Quase o perfil completo do suspeito.

Quando a conversa seguiu os rumos do que Daryl estava fazendo no dia em que Darlene fora levada, dezessete de agosto de mil novecentos e oitenta e quatro, Larry não saberia responder porque estava trabalhando fora o dia todo e Bonnie fora a Rochester naquela manhã, para fazer compras por volta das nove da manhã e, quando voltou para casa depois de dez e trinta, e que Daryl estava em casa.

Bonnie ainda contou que, no caminho da volta, dirigindo para o norte em direção a Argus, ela viu a movimentação da polícia na estrada que levava a casa dos Hulse.

Um detalhe curioso é que Bonnie estava dirigindo Plymouth Satellite verde claro dos anos setenta, que bate muito com a descrição do carro do suspeito.

Bonnie também chegou a contar que Daryl pegou o carro emprestado várias vezes, mas que, naquele dia em específico, ela tinha certeza de que estava com ela pela manhã.

Quando o sargento perguntou se eles achavam que Daryl era capaz de cometer assassinato, ambos deram a mesma resposta: sim.

O problema é que a pista não levou a lugar algum, já que o carro que poderia ser relacionado ao crime estava com Bonnie. Bem, isso até um mês depois.

Era janeiro de oitenta e seis quando a polícia recebeu um telefonema de Larry, falando que tinha mais informações dessa vez. Mas, agora eles moravam em Chicago.

O sargento e outro oficial dirigiram até lá para conversar mais uma vez com o casal e a história agora era bem mais complexa que a anterior.

Os Bugers conheciam Daryl Lemon por anos, que também era de Indiana, mas morava no Arizona. Daryl era membro de uma gangue de motoqueiros onde morava e só saiu da casa dos Burgers quando Larry o expulsou de lá, em outubro do ano anterior.

Larry contou que naquele verão, Daryl estava tentando sempre criar desavenças entre o casal, e, ao mesmo tempo manipulá-los para que eles se mudassem com ele para o Arizona.

A relação que eles tinham era tão significativa que Daryl até mesmo tinha acesso à conta bancária de Larry e Bonnie, ou seja, acesso livre ao dinheiro do casal.

Sobre o dia em que Darlene foi levada, Bonnie contou que o que ela dissera antes era quase toda a verdade, porque a linha do tempo não estava completa: quando ela saiu aquela manhã, Larry já havia ido para o trabalho, e ela tem quase certeza de que viu Daryl dormindo no saco de dormir.

Quando ela saiu, por volta de oito da manhã, ela se lembra que olhou para a casa dos Hulse, sem motivo aparente, mas que ela olhou. Depois disso, ela falou que, voltando de Rochester, no carro verde, ela foi ao escritório em que sua mãe trabalhava e contou para ela que achava que Daryl havia feito algo ruim.

Depois disso, ela voltou para casa só por volta das quinze e trinta e, nessa hora, Daryl estava lá.

Até aqui não mudou muita coisa, mas os detalhes das histórias dos Burgers começam a ficar mais estranhos!

Segundo o casal, Daryl sempre carregava uma Bíblia com ele, mas que ele não era um cara que costumava ir à igreja. Além disso, ele sempre falava como eles poderiam ganhar muito dinheiro com uma crianças de olhos azuis e cabelos loiros, porque ele tinha conexões em um mercado negro de bebês.

É realmente de nos fazer pensar, mas não acaba aqui. O casal também disse que Daryl estava sempre preocupado com sua aparência, porque estava paranóico com medo da polícia. Larry conta que depois da morte de Darlene, quando passaram uma vez perto da casa dos Hulse, Daryl ficou extremamente nervoso.

E tem mais esquisitices que os Burgers foram contando: Daryl sempre pedia aos Burgers que eles passassem as noites dirigindo nas ruas adjacentes da região, sem ser nas avenidas principais, sem destino certo, bem tarde da noite até as primeiras horas do dia.

Como Daryl continuava tentando criar desavenças entre o casal, a certa altura, ele sugeriu a Bonnie que ela fosse embora para viver com ele no Arizona. Foi então que Daryl o mandou embora e ele se mudou em outubro de oitenta e quatro.

Ao mesmo tempo, valia se perguntar porque só um ano e meio depois eles resolveram falar com a polícia, mas os Burgers disseram que tinham medo de Daryl e que, para eles, ele realmente estava envolvido no assassinato de Darlene.

Outros comportamentos de Daryl também foram indicados por eles, como o fato que, depois de dezessete de agosto, ele começou a deixar a barba e o bigode crescerem, e que uma das suas calças desaparecera, não era mais colocada para lavar.

Daryl também se tornou violento e chegou a machucar os filhos do casal e que ele havia parado de sair de casa durante o dia, apenas de noite.

Os Burgers estavam tão certos que abrigavam um assassino que vasculharam a floresta atrás da sua casa em busca da arma do crime: o atiçador de lareiras.

Larry contou que ele e um amigo buscaram nos galões que eles tinham enterrados na floresta, que é onde eles guardavam maconha, mas não encontraram nenhuma arma.

E um último detalhe: os Burgers também acreditavam que Daryl Lemon havia roubado sua motocicleta e que eles haviam feito uma denúncia do roubo.

E sabe aquele Plymouth Satellite verde claro dos anos setenta? Os Burgers ainda tinham o carro e deixaram que os policiais dessem uma olhada nele. Nada se destacou aos olhos deles e o carro não foi apreendido para que testes formais fossem realizados.

Os policiais não estavam muito certos de que o casal queria algo além de se vingar de Daryl por causa do roubo da moto, não achavam que eram totalmente confiáveis.

Por isso, o caso esfria novamente e o que poderia ser tão promissor volta a ser mais um monte de circunstâncias no caso de Darlene.

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Por outro lado, o investigador Zip não estava tão certo de que Daryl poderia ser assim tão facilmente descartado.

É certo que algumas peças não se encaixavam, porque, se ele estava mesmo envolvido com tráfico de crianças, porque levaria Darlene ao invés das crianças? A oportunidade existiu. Além disso, na busca por históricos criminais, os únicos crimes que surgem na ficha de Daryl dizem respeito à drogas.

Mesmo assim, Zip destaca que Daryl tinha todos os comportamentos de um suspeito de homicídio, e, pelo motivo do crime, ele acredita que ele deveria ser mais investigado. Além do mais, os relatos dos Burgers também mostram o quanto de controle ele tinha sobre eles, a ponto de que Bonnie se coloca na cena do crime de forma totalmente desnecessária na sua narrativa.

Zip ainda conta que a teoria inicial da polícia seguia muito o caminho de que o crime foi um roubo que deu errado, mesmo com Ron dizendo que nada fora levado da casa.

Para ele, se a polícia tivesse seguido o verdadeiro motivo do crime ao invés disso, talvez a solução tivesse ocorrido há muitos anos. O problema é que, quando você perde o verdadeiro motivo, você segue na direção errada.

Tudo isso porque a teoria de Zip é a mesma que de muitos nos dias atuais: a motivação do crime foi sexual. E não saiu como o planejado.

Segundo Zip, é provável que o indivíduo tenha cometido outros crimes violentos, talvez não chegasse a cometer assassinato, mas outros crimes violentos, relacionados ao poder de ter o controle, como abuso e até violência doméstica.

Seguindo essa linha de raciocínio que, para Ashley e Emily, também precisava ser mais conhecida, elas cavaram mais fundo.

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As primeiras coisas que Ashley e Emily tentaram foi contatar Daryl, mas não receberam retorno em nenhuma das mensagens que deixaram, seja pelo telefone ou pelo perfil que encontraram no Facebook.

Larry e Bonnie também revelaram um beco sem saída, porque uma única mensagem que foi respondida dizia que Larry Burger havia falecido em dezessete de maio de dois mil e vinte e dois e queria saber em qual caso Emily trabalhava.

Uma resposta para as informações de Emily nunca chegou. Elas chegaram a encontrar um atestado de óbito de maio de vinte vinte e dois, mas nada que confirmasse que o A. Larry Burger do atestado era o que elas procuravam.

Quando esses caminhos se provaram impossíveis de continuar a procurar, foi a vez de voltar a falar com o promotor Nelson, e indagar sobre Daryl.

A resposta dele foi estranha, porque foi abre aspas Eu acho que um deles foi, mas nada veio disso fecha aspas.

Afinal, quem seriam esses outros eles que ele acha que foram interrogados no caso de Darlene? E tudo fica ainda mais estranho quando Nelson diz que Daryl vivia perto da casa de Darlene.

Mas, até onde sabemos, Daryl não vivia em Argus, ele estava na casa dos Burgers, que ficava nos arredores. Para complicar ainda mais a questão, Nelson aponta a direção da casa em que Daryl vivia, e não é no sentido da casa dos Burgers, é para o outro lado.

Sabe para onde é que Nelson estava apontando? Aquela propriedade à oeste da casa de Darlene, a que tem um ônibus enterrado no quintal. E que o promotor já disse ter sonhado em encontrar o atiçador de lareira no ônibus enterrado.

Nelson foi questionado novamente, porque, afinal, isso não fazia o menor sentido, mas Nelson disse que Daryl estava morto.

É, você não entendeu errado: morto. Aquele mesmo que Emily encontrou um perfil no Facebook em suas pesquisas.

Nessa hora, a ideia fica ainda mais estranha: Nelson vai até o quadro branco que está na sala de reuniões do seu escritório, levanta um papel que cobria algo, olha por alguns segundos e volta o papel.

Então, ele confirma, é, Daryl está morto.

Nelson não permite que elas olhassem novamente para o que estava no quadro, mas Ashley viu o suficiente: era uma árvore genealógica, de uma família que chamaremos de Parsons.

Pesquisando, descobriu-se que a família Parsons tinha quatro irmãos que, na época, viviam em Argus, e estavam na faixa etária do suspeito do assassinato de Darlene e que viviam perto de sua casa.

Vamos chamar esses quatro irmãos de Mike, Jay, Jason e Daryl.

É, você entendeu bem, Daryl, como o Daryl Lemon. E não estamos querendo confundir ninguém, mas ainda que estejamos falando de nomes fictícios, na realidade, ambos têm o mesmo primeiro nome.

E aqui a coisa fica ainda mais confusa: porque Nelson não esclareceu que se tratavam de dois Daryl? Ele vem escondendo informações, mentindo, se confundiu com os nomes?

É uma direção totalmente nova no caso, com personagens que não sabíamos que existiam e que, agora, são peça relevante de toda a história.

A questão é tão estranha porque Nelson não confundiu nomes nem uma vez sequer, e foi ele mesmo quem mostrou a Emily a propriedade do ônibus enterrado.

A essa altura, uma coisa era certa: não dava mais para confiar apenas na palavra de Nelson, e elas foram buscar a informação precisa sobre de quem era a propriedade do ônibus enterrado no quintal. E adivinhe só: pertence à família Parsons, a mesma que tem a árvore genealógica disposta no quadro do promotor.

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Nesse ponto, é bom esclarecer que Tanto Daryl Lemon quanto os quatro irmãos Parsons são, no máximo, pessoas de interesse no caso de Darlene, nenhum nunca apareceu como suspeito em potencial nos documentos.

Mas é hora de conhecê-los melhor: a maior parte dos quatro Parsons já morreram, porém, nenhum era muito velho quando isso aconteceu.

Mike ainda está vivo e, pelo que parece, vive em uma clínica de repouso. Já os Parsons falecidos, eram muito velhos nas fotos do obituário para que fosse possível comparar suas aparências à do suspeito.

Dos quatro irmãos, dois deles se destacaram pelas fotografias do livro do ano das escolas e estava claro que um recomeço era necessário. Seria preciso passar um pente fino em absolutamente tudo para checar se algum deles aparece nos relatórios e documentos do caso.

Agora, pequenos detalhes da investigação que pareciam becos sem saída, agora soavam mais como pistas promissoras: 

No dia dezoito de agosto de oitenta e quatro, quando o corpo de Darlene foi encontrado, um homem ligou para a polícia e disse que o suspeito divulgado poderia ser Jay Parson.

Outra pessoa ligou e disse que, duas semanas antes de Darlene desaparecer, ela viu um carro de cor clara parado perto da casa dos Hulse, que na época não deu muita atenção e que poderia ser apenas alguém indo no campo de maconha da região.

Sobre isso, é bom a gente esclarecer que alguns relatórios policiais da época revelam que realmente havia um campo de maconha atrás da casa dos Hulse, que não tinham envolvimento com essa questão, apesar a proximidade.

O porém é que, ao que tudo indica, os Parsons estavam.

No mesmo dia dezoito, outra pessoa ligou e disse que o suspeito do retrato falado era Mike Parson.

Em dezenove de agosto, uma mulher disse que o suspeito parecia Jay Parson e que ela o viu dirigir perto da casa dela em um carro verde escuro, de tamanho médio. Se foi perto da casa de Darlene ou da própria testemunha, não se sabe, porque as anotações são confusas.

Os relatos ainda continuam, no dia vinte e um de agosto, a polícia recebeu uma chamadas às duas da madrugada que informava que havia um homem se escondendo em um campo de milho. Um oficial foi checar, mas não encontrou ninguém. Quinze minutos depois, alguém foi visto correndo na beira da estrada.

No topo do relatório está escrito o nome de Daryl Parson e, no rodapé, abre aspas, o sujeito foi localizado e preso por 1056 fecha aspas. 1056 quer dizer pessoa drogada, mas a questão real aqui é: Daryl Parson foi quem ligou ou quem foi preso?

Na ficha de Daryl Parson, existe o registro de uma prisão por drogas e uma acusação de violência doméstica, mas elas são datadas de dois mil e oito, bem longe da nossa linha do tempo.

Outro detalhe é que Daryl Parson também se encaixa bem no perfil: loiro, magro e de nariz grande.

E aqui a gente se pergunta, o que a polícia fez com todas essas pistas?

Também no dia vinte e um de agosto, há o registro da polícia de que Daryl Parson tinha um álibi: ele estava em Boone County, por volta de nove da manhã para uma entrevista de emprego e ficou lá por volta de uma hora.

Então, nos voltamos para os outros irmãos. Não há citações sobre Jacob e Mike Parson em momento algum, mas sobre Jay, sim.

Jay chegou a ser entrevistado pela polícia, e seu perfil gera muitas coincidências com o perfilado pelo FBI. 

Jay tinha trinta anos em oitenta e quatro e viveu toda sua vida em Argus, naquela propriedade com o ônibus enterrado, bem perto da casa de Darlene. O obituário diz que ele se graduou na escola em setenta e quatro, só que não tem registros dele no livro da escola daquele ano. Também não há registros de que ele tenha se casado ou tido filhos.

E a aparência, adivinha? Também bate.

Um detalhe importante e que foi o motivo pelo qual ele realmente foi levado a ser entrevistado pela polícia foi o fato de que ele era amigo de Daniel Bender. Lembra dele?

Daniel Bender foi o primeiro suspeito no caso de Darlene e, em vários relatórios antigos, Jay é citado por estar na companhia de Danny, dirigindo motos juntos e farreando.

Foi em cinco de setembro do ano do assassinato de Darlene que Jay passou pelo polpigrafo e contou uma história que mostrava alguém muito cooperativo, e totalmente voltada para a relação dele com Danny e não no seu envolvimento com o crime.

No relato, Jay fala que passou o dia em que Darlene foi morta em casa, dormindo no ônibus enterrado no quintal e que reconheceu Darlene da foto da tevê porque já havia visto ela na lavanderia, em Argus.

O resultado do polígrafo foi de que ele estava falando substancialmente a verdade e ele foi dispensado.

O problema todo é que, como assim ele estava dormindo no ônibus enferrujando no quintal? E, como assim ele havia visto Darlene na lavanderia?

No depoimento de Ron, o marido de Darlene, ele deixa claro que eles tinham lavadora e secadora em casa então que isso era feito lá, Darlene nunca estaria em uma lavanderia.

As perguntas permanecem sem respostas mas, se como indicam os documentos, em que não existem outras menções dos membros da família Parsons, por que é que a árvore genealógica deles está no quadro da sala do promotor?

Quando confrontado, Nelson admite que as descobertas sobre os dois Daryl estão corretas e dá a entender que tudo não passou de uma confusão por causa dos nomes iguais.

Além disso, ele diz que não pode confirmar muitas coisas, mas que os Parsons haviam sido, no máximo, pessoas de interesse no caso de Brandie Peltz, mas nunca no de Darlene.

Então, novamente, voltamos ao ponto: por que a árvore genealógica da família está no quadro branco da sala dele?

Nelson diz que fez aquilo há muito tempo, para não se confundir e que tampou porque não era para ninguém que usasse a sala ficar vendo. Mas foi pressionar mais um pouco que ele acabou falando que havia a suspeita sobre Mike, porque ele tinha alguma doença mental e hoje, ele acha que está numa casa de repouso.

No meio disso, surge uma novidade: o promotor relata que houve um movimento que ele chama de recente, sobre um detetive que tentou coletar informações com um familiar dos Parsons sobre o caso. Mas que não foi uma conversa amigável e que terminou sem cooperação alguma.

A pergunta que surge aqui deve estar passando pela sua cabeça, se os Parsons não são sequer pessoas de interesse no crime de Darlene, porque é que eles foram atrás da família? Não foram atrás de McCune, por exemplo, porque ele mesmo disse que a própria polícia não o procura para falar do caso de mil novecentos e oitenta e oito, quanto ele foi preso.

Algo claramente não se encaixa em todo o panorama que temos.

Daryl Lemon, Kenneth McCune e os Parsons, todos viveram na região próxima em que Darlene vivia, assim como do local em que seu corpo foi encontrado. E essa é o que parece ser uma das chaves do crime e que também aparece no perfil traçado pelo FBI.

Até aqui, é impossível se basear apenas no que Nelson diz e, por isso, Ashley e Emily resolveram voltar realmente ao início e rever tudo, começando com a autópsia de Darlene.

Bem no começo do caso foi falado que a causa havia sido trauma por lesão causada pelo atiçador da lareira. Porém, nem tudo é o que parece nesse caso e essa não é a verdadeira causa da morte de Darlene: ainda há muito que ser descoberto!

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Quando analisaram o relatório da autópsia, Emily e Ashley acharam vários pontos estranhos. Mas, a questão não era duvidar sobre a perícia médica, e sim encontrar alguém que traduzisse os jargões médicos e tornasse a questão mais fácil de entender.

A conclusão que o legista chegou para o exame foi de que Darlene morreu de trauma contuso craniocerebral, e esse não era o que chamava a atenção no relatório e sim algumas anotações que não pareciam se encaixar nessa consequência.

O médico legista que foi responsável pelo corpo de Darlene, à época, ainda trabalha na área, mas não foi possível contato com ele, então elas levaram o caso ao Dr. Bill Smock, e o que ele revela é realmente estarrecedor.

Especialista na área, e, em especial, Darlene realmente sofreu várias lesões provenientes do ataque com o atiçador de lareira, porém, elas poderiam até deixá-la desacordada, mas não seria suficiente para matá-la. Logo, essa não poderia ser a causa da morte.

Por causa da fratura ocorrida no osso hioide, que é algo bem raro, e também pelas lesões nos músculos do pescoço, ele chegou a conclusão de que Darlene abre aspas morreu de estrangulamento e depois ele continuou apertando fecha aspas.

E o que isso significa no caso de Darlene?

A forma usada para matar a vítima diz muito sobre o suspeito, sua motivação e também, sua raiva.

Pelos relatórios e fotos da polícia, é possível ver que muito da violência aconteceu ainda na casa de Darlene, mas será que ela saiu de lá com vida ou ele a estrangulou ainda na casa?

O estrangulamento indica um outro tipo de atitude do agressor, é mais íntimo e reflete ainda mais raiva.

Mas esse não é o único detalhe que o Dr. Smock trouxe à tona ao analisar o caso: segundo ele é informado que foi feito um teste de agressão sexual, porém, sem contextualizar.

Não existem resultados desse teste disponíveis em lugar algum, mas em algum ponto da história falaram para a família de Darlene que ela não fora agredida sexualmente.

Uma foto da autópsia, porém, deixa todos perplexos: existem gotas de sangue na lingerie de Darlene.

Quando seu corpo foi encontrado, Darlene vestia todas as suas roupas e isso pode ter sido um indício que levou a pensar que não houvera agressão sexual.

O Dr. Smock explicou que a posição do sangue na lingerie indica um sangue por transferência, o que significa que ele respingou ou pingou ali. Mas, para ser sangue de Darlene, ela precisaria estar sentada e com a saia levantada ou fora do corpo para que fosse dela. E, se fosse do agressor, seria então uma potencial fonte de material genético para ser comparado.

Se o Dr. Smock fosse apostar, ele diria que é do agressor.

Porém, as revelações desse desenterrar do caso ainda não acabaram e o relato de uma testemunha pode mudar essa ideia.

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É provável que o relato dessa testemunha seja mais uma prova de que a polícia entendeu tudo errado, desde o começo, ainda lá em oitenta e quatro.

Cindy Sellers aparece pouco depois que Darlene foi morta e disse para a polícia que viu o assassino, em um carro verde, com Darlene no banco do carona.

É, você não entendeu errado: ela viu Darlene Hulse sentada dentro de um carro verde, ao lado de um homem, no horário do crime.

Ao que tudo indica, a polícia não deu muita atenção ao relato de Cindy naquela época, mas tudo que ela disse lá, não mudou agora, quase quarenta anos depois, quando conversava com Emily e Ashley.

Cindy tinha vinte e um anos em oitenta e quatro e, no dia dezessete de agosto, pela manhã, ela estava no bando do passageiro, logo atrás de seu pai que dirigia o carro da família em direção a Rochester para fazer compras. Sua mãe também estava no carro, no banco do carona e seu irmão, ao seu lado, dormindo.

O carro passava pela estrada principal em direção ao leste, quando um Cadillac preto estava dirigindo tão lentamente que obrigou seu pai a quase parar o carro. Foi aí que Cindy viu um carro verde, mal pintado e enferrujado, dos anos setenta, com duas pessoas dentro: um homem ao volante e uma mulher no banco do carona.

As descrições de Cindy para o homem batem perfeitamente com o suspeito e, a da mulher, com Darlene. E mais: Cindy também relatou que a mulher estava com a pele acinzentada e sangue no seu rosto.

Cindy continua lembrando que, quando ele percebeu que foi visto, faz um movimento no colo de Darlene e muda a direção do veículo, indo agora em direção ao norte. E pasmem: esse detalhe simplesmente não consta no relatório original da polícia!

E sabe qual a relevância disso? É o fato de que o tempo todo, desde o começo, a polícia tinha a certeza de que era alguém que levou Darlene e sabia exatamente para onde ir com ela ou levar o seu corpo. Mas se isso fosse verdade, por que ele acabara de mudar de ideia ao perceber que alguém os vira na estrada?

Isso também significa que, muito provavelmente, Darlene ainda estava viva quando foi levada de sua casa e, um tempo depois, dentro do carro. O agressor ainda a levava para algum outro lugar e, só depois desse cruzamento com Cindy, é que decidiu levá-la para a floresta na qual ela fora encontrada.

Isso levanta dúvidas sobre o fato dele conhecer assim tão bem a área. E, nesse caso, é hora de colocar mais uma dúvida na longa lista: não temos certeza nem mesmo se o local em que Darlene fora encontrada é realmente o qual ela chegou à floresta!

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Recentemente, a equipe de Ashley teve acesso a uma foto que ainda não havia aparecido do local em que o corpo de Darlene fora encontrado.

Todas as descrições sobre o local davam a entender que havia um buraco na base da cerca que você poderia passar por baixo, masa questão é que o buraco é, na verdade, no topo da cerca.

Então isso traz novas teorias, porque se Darlene estava viva a essa altura, ela pode ter sido obrigada a escalar a cerca ou, do contrário, ele poderia ter jogado o corpo dela pelo buraco.

Mas também, existe outra possibilidade: de acordo com o testemunho de um caçador, existia uma área que você poderia levar um carro até a área de terra da floresta.

Além disso, ele também falou que já havia visto um Nova verde por lá, dois dias antes da morte de Darlene.

Nada nunca veio dessa pista, mas isso não exclui a possibilidade de que o agressor conhecesse esse caminho e tenha usado não apenas para levar Darlene para o mato, mas também para se esconder e o carro.

O problema é que, até que o suspeito esteja em custódia, essa é uma resposta quase impossível de obter.

Como falamos antes, a testemunha que viu Darlene no carro, a coloca na posição sentada que seria necessária para que lingerie fosse manchada pelo sangue, mas isso também significa que ela estava ou sem a saia, ou com ela levantada.

E a lingerie de Darlene está listada nas evidências, o que falta é que ela seja testada com as amostras disponíveis, com a tecnologia atual para, quem sabe, finalmente a família tenha o conhecimento da verdade. A essa altura é tudo o que eles desejam.

Mas o procurador não parece estar com pressa alguma.

Todo o caso parece estar repleto de pequenas rachaduras em que informações estavam disponíveis apenas nas memórias dos investigadores, sendo que a maioria deles já se aposentou ou morreu.

Um detalhe que o próprio promotor deixou escapar e que volta dos testes de DNA, é o fato de que havia esperma na blusa de Darlene.

É, exato. Havia esperma na blusa dela, não se sabe se o kit chegou a ser realmente feito e analisado, e por alguma razão desconhecida, a polícia simplesmente chegou à conclusão que era de Ron, marido de Darlene, então não era preciso analisar e cavar mais fundo.

Chipman chegou a falar que Ron disse em um depoimento que ele e a esposa haviam feito sexo recentemente, na noite anterior ou na noite anterior àquela, mas também não é uma informação que se encontra em qualquer relatório.

Quer saber mais o quê não se encontra em lugar algum? O fato de Darlene ter sido presa com a fita que se sabe que o agressor levou.

O Dr. Smock afirma que, pelas marcas deixadas nos pulsos de Darlene, que são visíveis nas fotos da autópsia, é provável que ela tenha sido presa nos pulsos e que isso foi retirado dela quando o corpo foi deixado na mata. Imagine o poço de evidências que fitas assim não representam?

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Enquanto a pesquisa para The Deck Podcast juntava as peças do quebra-cabeças desse caso, foi preciso ir e voltar em vários documentos. Um deles, que era um pista dispensada pela polícia, também acabou sem respostas.

Quando Ron dá seu depoimento e sabemos que Darlene estava em casa se preparando para ir ao médico com as filhas, ele fala que uma visita domiciliar estava programada para aquela manhã, às nove e meia.

O homem chamado Lee, da Argus Appliance, deveria passar na casa para consertar um refrigerador.

A conversa durante o depoimento de Ron não evoluiu nesse ponto e o homem estava muito além da faixa etária do suspeito, porém, ainda existem perguntas. Por que é que Darlene receberia o homem em casa em um horário em que, tecnicamente ela não estaria lá, já que tinha consulta média da filha?

E você não iria querer investigar um homem que disse que estaria na casa da vítima exatamente na hora do crime?

Não foi possível encontrar muitas informações sobre Lee, além de que ele não estava dentro do perfil do suspeito. Porém, o filho de Lee tinha a faixa etária, o tipo físico e era um criminoso sexual condenado. Mas nada disso foi sequer descoberto pela polícia.

Esse é apenas mais um dos becos sem saída, até que nos deparamos com mais um: outro nome que surge no caso é Ray Oviatt, um pastor batista aposentado que foi preso por molestar crianças em 1986.

Ele foi pastor em uma das igrejas que os Hulse frequentaram nos últimos anos. As fofocas diziam que Darlene tocava piano na igreja e que o viu molestar uma criança e que por isso, ele foi atrás dela para se vingar.

Porém, Darlene nunca foi pianista na igreja, nunca frequentou fora dos domingos e sua família já não frequentava essa em específico quando o crime ocorreu.

Nesse mar de ideias, outro nome surge: Robert XXX, e esse numa ligação ainda mais estranha.

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No quintal dos Hulse foi encontrado uma prescrição no nome de Robert XXX, tudo indica que logo depois do crime.

O bilhete também não seria nada estranho se não fosse a data: riscada uma data anterior, estava registrada exatamente o dia da morte de Darlene.

De acordo com os relatórios antigos da polícia, Robert disse que não conhecia os Hulse, mas que talvez tenha passado lá na casa deles em algumas semanas antes numa venda de quintal.

O porém é que a família de Darlene e mesmo Ron, não se lembra de fazerem nada desse tipo em sua casa e, tampouco, tem notícias de um evento assim nos jornais locais da época.

Nelson chegou a sugerir que o papel tenha voado de um campo de terra que tem nas proximidades, mas e como fica a coincidência da data? Ocorreu tudo no mesmo dia?

As informações não parecem suficientes, mas para a polícia, foi: não tem mais registros de Robert ter sido procurado.

Procurado por Ashley e sua equipe, elas não tiveram como falar com Robert, que não estava em condições de saúde para atender.

Também tentaram contato com um garoto que na época estava na floresta, a poucos metros do corpo de Darlene, mas que alegou que não viu nada. E, aqui, suspeitam que esse garoto era também quem vinha andando pelas terras dos Hulse e que foi denunciado por espiar a casa, pela mãe e pela irmã de Ron, durante meses antes de Darlene ser morta.

Mas é mais uma pista que não leva longe e que não foi aprofundada pela polícia.

E ainda existem casos de agressões e estupro que merecem um segundo olhar, assim como o caso de Brandie Peltz, que com as novas descobertas sobre o modo da morte de Darlene, se aproxima ainda mais um do outro.

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Apesar de serem muitas surpresas seguidas para o caso, as filhas de Darlene não se chocaram com a notícia de que darlene foi estrangulada e, provavelmente, sofreu agressão sexual. Para Marie, é a explicação mais lógica para o crime, e tudo isso faz as coisas se encaixarem um pouco mais.

O que se precisa agora é que as providências cabíveis quantos aos exames de DNA sejam feitos, e os passos em direção às respostas esperadas por quase quarenta anos, sejam finalmente encontradas.

Roteiro: Lais Menini

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