ROTEIRISTA: Lucas Andries
Durante muito tempo, o nome Lindomar Castilho era sinônimo de sucesso: na anos 60, os discos dele vendiam aos milhões, as músicas tocavam sem parar nas rádios e os shows ficavam lotados. Ele era considerado o “Rei do Bolero”. Uma voz marcante e grave que embalou a vida de muita gente no Brasil.
Só que, de repente… tudo mudou.
Lindomar deixou de ser manchete por conta da sua música e passou a ser conhecido por algo totalmente diferente: na época, ele era casado com a também cantora Eliane de Grammont. E bastou uma única noite, em uma casa de shows em São Paulo, em 1981, para toda sua carreira desmoronar. Uma noite marcada por ciúmes… e violência.
O que aconteceu naquela noite? E como esse astro da música se tornou o centro de um dos casos mais chocantes do país?
Lindomar Cabral, mais conhecido como Lindomar Castilho, nasceu no dia 21 de janeiro de 1940, em Rio Verde – uma cidade de 240 mil habitantes do interior de Goiás.
LINDOMAR CABRAL:

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lindomar_Castilho
De acordo com algumas fontes, o Lindomar teria crescido numa família de músicos. Não sei se isso é 100% verdade, mas parece que sim. Que ele teria crescido nesse meio, né, num ambiente que sempre tinha um instrumento espalhado pela casa, gente tocando e cantando… Cercado de inspirações musicais.
E esse talento devia correr no sangue da família (rsrs). Porque ele também tinha o dom da música: um vozeirão grave, considerado bonito, e um estilo de interpretação cheio de emoção. Lindomar chamava a atenção quando cantava.
Só que, a princípio, Lindomar não seguiu o caminho da música: na década de 60, quando tinha por volta de 20 anos, Lindomar se mudou de Rio Verde para Goiânia pra fazer faculdade de Direito. E, além disso, ele ainda passou num concurso público e começou a trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. Parece que ele trabalhava como escrivão nessa época.
Mas, gente, mesmo nessa carreira do Direito e do funcionalismo público, a música sempre estava presente na vida dele. Ele nunca conseguiu deixar a música para lá… E, no começo dos anos 60, aconteceu algo que mudaria a vida do Lindomar para sempre:
Certo dia, estava rolando uma festa (era um encontro de amigos, alguma coisa assim…) na casa de um homem chamado Bariani Ortêncio. Esse cara era escritor e compositor, então dá para imaginar o clima do lugar: muita gente ligada à indústria da música, a conversa rolando solta, a bebida na mesa, aquele barulho de gente se divertindo…
Aí, em algum momento da madrugada, o Lindomar começou a cantar! Eu encontrei fontes dizendo que ele estaria fazendo serenata para uma moça ali, cantando uma música de amor pra ela. E eu imagino que, por conta da voz do Lindomar, todo mundo ao redor deve ter parado para escutar.
E quem estava ali, no meio das pessoas, ouvindo o Lindomar? Um homem chamado Diogo Mulero.
Diogo era mais conhecido pelo apelido “Palmeira”. Naquela época, ele era um cara importante da música brasileira. Um cara bem respeitado nesse meio:
Diogo era compositor e já tinha tocado em várias duplas, como a Palmeira e Piracy e depois a dupla Palmeira e Biá. E outras.
PALMEIRA E BIÁ:

Fonte: https://jornaloeco.com.br/cotidiano/livro-retrata-vida-de-diogo-mulero-o-palmeira/
Mas não era só isso: os palcos já tinham ficado pequenos pro Diogo e, com o tempo, ele começou a trabalhar como diretor artístico das gravadoras.
Então, Diogo já tinha sido diretor, por exemplo, da RCA, da Chantecler e da Continental, que eram algumas das gravadoras mais importantes do país na época.
E, nesse período, ele descobriu vários talentos, chegou a ser diretor artístico da Elis Regina… Pra vocês verem o naipe dele!
Ou seja, Diogo não era qualquer um, não. Ele era um homem que entendia do mercado e que tinha peso dentro da indústria.
E, naquela noite em que estava rolando o encontro na casa do compositor, o Diogo ouviu o Lindomar soltar o vozeirão. O que as fontes falam é que ele teria ficado encantado com o talento musical que ele viu. Ele vislumbrou o Lindomar fazendo sucesso no futuro.
Então, fez uma coisa que mudaria para sempre a vida de Lindomar Cabral: em algum momento, depois dessa noite, ele chamou Lindomar pra gravar um disco.
Sonhando alto e apostando que Lindomar faria sucesso na América Latina inteira, Diogo ainda teria sugerido que Lindomar mudasse o nome dele, pra ter mais apelo comercial no mercado latino-americano.
E o Lindomar, claro… aceitou. Foi assim que Lindomar Cabral passou a usar o nome artístico “Lindomar Castilho”.
No final de 1962, ele gravou o primeiro álbum dele, chamado “Canções que não se esquecem”, que foi lançado em 1964. E o estilo musical do Lindomar já estava definido desde esse primeiro álbum: Lindomar cantava músicas românticas, que muita gente da época chamava, parece que de maneira pejorativa, de música brega.
Aos poucos, ele foi deixando de lado a faculdade e aquele trabalho dele no serviço público, pra focar nessa carreira de músico. Ele até saiu de Goiás e se mudou pra São Paulo (acho que devia ser pra ficar mais perto de onde a indústria musical acontecia).
E, no final das contas, o Diogo estava certíssimo em pensar que o Lindomar seria um sucesso:
A partir desse ponto, o Lindomar engatou de vez: gravou vários discos, fez muitos shows e, principalmente, passou a se destacar no cenário musical brasileiro. Com o tempo, Lindomar explodiu.
Nos anos 70, ele gravou diversas canções que marcaram época. Tem, por exemplo, “Chamarada”, “Ébrio de amor”, “Vou rifar meu coração” e muitas outras. Músicas que tocaram para caramba e que ficaram na memória de muita gente.
As músicas embalaram casais pelo Brasil inteiro, a voz dele estava sempre nas rádios, ganhou prêmios, lotava shows… Ele passou a ser considerado o “Rei do Bolero”.
Além disso, de acordo com o próprio Lindomar, numa entrevista ao G1, ele se tornou um dos maiores vendedores de discos do país daquela época. E, gente, não era exagero: segundo o Aventuras na História, um único disco dele chegou a vender mais de 800 mil cópias, o que devia ser MUITO nesse período.
E tem mais: ele também ganhou fama internacional. Parece que a procura pelas músicas do Lindomar era tão grande, que os discos dele passaram a ser lançados ao mesmo tempo no Brasil e nos Estados Unidos. Além disso, as músicas ainda ganhavam versões em outras línguas, como o espanhol, para entrar em mercados como o do México, por exemplo.
Com tudo isso, claro que o Lindomar era muito popular.
Uma das músicas mais conhecidas dele, hoje, é “Você é doida demais”. Eu acho que todo mundo já deve ter ouvido essa música (rsrsrs). Em 2001, ela virou a música de abertura daquele seriado famoso da Globo, Os Normais — com a Fernanda Torres. Então, essa canção ficou marcada na memória de muita gente.
OS NORMAIS:

Fonte: https://gshow.globo.com/series/noticia/os-nomais-completa-20-anos-relembre-a-serie.ghtml
E eu quero destacar uma parte da letra dessa música pra vocês. Tem uma hora que Lindomar canta assim: “todo dia me enganava, sempre você me trocava pelo amor de outro rapaz. Você é doida demais”.
Essa música traz um pouco uma imagem de um narrador meio ciumento, né, na minha opinião. E, olhando para trás, é estranho como a letra parece avisar que algo terrível ainda aconteceria nesse caso.
Enfim… voltando ao caso:
Certo dia, em 1977, Lindomar estava na gravadora RCA, no Rio de Janeiro. E, andando pelos corredores, ele viu uma moça: ela tinha 20 e poucos anos e chamava atenção. Ela era muito bonita.
Eu imagino que eles devem ter trocado olhares… e aí foi paixão à primeira vista.
O nome dela era Eliane Aparecida de Grammont.
ELIANE APARECIDA DE GRAMMONT:

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eliane_de_Grammont
Eliane nasceu em 10 de agosto de 1955 e a mãe dela, chamada Helena de Grammont, trabalhava, assim como o Lindomar, nessa área da música. Ela era letrista. Então, desde cedo, a Eliane teve incentivo dentro de casa, vindo da mãe, pra seguir uma profissão parecida da dela, na mesma área.
E Eliane seguiu: em 1977, quando tinha 22 anos, a Eliane estava no começo da carreira dela como cantora, gravando suas primeiras canções.
E, gente, não foi um começo qualquer: Eliane já começou mandando muito bem, pelo que as fontes indicam. Já estava ganhando até projeção a nível nacional — era ela que cantava, por exemplo, uma das músicas da novela O Profeta, da TV Tupi, que se chamava “Coisas Bobas” e que era a música central de um casal ali no enredo.
Ou seja, Eliane tinha uma carreira bastante promissora! Foi nesse contexto que rolou aquilo que eu contei da Eliane e do Lindomar se conhecerem nos corredores da gravadora.
E, assim que se conheceram, eles teriam se apaixonado perdidamente um pelo outro. Pra vocês terem noção, de acordo com as fontes, Eliane chegou a terminar um noivado para poder se aproximar do Lindomar, de tanto que ela ficou apaixonada.
Rapidamente, os dois começaram a namorar e… logo em seguida, a Eliane ficou grávida. No dia 10 de março de 1979, eles se casaram. Lindomar era 15 mais velho que ela e, na cerimônia, Eliane estava grávida de 6 meses.
Pouco tempo depois, nasceu a filha do casal — a Liliane de Grammont.
ELIANE E A FILHA:

Mas, apesar de toda a paixão e de os dois estarem começando a construir uma família, tudo indica que o relacionamento deles era bem complicado:
Como relatou o Globo, por trás das músicas românticas, Lindomar era um cara MUITO ciumento. Parece que ele tinha ciúmes de tudo! Além disso, ele também tinha problemas com o álcool, supostamente. E bebia bastante.
Aí, essas duas coisas juntas (a bebida e os ciúmes) não dava certo: muitas vezes, Lindomar teria tido crises de ciúme e agredido a Eliane fisicamente e ainda feito diversos abusos psicológicos com ela ao longo dos meses.
Uma entrevista com pessoas próximas ao caso dá a entender que a Eliane até teria feito queixas dessas agressões físicas, mas que acabou retirando todas elas depois. E que retirou porque era muito apaixonada pelo marido.
E não para por aí: Lindomar ainda teria impedido Eliane de trabalhar.
Tem fontes que falam que ele teria obrigado ela a fazer isso. E tem fontes que falam que ele teria só pedido. Então, não dá pra saber qual versão é a mais correta. Mas, independente disso, o resultado foi o mesmo: por conta do Lindomar, ela teria parado de cantar e de se apresentar. Abriu mão da própria carreira.
E, gente, só um parênteses: isso tudo estava rolando nos anos 70. Não tinha delegacia da mulher, o machismo na sociedade era mais escancarado… A Eliane devia estar se sentindo muito desamparada nessa situação.
No final das contas, ela e o Lindomar moraram juntos por um ano. Só que, como dá pra perceber, a coisa não deu muito certo e, quando Eliane tinha 25 anos, ela não quis mais continuar nessa situação. Ela pediu divórcio.
Assim, Eliane e Lindomar se separaram.
Só que as coisas não eram TÃO simples assim: na época, um divórcio não acontecia rápido. Às vezes, demorava anos. Então, na prática, os dois não tinham mais uma vida de casal, só que, ao que tudo indica, no papel, ela e Lindomar ainda eram casados.
Ou seja, os dois não estavam mais juntos, nem moravam na mesma casa. Só que, no papel, ainda continuavam casados. Era tipo uma separação de corpos, sabe?
Pelo que dá para imaginar, o contato entre os dois acontecia basicamente por causa da filha deles, a Liliane, que já tinha quase dois anos. Lindomar e Eliane decidiram ter guarda compartilhada, então eles ainda se viam. Eles ainda precisavam conversar. Estavam, de alguma forma, ligados.
Em algum momento, Eliane chegou até a tentar uma reconciliação. Tentou reatar o casamento. Só que, segundo o Aventuras na História, o Lindomar teria colocado uma condição: ele teria dito que só aceitaria reatar se ela assinasse um acordo, tipo um contrato, com várias exigências.
Uma dessas exigências, por exemplo, seria que a Eliane pedisse desculpas para uma funcionária do Lindomar, uma mulher que já trabalhava com ele há anos. Não ficou claro porque ele queria que ela pedisse desculpas, mas o que a fonte conta é que a funcionária tinha sido motivo de brigas entre o casal.
No final das contas, Eliane não aceitou o acordo. E Lindomar também não quis voltar com ela se não fosse assim, supostamente. Então, continuaram separados.
Aí, os meses foram passando…
No início dos anos 80, a Eliane estava separada e com uma filha para criar. Então, as coisas não deviam estar fáceis, financeiramente. Por conta disso, ela decidiu retomar a carreira (e eu imagino que ela também devia querer a carreira dela de volta, claro… Voltar a fazer o que ela gostava).
Aí, ela voltou a trabalhar!
Eliane começou a cantar de novo, viajar, se apresentar em bares e casas de show, a ter o mesmo brilho que ela tinha antes de se casar.
Nas apresentações, ela costumava tocar MPB – Elis Regina, Chico Buarque e até músicas originais, compostas pela mãe dela.
E estava dando certo: começaram a surgir vários convites para ela cantar! Um dos locais que convidou Eliane, por exemplo, foi o Bellé Époque, que era tipo um bar ou uma casa de shows (alguma coisa assim…), que ficava no bairro Jardins, em São Paulo.
Hoje, esse lugar nem existe mais, só que, na época, era super badalado.
E é claro que Eliane não subia sozinha nos palcos. Ela precisava de alguém pra tocar violão e acompanhar ela. Então, ela se juntou profissionalmente a um cara chamado Carlos Randall.
O Carlos é cantor, compositor e toca violão muito bem. E tem mais: ele era primo do Lindomar Castilho.
Ao que tudo indica, ele já tinha feito parte da banda do Lindomar, só que, depois de um desentendimento, eles pararam de trabalhar juntos. Aí, cada um seguiu o seu caminho. E o Carlos começou a tocar com a Eliane.
Então, no final das contas, na época, Eliane estava recuperando a carreira promissora dela. Estava em ascensão de novo!
Até que… com o tempo, quando as pessoas começaram a ver ela e Carlos trabalhando juntos, passando mais tempo juntos, começaram a fofocar e a especular sobre a relação dos dois:
Não dá pra saber até que ponto isso era um boato que corria pela cidade ou se era uma coisa mais restrita — talvez desconfianças do Lindomar e de algumas pessoas. Mas o que se especulava era que a Eliane estaria tendo um caso com Carlos. E que esse relacionamento, inclusive, teria começado ainda na época em que ela era casada com o Lindomar.
Ou seja, corria o boato de que ela traiu o marido.
Gente, pelo que eu pesquisei, parece que Eliane realmente teria começado um relacionamento com o Carlos Randall. Só que nenhuma fonte confirma uma suposta traição, tá? Ao que tudo indica, o namoro começou depois que Eliane já tinha se separado do Lindomar.
Então, na segunda-feira, dia 30 de março de 1981, poucos meses depois de a Eliane e Lindomar se separarem, aconteceu algo que viraria as vidas de todo mundo de cabeça para baixo:
Nessa noite, Eliane estava se apresentando no Bellé Époque, em São Paulo. Já era de noite e eu imagino que o lugar devia estar muito cheio. O público devia estar cantando, bebendo, conversando…
Eliane estava cantando, parece que em um palco. Já o Carlos estava perto dela, tocando o violão.
Naquela noite, eles estavam cantando várias músicas MPB e o show devia estar muito bonito. Em certo momento da apresentação, Eliane começou a cantar uma música do Chico Buarque, chamada “João e Maria”.
Aí, no meio da música, ela chegou naquele trechinho que diz assim: “agora era fatal que o faz de conta terminasse assim, para lá do meu quintal era uma noite que não tem mais fim…”.
Até que…
No meio da frase, todo mundo escutou vários estampidos! Eram tiros.
Eu imagino que as pessoas ali devem ter se desesperado, se abaixado por um segundo pra se proteger, sem entender o que estava acontecendo.
Mas, rapidamente, todo mundo entendeu…
Era Lindomar Castilho. Ele tinha entrado no salão e estava atirando contra a Eliane com um revólver calibre 38. Ele atirou, pelo menos, cinco vezes.
Sem chances de se proteger, a Eliane foi baleada no peito e caiu no chão, sangrando.
As fontes contam que Carlos Randall também foi atingido, no abdômen. Só que, mesmo ferido, ele foi para cima do Lindomar. Aí, no meio da confusão, o Carlos avançou. E, junto com Carlos, também avançaram pra cima dele o dono do lugar (um cara chamado William Schmidt) e várias pessoas do público. Espectadores que estavam ali de boa, assistindo a Eliane cantar.
Alguém rapidamente desarmou o Lindomar. Com raiva, o público do local começou a bater no Lindomar: um soco aqui, um chute ali… Basicamente, Lindomar foi linchado pela multidão e depois amarrado.
Rapidamente, as pessoas correram para socorrer a Eliane. Eles pegaram a cantora e levaram ela às pressas pro hospital.
Porém, no caminho, infelizmente… Eliane faleceu. Ela tinha 26 anos.
Quando os policiais chegaram no Bélle Époque, Lindomar Castilho foi preso em flagrante.
LINDOMAR APÓS SER PRESO:

Nesse dia, 30 de março de 1981, Liliane, a filha do casal, estava na casa do Lindomar. E, sem saber, sua vida inteira virou de cabeça para baixo. Depois desse dia, a mãe nunca mais voltaria para casa e ela passou a morar com a avó, Elena de Grammont, mãe da Eliane.
Logo depois, o Lindomar também voltou para casa. Como era réu primário, ele conseguiu sair da prisão e esperar o julgamento em liberdade. E, gente, foram quatro anos até o julgamento!
Durante esse período, o Lindomar tinha o direito de ver a filha aos finais de semana e, pelo que contam as fontes, por conta disso, Elena era obrigada a receber ele em casa - o homem que tinha tirado a vida da filha, Eliane.
Eu imagino que isso devia doer muito nela. E, mesmo assim, a Elena tomou uma atitude, para proteger a Liliane, que deve ter doído ainda mais e que deve ter demandado muita força:
Elena proibiu que as pessoas falassem mal do Lindomar. E também proibiu que falassem da morte da Eliane perto da Liliane. Ou seja, com isso, Liliane cresceu sem saber que o pai quem tinha tirado a vida da mãe.
Liliane sabia que a mãe tinha morrido com um tiro, mas passou boa parte da infância achando que tinha sido um ladrão. Segundo a própria Liliane, a avó permitiu ela amar Lindomar: eles brincavam juntos, saíam, passavam tempo…
De acordo com ela, ele era um pai super bacana.
Até que… Em agosto de 1984, quatro anos depois do crime, quando Liliane tinha 6 anos e Lindomar 44, ele finalmente foi a julgamento.
E, gente, o julgamento gerou uma repercussão gigantesca no país!
A Liliane conta que lembra da nuvem de flashes das câmeras fotográficas dos repórteres na frente da casa dela. Todo mundo queria saber qual seria o desfecho do julgamento do Lindomar Castilho.
Só para contextualizar um pouco o clima da época: em 1984, a população ainda estava com a memória fresca de dois crimes que tinham chocado o país alguns anos antes.
Um deles foi o caso Ângela Diniz, em 1976. Ela foi morta pelo companheiro — inclusive, tem episódio aqui no canal, se você quiser ouvir depois. E teve também o caso da Dorinha Duval, uma atriz famosa da Globo que matou o marido a tiros em 1980.
Então, quando o caso do Lindomar e da Eliane chegou aos tribunais, ele já entrou num país que estava discutindo a violência nos relacionamentos.
Na época, ativistas do movimento feminista fizeram protestos na frente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Elas fizeram vigílias, levantaram cartazes e gritaram palavras de ordem. Era, ao mesmo tempo, um grito pela defesa da vida das mulheres e um grito pela punição do Lindomar.
PROTESTO PEDINDO PUNIÇÃO PARA LINDOMAR:

Enquanto protestavam, do outro lado, começaram a surgir vários homens, defendendo o Lindomar. Gente que queria que ele fosse absolvido.
Esses homens confrontaram as manifestantes, argumentando que, quatro anos antes, ninguém tinha ido às ruas pedir a prisão da Dorinha Duval, que tinha matado o marido. Os caras argumentavam que a reação tinha sido diferente no caso da Dorinha.
Aí, começaram a jogar pedras e ovos contra as mulheres que estavam ali protestando e a polícia teve que entrar no meio para separar os grupos.
Enfim… voltando pro julgamento:
Durante o julgamento, segundo o jornal O Globo, o Lindomar teria tentado virar a mesa contra Eliane: ele teria acusado ela de ser uma péssima dona de casa e de ser uma mãe negligente que segundo ele (abre aspas) “vivia com o pé na rua”.
Além disso, ele também teria acusado Eliane de ter um caso com o Carlos Randall, alegando que, depois da separação, Eliane teria ido morar em um apartamento do Carlos e que ela dava várias festas no local.
Ou seja, Lindomar meio que tentou desqualificar a Eliane na Justiça, como se a culpa de ele ter ficado com raiva e tirado a vida dela fosse da própria Eliane, da vítima. Sendo que, na verdade, os dois já estavam separados e a Eliane devia poder namorar quem ela quisesse, né, gente.
Durante o julgamento, o Lindomar também teria dito que não se lembrava bem da noite do crime e disse que foi tomado por uma “emoção violenta” (entre aspas). Que só atirou depois de ser agredido pelo Carlos Randall.
Depois de 36 horas de julgamento, veio a decisão: um júri popular formado por seis homens e uma mulher chegaram à conclusão de que o Lindomar era… culpado.
Ele foi condenado a 12 anos e 2 meses de prisão por homicídio qualificado, e foi preso.
Só então que a Liliane, que tinha 6 anos, descobriu que Lindomar era quem tinha tirado a vida da mãe dela. E isso foi um choque pra criança, claro:
Naquela época, a Liliane decidiu que nunca mais queria ver o pai e excluiu completamente o pai da vida dela. Eles passaram anos sem se comunicar. Não tinha ligação no Natal, não tinha cartinha no aniversário… Nada.
E, segundo Liliane, ele também não pagava pensão alimentícia.
Os anos se passaram: o Lindomar cumpriu sete anos em regime fechado e depois cumpriu o restante da pena em regime semi-aberto, em Goiás.
Na prisão, ele dava aulas de música e violão aos detentos e ainda compôs um CD, chamado “Muralhas da solidão”. Eu não sei se ele gravou de dentro da prisão ou se só compôs as músicas lá… Mas as fontes contam que esse CD foi criado nesse período em que ele ficou preso.
Em 1996, Lindomar cumpriu toda a pena. E foi solto.
Mais ou menos nessa época, depois do Lindomar passar vários anos preso, bateu uma vontade na Liliane de saber mais sobre o pai. Porque as únicas memórias que ela tinha dele eram memórias de criança. Liliane lembrava dele como um pai bacana, de acordo com o que relata. E agora ela queria saber onde e como ele estava.
LINDOMAR E LILIANE CRIANÇA:

Fonte: https://billboard.com.br/voz-de-voce-e-doida-demais-matou-a-mulher-e-foi-perdoado-pela-filha/
Então, quando Liliane tinha 17 anos, ela tomou uma decisão difícil: resolveu procurar o pai. Conseguiu um número de telefone e foi atrás dele.
Depois de vários anos afastados, os dois começaram a se reaproximar aos poucos.
Liliane conta que, mesmo depois de muitos anos, Lindomar carregava uma culpa muito grande pelo que fez e que a versão dele dos fatos não batia com o que realmente aconteceu naquela noite.
Nessa época, o Lindomar chegou a financiar o sonho da Liliane de estudar dança - e ela foi estudar em Nova York, na Julliard School, que é uma das mais conceituadas do mundo.
Para a Liliane, a dança era um jeito de estar mais perto da música e, claro, como consequência, mais perto da mãe. Mas ela também relata que, por muito tempo, não teve coragem de cantar, porque associava cantar com a morte.
Liliane virou coreógrafa e professora de dança e, pelo que a última notícia que eu achei sobre ela fala, de 2020, parece que ela manteve um contato à distância com o Lindomar. Pelo que eu entendi, ela conseguiu perdoar o Lindomar um pouco. Não tudo. Ainda deve ter mágoa… Ela até fala que não queria passar a mão na cabeça do pai. Mas parece que ela perdoou pelo menos em partes.
De acordo com o que ela contou, ele tinha um grande arrependimento e, por isso, não conseguia conviver com mais ninguém:
No final dos anos 90 e início dos anos 2000, Lindomar até tentou retomar a carreira. Gravou álbuns, fez shows e tinha bastante gente que gostava das músicas dele. Só que a sombra do crime dele nunca sumiu totalmente e a aceitação popular nunca mais foi a mesma. Depois do crime, as portas se fecharam para ele, os convites para cantar diminuíram… Então, parece que Lindomar passou a viver recluso.
De acordo com o próprio Lindomar, ao G1, ele perdeu o prazer de cantar e não cantava mais nem no chuveiro. Ao que tudo indica, Lindomar vivia no anonimato, com o dinheiro de direitos autorais e com a venda de discos.
Recentemente, no sábado, dia 20 de dezembro de 2025, Lindomar faleceu de infecção pulmonar. Gente, eu estou gravando esse episódio aqui no dia XX de dezembro, então foi bem recente mesmo.
Ele tinha 85 anos, morava sozinho em Goiás e, de acordo com o G1, tinha um problema de saúde que comprometia parte de suas cordas vocais.
Carlos Randall, por sua vez, está vivo. Ele tem 73 anos, continua na indústria da música e… faz muito sucesso!
Várias músicas que ele compôs foram gravadas por vários artistas, como Chitãozinho e Xororó, Sandy e Júnior, Marília Mendonça, Zezé di Camargo e Luciano, entre outros. Além disso, Carlos já ganhou dois Grammys Latinos. Então, o cara é top!
Segundo uma notícia do R7, ele se recusava a fazer shows na cidade natal dele, em Goiás, por medo das represálias que ele poderia sofrer por parte do Lindomar, que era primo dele.
Gente, Lindomar foi condenado em 1984. Uma época em que o conceito de feminicídio nem tinha se popularizado ainda. Foi apenas em 1985, um ano depois, que surgiu a primeira delegacia da mulher no Brasil. E, em 1990, foi fundada a casa Eliane de Grammont, um centro que oferece atendimento a vítimas de violência doméstica e sexual.
O caso Eliane se tornou um símbolo na luta contra a violência de gênero, gerando debates sobre a violência contra a mulher e ajudando a mudar a visão da época sobre os crimes passionais. Desmistificando a ideia de que quem cometia esse tipo de crime ficava, de alguma forma, “irracional” ou fora de controle durante os momentos do crime. Até porque, muitas vezes, esses crimes são premeditados, né… Então, ajudou a desmistificar isso um pouco.
E, gente, para finalizar esse episódio, na lápide da Eliane, está escrita uma frase que eu queria muito deixar como mensagem para vocês. Está escrito assim: “o amor não fere, o amor não silencia, o amor não mata”.
LÁPIDE DE ELIANE DE GRAMMONT:

FONTES:
- https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/o-crime-que-parou-o-brasil-a-tragedia-de-eliane-de-grammont.phtml
- https://revistamarieclaire.globo.com/EuLeitora/noticia/2020/12/orfa-de-um-feminicidio-decidi-transformar-dor-em-forca-para-defender-mulheres.html
- https://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/eliane-de-grammont-cantora-morta-no-palco-pelo-ex-marido-o-rei-do-bolero-lindomar-coelho.html
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Lindomar_Castilho
- https://www.terra.com.br/diversao/tv/quase-ninguem-lembra-mas-cantor-do-tema-da-serie-os-normais-foi-preso-apos-assassinar-a-ex-esposa-com-cinco-tiros,7d45c870669efdbf52c19480cc9300909fr35rne.html
- https://www.youtube.com/watch?v=mhaO0OiHhVw
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Voc%C3%AA_%C3%89_Doida_Demais
- https://www.youtube.com/watch?v=JxGERMWCooE&list=RDJxGERMWCooE&start_radio=1
- https://musicapopulardobrasil.blogspot.com/2007/07/lindomar-castilho-o-maior-vendedor-de.html
- https://www.youtube.com/watch?v=m386p4nY19Y&list=RDm386p4nY19Y&start_radio=1
- https://clebertoledo.com.br/opiniao/rafael-dias-onde-anda-lindomar-castilho-da-gloria-ao-silencio-de-um-recomeco-tardio/
- https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2012/05/nao-canto-mais-nem-no-chuveiro-afirma-lindomar-castilho.html
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Randall
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Eliane_de_Grammont
- https://record.r7.com/balanco-geral/hora-da-venenosa/videos/carlos-randall-revela-ter-medo-de-ser-assassinado-pelo-primo-02062022/
- https://www.youtube.com/watch?v=apHXuULhles
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Verde
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Waldomiro_Bariani_Ort%C3%AAncio
- https://recantocaipira.com.br/duplas/palmeira/palmeira.html
- https://jornaloeco.com.br/cotidiano/livro-retrata-vida-de-diogo-mulero-o-palmeira/
- https://entretenimento.r7.com/prisma/viola-no-pedaco/o-caipira-e-a-pimentinha-06022025/
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Brega
- https://gshow.globo.com/series/noticia/os-nomais-completa-20-anos-relembre-a-serie.ghtml
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorinha_Duval
- https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngela_Diniz
- https://www.tjmt.jus.br/noticias/2025/12/lili-grammont-transforma-a-dor-uma-orfa-feminicidio-em-forca-para-salvar-vidas
- https://www.youtube.com/watch?v=u4hI8XgQ7c8
- https://billboard.com.br/voz-de-voce-e-doida-demais-matou-a-mulher-e-foi-perdoado-pela-filha/
- https://www.gazetasp.com.br/cotidiano/cemiterio-sp-esta-eunice-paiva-guarda-tumulos-craques-rappers-atrizes/1151189/
- https://mpbartistas.blogspot.com/2010/12/lindomar-castilho.html
- https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/14621/1/Edson%20Correia%20de%20Oliveira.pdf
- https://www.youtube.com/watch?v=JxGERMWCooE&list=RDm386p4nY19Y&index=2
- https://www.gov.br/mulheres/pt-br/ligue180
- https://www.tjdft.jus.br/informacoes/cidadania/nucleo-judiciario-da-mulher/o-nucleo-judiciario-da-mulher/como-denunciar-situacoes-de-violencia-contra-as-mulheres
- https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/12/20/lindomar-castilho-o-rei-do-bolero-morre-aos-85-anos.ghtml













